Gente diferenciada não entra na USP

Bilhete único da USP
O BUSP: Circulares da USP estão nas mãos da SPTrans. Quem paga é você! É o caminho aberto para a privatização da universidade.

Quando alguém se dirige para a Cidade Universitária, em São Paulo, defronta-se com uma guarita e cones que restringem a passagem dos veículos que procuram entrar no campus. Ao entardecer, essa guarita é reforçada por seguranças que abordam os veículos perguntando aos condutores o que pretendem fazer ali. Junto a essas medidas, outros portões de acesso à Universidade são fechados. Tudo em nome da segurança? Veremos que não.

O aluno, para ingressar na Universidade, passa por uma barreira muito mais difícil de ser transposta. Primeiro, é obrigado a pagar por um curso pré-vestibular, caso contrário, pouca chance terá de entrar numa faculdade. E a primeira opção é sempre a USP. Depois, terá de participar do vestibular, o qual sempre foi pago, apesar de a Universidade ser gratuita e bem público. Então, vem a maratona de provas e a ansiedade da espera.

Sendo a Universidade de São Paulo patrimônio público seria de esperar que fosse aberta a todos, democraticamente. Ocorre que esse “democraticamente” é apenas figura de retórica. No Brasil nunca existiu nada de fato democrático. Em relação à Universidade, podemos constatá-lo pela maneira como ela, apesar de pública, é seletiva e acaba incorporando sobretudo alunos provenientes de escolas particulares. E brancos. Os negros e os pobres são, quase sempre, obrigados a contrair empréstimos e se matricular em universidades privadas se quiserem estudar.

Essa é a orientação do ensino em nosso país. Diante dessa realidade, a direita brasileira procura, demagogicamente, inverter a situação e a solução, propondo, não o ensino gratuito para todos, mas o ensino pago para todos, o que, de maneira nenhuma resolve o problema da grande maioria da população, que não pode pagar pelos estudos.

No início da década de 1980, o governador do Estado, o Sr. Paulo Maluf, propôs que a USP passasse a cobrar mensalidades dos alunos para… democratizar o ensino público. Alegava que os que estudavam na USP tinham condições financeiras de pagar pelo ensino.

É fácil de provar que as políticas neoliberais são segregacionistas. Vejam o que aconteceu com o transporte na USP. Primeiro foi o metrô. O projeto inicial da Linha Amarela indicava que haveria duas estações no campus, uma na entrada principal, perto da Academia de Polícia, e outra perto do Hospital Universitário. Acontece que, perto do Hospital, localiza-se uma favela, a São Remo. Uma estação do metrô ali perto atrairia “gente diferenciada” para o campus. Mas, como Universidade não é lugar de pobre, o Reitor — o mesmo João Grandino Rodas — decidiu (democraticamente, é claro!) que o metrô não poderia passar por ali. Foi o mesmo que aconteceu com a Estação Três Poderes, rejeitada pelos moradores da região do Butantã, por que, uma vez instalada, atrairia vendedores de pipoca para o bairro (foi isso mesmo que os moradores alegaram). E os mesmo quase aconteceu com a estação projetada para a Rua Sergipe.

Mas o neoliberalismo não é apenas uma política de segregação é, também, uma política de inclusão. Inclusão de ricos. Já que o metrô, que é público, não vai mais passar na universidade pública, passará na universidade particular. A mesma Linha Amarela, que não roda mais pelos lados da USP, terá uma estação dentro da Universidade Mackenzie. Afinal, ali não existe pobre.

E, para encerrar, o Reitor, agora, não quer mais ônibus gratuito no campus. Os alunos agora têm um cartão provisório para tomar o ônibus que sai da Estação Butantã do Metrô. Os tolos, defensores do neoliberalismo, dirão: mas o aluno não pagará nada para pegar o ônibus. O aluno não pagará (pelo menos, por enquanto), mas a empresa de ônibus, certamente, não deixará de receber. Alguém pagará, pois, afinal, é empresa particular e não vive de vento.