A estatuinte deles e a nossa

A ex-reitora, Suely Vilela, passou o bastão para Rodas. Diretas para reitor não resolvem o problema. É preciso acabar com o poder unipessoal da reitoria e a ditadura dos professores titulares no Conselho Universitário

A mobilização dos estudantes colocou em pauta a questão do poder na USP.

Por meio da reivindicação de “estatuinte soberana já” aprovada na Assembleia Geral do último dia 17, os estudantes expressaram o seu desejo de modificar profundamente a forma como a universidade é administrada.

É preciso esclarecer, portanto, o significado desta bandeira de luta.

 

A farsa da reforma do estatuto promovida por Rodas

Rodas, o reitor-interventor indicado pelo governo do PSDB para encaminhar a privatização da universidade (ou, como ele mesmo afirmou no jargão direitista da moda, a “modernização” da USP), é contra que haja qualquer tipo estatuinte. Não quer aceitar a deliberação democrática da maioria da universidade.

No entanto, mesmo os inimigos da democracia na universidade, precisam promover algumas mudanças no regimento interno da USP para colocar seus planos de privatização em prática. Para tanto, Rodas e seus representantes já afirmaram que estão dispostos a negociar pequenas alterações nos estatutos da USP. Mas não com os estudantes! Para eles, a opinião dos que são a razão de existir da universidade não importa.

A reitoria quer discutir apenas com os professores titulares, que mandam nas faculdades e no Conselho Universitário e que são indicados por ela mesma, para definir que mudanças serão necessárias para facilitar a privatização da USP, ou seja, com uma ínfima minoria da comunidade universitária. Algumas delas, inclusive, já foram colocadas em prática. É o caso, por exemplo, das mudanças no sistema de carreira dos professores e do PROADE, que serve para justificar e agilizar a demissão de um grande número de funcionários da universidade elevando as exigências feitas sobre estes.

 

“Estatuinte soberana” ou “diretas para reitor”? 

Uma “estatuinte” que não coloca em questão o poder não é uma estatuinte de verdade. É apenas uma comissão para discutir o estatuto. Mas, discutir para quê se Rodas já afirmou que vai colocar em prática as mudanças que pretende fazer?

Para que a “estatuinte” seja soberana, esta deve se dar sobre a base da liquidação do poder unipessoal da reitoria e da dissolução do antidemocrático Conselho Universitário, onde um punhado de professores titulares (a verdadeira minoria dentro da universidade!) toma as decisões à revelia da vontade de estudantes e funcionários.

Neste sentido, os estudantes também não podem se deixar levar pela conversa pseudo-democrática de alguns setores da esquerda universitária que falam em “eleições diretas para reitor”. Dar aos estudantes o poder de apenas escolher aquele que irá administrar a universidade quase que com poderes monárquicos não vai alterar em nada a maneira antidemocrática com que a USP vem sendo conduzida ao desastre pelos interventores do Estado.

 

O que é uma estatuinte de verdade?

A “estatuinte soberana” reivindicada pelos estudantes tem como pressuposto a autonomia da universidade, que está sendo pisoteada neste instante pela Polícia Militar chamada pelo interventor do Estado na USP para reprimir o movimento estudantil e calar a discussão democrática. Não é possível falar seriamente em estatuinte enquanto a PM está no campus e a autonomia da universidade é ferida pela mais brutal intervenção estatal.

É preciso liquidar o poder de Rodas e de qualquer outro reitor-interventor sobre a universidade. Para que a USP seja efetivamente democrática e possa servir fielmente aos interesses da esmagadora maioria da população pobre e trabalhadora, que hoje está fora dela, é preciso que haja um governo verdadeiramente democrático na universidade: um governo proporcional de estudantes, funcionários e professores, ou seja, com maioria estudantil.

Sobre usplivre.org.br

Jornal editado pelos estudantes da USP em luta contra a política de repressão e de privatização da USP promovida pelo reitor João Grandino Rodas.
Esse post foi publicado em Jornal da USP Livre! nº 7 - 22/11/2011 e marcado , , , , , . Guardar link permanente.