BUSP: Mais ônibus e menos pobres na USP

Existem muitas coisas acontecendo na USP nestes últimos meses. Falei de algumas delas em outros momentos (posts) e agora quero me centrar na novidade do momento na Reitoria da USP, o BUSP (novo sistema de transporte que vai substituir os antigos circulares na universidade).
Para organizar a nossa discussão separemos em três eixos: Político, Administrativo e do Desejo.
Estou escrevendo este texto na terceira pessoa não para parecer um discurso futebolístico, mas para ressaltar que escrevo baseado em diversas conversas que tive com amigos interessados no assunto.

Eixo Político

O nível político nos trás um problema bastante sério. Os novos ônibus usarão o sistema da SPTrans – bilhete único e catracas e terá como usuários estudantes, funcionários e professores da universidade. Estes grupos não pagarão passagem, desta forma a catraca e o bilhete servem apenas para controle.
Contudo é importante lembrar que não são apenas estes grupos que participam da rotina da universidade. A USP é cercada por bairros, alguns carentes, e portões que acessam estes bairros. Desta forma muitos moradores utilizavam os circulares de maneira gratuita para chegar até suas casas.
Temos também na USP o Hospital Universitário que é usado por esta comunidade externa que também usavam os serviços dos circulares para chegar até o HU.
Além disso, boa parte dos serviços da universidade são tercerizados, coletas, limpeza, segurança, etc., deixo a pergunta: Estes funcionários tercerizados poderão usar o novo sistema de transporte? Se não, o que vão fazer? Pagar mais uma passagem? Atravessar a universidade a pé? (lembrando que a área da Cidade Universitária é de 7.443.770 m²).
A universidade respondeu muito parcialmente estes pontos pelo Jornal USP Destaque, enviado para toda a comunidade USP por email e (excepcionalmente!) este ano, enviado no manual dos calouros. Sua resposta foi, os circulares continuarão existindo de maneira diferenciada, denominados Circulares Culturais, que levarão as pessoas da comunidade externa para museus, palestras, eventos, mostras, etc. Me desculpe reitoria, mas a grande maioria das pessoas que apresentei acima não vem na USP para estes eventos, eles vem aqui para Trabalhar!
Texto do USP Destaques: “os atuais circulares funcionarão normalmente até o final do mês de março, durante a fase de adaptação do novo sistema. A partir de abril, passarão a fazer parte de uma nova linha, batizada de “Circular Cultural”, projeto idealizado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária. Essa nova linha levará gratuitamente docentes, funcionários, alunos e visitantes às Unidades e pontos que exibam mostras, recitais, apresentações, congressos e demais atividades culturais”.
O circular cultural já existiu na USP, passava de hora em hora (com sorte) nos finais de semana. Ou seja, era pouco utilizado e pouco útil.
O principal problema político que vemos aqui é o fechamento contínuo da universidade para o público externo. Há poucos anos atrás presenciamos a recusa da USP de ter uma estação do Metrô dentro do seu campus, na contra mão das maiores universidades do mundo. Já temos os horários reduzidos de entrada nos finais de semana, os ônibus que não entram na universidade nos finais de semana, mesmo havendo moradores nestes período e agora o fim dos circulares gratuitos e livres para a comunidade externa.
A elitização da universidade acontece quando se fecha para a comunidade externa, uma universidade já teve em outros tempos, milhares de pessoas frequentando seu espaço nos finais de semana, como um parque, como espaço público, que de fato é!
Acontece que não é interessante para o poder da universidade ter pessoas (gente diferenciada?) circulando nos finais de semana, que é justamente quando ela é alugada para academias, corridas de grandes marcas (NIKE, REBOOK, etc.), Shows e festas ou até mesmo campeonatos esportivos fechados.

Eixo Administrativo

O eixo administrativo aborda a os gastos excessivos e não calculados (ou não apresentados) pela burocracia universitária para a implementação do novo sistema.
Este sistema é mais econômico que o sistema antigo?
Quais custos não foram apresentados e que devem ser levados em conta para avaliar se o sistema é de fato mais econômico?
Custos de contratação de estudos e serviços, como a impressão de cartões, instalação de equipamentos como catracas, etc.
Custos administrativos adicionais para a administração de um dúplice da carteirinha da usp com mais de 60 mil usuarios. Hoje o modelo de circulação livre não custa NADA em termos administrativos.
Custo ANUAL de emissão de novos cartões para ingressantes.
Os motoristas dos atuais circulares, se forem concursados, continuarão a receber. Onde passarão a trabalhar?
Vale a pena lembrar que esta reitoria não tem excelência nas questão administrativas com gastos elevados para manutenção e reformas, como os tapetes comprados por 32.000 reais, etc.
Toda esta parte administrativa não é clara e não é apresentada pela universidade que prefere trabalhar apenas no nível do desejo.

Eixo do Desejo

O que estou chamando de eixo de desejo, trata-se de dar aquilo que as pessoas querem em termos de conforto de maneira acrítica.
Para isso uso os termos de Michel Foucault (1979) para falar sobre o poder.
Para Foucault o poder não é algo somente repressivo, somente destrutivo, se fosse desta forma seria muito mais fácil mudar o poder de mãos, fazer a troca do poder. Por que é tão difícil mudar o poder então? Sua proposta é que o poder também age no nível do desejo das pessoas e desta forma seu carácter repressivo fica submerso na sensação de satisfação que gera.
Não podemos negar que alguns usuários se beneficiarão com a mudança dos ônibus, afinal deverão ter mais carros na linha e o transporte será feito até a estação Butantã do Metrô.
Este é o nível do desejo que o poder atuou, fazendo com que a exclusão de muitos usuários não fosse percebida.
Um outro exemplo que podemos dar sobre a ação do poder no nível do desejo está na recente reforma do Restaurante Universitário da Física. O gasto de 1 MILHÃO DE REAIS, o aumento pífio do espaço físico do restaurante e a colocação de catracas proibindo a divisão de bandejas/pratos, foram sufocados pelo desejo realizado das pessoas de comer em um local limpo, com cadeiras e mesas novas com a aparência de um shopping.
Não podemos deixar que a melhora do transporte que deverá ocorrer cubra as improbidades e o jogo político de exclusão de massas da universidade que deverá ocorrer com a implantação do BUSP. .

Osvaldo Souza
Estudante da pós-graduação da USP e leitor do Jornal da USP Livre!