O Tucano (uma fábula)

O Tucano é um pássaro brasileiro, bem brasileiro, tão brasileiro que é identificado por suas cores e seus trejeitos por pássaros de outros países, como o mais típico de nossas terras. Suas cores vivas e seu bico proeminente fazem dele tão conhecido e tão estimado pelos habitantes da floresta brasileira, apesar de sua fama de encrencar com os pássaros pequenos e com os animaizinhos que andam pela floresta.

Antigamente, o pássaro nacional era o Papagaio: falador, jogador, amante de belas papagaias e periquitas, que nem se importava com os infortúnios de que de vez em quando era vítima:

− Vamos para a próxima! – dizia ele, quando perdia uma partida.

E assim o Papagaio ganhou fama internacional, pela sua malandragem e bom-humor, além de enfrentar as situações adversas sem esmorecer. E todos diziam:

− Essa floresta tem futuro!

O Tucano, não, ele é diferente: mais silencioso, mais embirrado e mais sombrio, em que pese suas cores mais vivas e um bico bem grande. A propósito, quando ele perde uma partida, volta a lutar, a embirrar e bate o bico até quebrá-lo, quando seu adversário é mais forte, e não se deixa abater pelas suas investidas.

Mas o Tucano não se contentou com seu modo de ser. Ele sabia que era o mais esperto da floresta, pois aprontava das suas sem que ninguém o soubesse. E ainda acusava o Papagaio por todas as malandragens de que se tinha notícia! Um dia, o Papagaio ficou uma arara e começou a reunir provas, testemunhos e milhares de indícios para comprovar que o Tucano era quem estava metido em quase todos os males da floresta. O Papagaio reuniu as provas, apresentou-as para a Coruja juíza, que fingiu que iria investigar e punir o Tucano, se ele fosse mesmo culpado. Naquela mesma noite, a Coruja jogou as provas todas no rio. Mais tarde, a floresta veio a saber que a Coruja era uma das beneficiadas do Tucano.

Sabendo que ficava impune, sempre que aprontava das suas, o Tucano queria mais. Ele então negociou com o Leão o título de rei da selva, sem que o Leão o percebesse, é claro: ofereceu-lhe tudo o que suas asas e seu bico podiam trazer. No início da negociação, até que o leão tentou resistir às investidas importunas do Tucano:

− Eu sou o rei da selva e não preciso que ninguém segure a minha coroa!

O Tucano não desistia. Disse ao leão que podia auxiliá-lo a identificar inimigos ao longe e avisá-lo da existência das melhores caças, que o leão não podia ver daqui debaixo.

Dessa vez, o Leão ficou pensativo, coçou sua barba e disse:

− E o que eu devo lhe dar em troca?

− Oh, nada demais – disse o Tucano −, nada que você não possa me oferecer, em um favorzinho pela nossa amizade, sem esforço nenhum!

O Leão aceitou, e fechou o trato. Começou a ter caça cada vez mais abundante e a se sentir cada vez mais rei. E passou a proteger o Tucano com o máximo de boa vontade. Secretamente, o Tucano se achava o verdadeiro rei. De qualquer sorte, o que era vantagem para o Leão, também o era para o Tucano.

O Tucano afiou seu bico: o rei dos animais concedeu-lhe o poder de polícia de toda a floresta. E ele podia contar com outros pássaros, com muitas onças e jaguatiricas para exercer seu poder. Ele se tornou mais e mais impetuoso, querendo fazer justiça a todo o custo em todas as irregularidades da floresta:

− A pomba se faz de inocente! Eu a vi, ainda ontem, fazendo cocô onde não era devido!

Eis que roubaram um pé de sandália, na floresta. O Tucano não iria deixar por menos, afinal é preciso acabar com qualquer tipo de roubo, de qualquer coisa que seja.

Alguns animais mais sensatos, ruminantes ou não, insistiram com ele:

− Foi só uma sandália, um só pé, e ainda era bem velhinha e gasta, pelos depoimentos que ouvimos.

Não adiantou: o Tucano, com seu poder de polícia da floresta e com sua capacidade de entrar em todos os cantos de mata fechada, até mesmo os dominados pela mula-sem-cabeça, pelo curupira e outros tantos, disse que levaria até o fim essa história.

No outro dia, o Saci foi trazido acorrentado à presença da Coruja juíza, que, desta vez, ficou indignada!

− Como você pode provar que foi ele que roubou a sandália?

− Ora, ele é o único habitante da floresta que tem um pé só, tem uma cor e um ar suspeito e não conseguiu convencer que não estava no local do roubo, naquele dia.

Não adiantava nada o Saci alegar que ele usava sempre a mesma sandália ou que não tinha nada a ver com o roubo.

Depois de muita discussão, a Juíza aprovou a requisição e mandou prender o Saci por um longo tempo. E que isso servisse de lição para os demais ladrõezinhos da floresta.

Muito tempo depois, a floresta veio a saber que a suposta sandália roubada não era de nenhum animal da floresta, e que tinha sida esquecida por alguém que estava de passagem por lá.

 

Reginaldo Parcianello

Escritor, cursa o doutorado em Letras