Breve história do CRUSP

O CRUSP em 1968

Publicado em três partes na edição impressa do Jornal da USP Livre!, o artigo  a seguir foi baseado no depoimento do estudante Rafael Alves, ex-morador do CRUSP

A idéia de ter uma moradia para os estudantes remonta à própria fundação da Universidade. Desde que se fundou a USP existe a idéia de criar um Conjunto Residencial (CRUSP) onde se aloje os estudantes. Mas isso demorou muito para acontecer.

Em 1963, surgiu o primeiro projeto do CRUSP, quando vários arquitetos participam da licitação. Quem ganha é Eduardo Kneese, um arquiteto contemporâneo que faz o projeto todo com concreto pré-fabricado. Essa escolha barateia tanto a obra que dos seis blocos que seriam construídos torna-se possível construir doze, com o mesmo dinheiro. Então, 12 blocos são construídos, o dobro da idéia original.

Os prédios iriam servir para abrigar atletas dos jogos pan-americanos, em 1963, e depois se tornariam moradia estudantil. Tudo foi arquitetado e pensado para isso. Com espaços de vivência e tudo mais. Mas no final dos jogos a reitoria deixa o CRUSP fechado. Aí tem início a luta dos estudantes para conquistar esse espaço, que agora já é físico, e expõe a recusa da reitoria e dos governos de atender às reivindicações e necessidades dos estudantes.

Em 1964, 12 estudantes ao lado de Rafael Kauan, contra a assembléia geral dos estudantes da USP, ocupam o 5º e 6º andar do Bloco A – 12 estudantes em 12 blocos. Deixando claro que muitas vezes é a chamada minoria que faz a diferença. Hoje o CRUSP existe porque alguns, poucos, estudantes iniciaram essa luta. A partir dessa primeira ocupação várias pessoas começam a vir para o CRUSP e a moradia estudantil vai se tornando uma realidade.

É quando a universidade cria um aparato burocrático, chamado ISSU (Instituto de Saúde e Serviço Social da Universidade), o precursor do que hoje é a Coseas (Coordenadoria de Assistência Social da USP).

Os estudantes por sua vez decidem criar a Aurck, em homenagem ao Rafael Kauan (Associação de Universitários, Rafael Kauan), que morreu três meses depois dessa primeira ocupação. Dizem que ele morreu em um acidente de carro. Dizem. A Aurk garante a organização política dos cruspianos em 1964. Faziam reunião por andar, assembléias de bloco e depois assembléias gerais. Foi uma grande experiência. Todos os blocos ocupados, estudantes de todos os lugares… o melhor período do CRUSP.

 

Os anos 70

 

Diante da ditadura, a Aurk e pessoas do CRUSP começam a se envolver com a resistência contra o golpe militar. Depois da batalha da rua Maria Antônia (onde ficava a FFLCH), com os estudantes do Mackenze, o centro político do movimento estudantil, fica sendo o CRUSP. No térreo do Bloco G, ficava a sede do DCE, da UNE (União Nacional dos Estudantes), e da própria Aurk. Esse foi o melhor período que o CRUSP viveu. Super organizado, atuando politicamente.

O que garantiu que a existência de toda uma estrutura que não existe mais. Centro de vivência, quadras de esporte, piscina. A universidade fornecia roupa de cama, colchão, tudo. Tinha a lavanderia com funcionário específico…

Até que o bandejão (Restaurante Universitário) reajustou o preço e o pessoal do CRUSP monta no centro de vivência, ao lado do bandejão, uma cozinha improvisada. Acontece o boicote e os estudantes passam a comer no restaurante organizado pelos cruspianos. A reitoria chamou a polícia e muita gente foi presa. O acontecimento marca a greve de 1968. Foram os cruspianos que levaram adiante a única greve por assistência estudantil.

Em 17 de dezembro de 1968, os tanques do 3º exército cercam o CRUSP. Estava preparada uma resistência, tinha barricadas nas ruas, mas o exército chegou com os tanques e foi um massacre. Prenderam 800 pessoas, levaram até a rodovia Raposo Tavares e os deixaram no KM 14. Isso porque era época de férias e a moradia estava meio vazia. Cerca de duas mil pessoas viviam no CRUSP nessa época. A moradia foi fechada e assim ficou por dez anos. Até começarem a colocar umas coisas, para justificar esses dez anos de abandono. É quando surge a Coseas (Coordenadoria de Assistência Social), em 1975, funcionando no prédio da reitoria.

Com um novo ascenso do movimento estudantil, a partir de 1977, vários estudantes se concentram no Bloco A, em 1979 . Montam um acampamento e assim começa a retomada. Ocupando bloco por bloco. Na época a universidade chamava os quartos de sala, para tirar o caráter de moradia. Nessa segunda ocupação os punks vêm para o CRUSP. Bandas históricas do punk rock nacional surgem aqui, como a banda Excomungados, que vai fazer 30 anos. Primeiro ocupam 11 “salas”. Vai chegando mais gente, ocupando mais espaços, até retomar os blocos, mas não todos. Eles demoliram, tomaram alguns prédios e fizeram ruas. Na década de 80 a situação é bem precária, porque os prédios ficaram abandonados 10 anos. Em 1984 acontece um acidente e duas pessoas morrem. A reitoria aproveita para fazer campanha contra a moradia, dizendo que no CRUSP só tinha vândalo, criminoso, favelado.

 

Dos anos 80 aos dias de hoje

 

Nesse momento (entre 1984 e 1985) o CRUSP estava desorganizado e 25 pessoas fundaram a Amorcusp (Associação de Moradores do CRUSP) com o intuito de fazer a negociação com a reitoria e manter o CRUSP aberto. Mas esse pessoal é vinculado à reitoria, e faz um acordo: a reitoria faz a reforma, mas em troca, a Coseas vai para dentro do CRUSP e se torna o órgão responsável por geri-lo, determinando, inclusive, quem entra e quem sai. Ela (a Amorcrusp) foi também responsável por elaborar um estatuto que ficou pronto apenas em 1997. Essa Associação organiza os estudantes do CRUSP até hoje.

De lá para cá algumas coisas aconteceram. Em 1996, houve a ocupação da sede administrativa da Coseas, que fica no prédio onde já funcionou a lavanderia do CRUSP. Em 2006, pouco antes da ocupação da reitoria que aconteceu em 2007, contra os decretos do então governador Serra, que retirava a autonomia da universidade, a Amorcrusp passa a ser controlada por uma chapa mais à esquerda, que participa da ocupação da reitoria e defende as reivindicações dos moradores, como a construção de novo bloco (A1), ônibus circular no final de semana, e abertura do bandejão também aos finais de semana. Conquistas recentes que foram resultado dessa luta. Conquistas que estão ameaçadas por Rodas e sua ditadura na Universidade.

Em 1964, que é quando o CRUSP começa a funcionar efetivamente como moradia estudantil, a USP tinha cerca de 40 mil alunos. Hoje são cerca de 80 mil alunos. Naquela época existiam 12 blocos e moravam aproximadamente duas mil pessoas. Agora, oito blocos de moradia, representam aproximadamente 1.600 vagas. A Unicamp tem um estudo sobre o assunto: o ideal para o caso brasileiro seria ter 10% do número total de estudantes em moradia estudantil. Na USP, seriam necessárias oito mil vagas na moradia, mas menos de duas mil vagas estão disponíveis.

É importante dizer que assistência estudantil, em especial a moradia, existe para dar igualdade de condições para os estudos. Se for levada em consideração que a USP, na sua carta de fundação, diz “existir para formar as elites paulistanas”, ou seja, para o estudante que não precisa trabalhar para se manter, e pode se dedicar exclusivamente aos estudos. O estudante que vem da periferia, do interior, que consegue furar o filtro do vestibular e entrar na universidade chega aqui e se vê desesperado, pensando onde e o que vai comer, morar… Por isso representa igualdade de condições. Oferecer a possibilidade para esse estudante se desenvolver, garantir sua permanência na universidade.

Alguns filmes importantes que contam um pouco dessa história:  

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