Para Rodas, colocar a polícia para sitiar o campus e chamar a ditadura militar de “revolução de 64”, são exemplos da “democracia” existente na USP: A ditadura na USP

No boletim USP Destaques de número 56, de 9 de março de 2012, o reitor-interventor João Grandino Rodas tenta justificar a perseguição a estudantes e funcionários, a presença da polícia no campus e a expulsão de oito estudantes nas férias como sendo exemplos da “democracia na USP”.
O comunicado da reitoria ataca o manifesto lançado pelos professores contra o monumento construído pela reitoria que se refere à ditadura militar como “revolução de 1964”, uma afronta aos desaparecidos e presos políticos do período.
O reitor tenta desqualificar o manifesto com acusações infantis como, por exemplo, a acusação de que os professores relançaram o manifesto pela segunda vez com o mesmo número de assinaturas que teria tido o primeiro manifesto… um ótimo argumento! A justificativa do reitor aparece timidamente: chamar o golpe militar de “revolução de 1964” não seria expressão de um reitor saudoso da ditadura militar, mas da pessoa que supostamente redigiu a placa afixada na obra.

Como em um passe de mágica, a perseguição política na USP deixa de existir

Em seguida, Rodas tenta convencer os incautos leitores do boletim de que, apesar da existência de mais de uma centena de processos criminais contra estudantes e funcionários, não existe perseguição política na USP.
O boletim tenta justificar a utilização de uma regra do regimento da USP de 1972, portanto da ditadura militar, para expulsar oito estudantes. “Muito embora sendo parte integrante da legislação interna atual na USP, é evidente que sua letra deve ser interpretada em consonância com os tempos atuais”. Uma péssima justificativa para quem a utilizou para eliminar estudantes da universidade, medida que nunca foi tomada por nenhum reitor desde a ditadura militar.
O reitor então argumenta que os supostos atos cometidos pelos estudantes teriam sido de “violência física contra pessoas e bens públicos” e por isso se justificaria a utilização de cláusula de disciplina do regimento da época da ditadura militar para expulsar estudantes.
O fato é que estudantes que sequer estavam presentes na ocupação do prédio G da moradia da USP, que é a “ação violenta” que motivou a ação da reitoria, foram incluídos no processo.

Rodas no mundo da fantasia: a polícia não é mais um instrumento de repressão…

Rodas também tenta justificar nesse boletim todas as suas ações truculentas como reitor. Uma delas é a reintegração de posse da reitoria com 400 policiais da tropa de choque contra 74 estudantes que ocupavam o prédio em protesto contra a falta de professores, a presença da polícia no campus e pela saída do reitor-interventor.
O reitor-interventor afirma no USP Destaques que a reitoria “negociou exaustivamente” com três representantes do movimento discente, mas mesmo assim mandou a tropa de choque para prender os estudantes. Excelente justificativa! Negociou; não chegou a um resultado satisfatório: prende e arrebenta.
Sobre a estrutura de poder na universidade, o boletim diz que são os estudantes que não querem as mudanças no estatuto da USP. Esses mesmo que são completamente alijados das esferas de decisão da universidade e cujo voto vale como mera figuração no Conselho Universitário, além de estarem sendo expulsos por conta de cláusulas desse mesmo documento…
Em seu penúltimo tópico, o boletim tenta justificar a presença da Polícia Militar no campus. Seus argumentos são: “No que tange à competência da Polícia Militar no campus, é de se recordar que a Constituição Federal concede à PM, e somente a ela, o poder de polícia em todo o território nacional. Para que tal seja mudado, há dois caminhos: 1) emendar a referida Constituição; ou 2) parte do território nacional se proclamar novo Estado soberano e ser reconhecido pela comunidade internacional”.
O texto é uma tentativa descarada de enganar os estudantes novos, que chegam agora à universidade e que ainda não participaram da mobilização e da luta pela expulsão do aparato repressivo do Estado da universidade.
A PM não tem autorização para manter as universidades sob estado de sítio como vem ocorrendo na USP. Tanto é assim que existem projetos de deputados de PSDB e do DEM no Congresso Nacional tentando modificar a constituição para instituir uma polícia própria nas universidades.
A Constituição Federal concede poder de polícia à PM, mas não em autarquias públicas. Estas devem ter seus próprios seguranças e sua autonomia deve ser respeitada. Só em caso de convocação das suas autoridades é que a PM pode atuar em seu território. A USP é uma instituição de ensino e funciona como uma autarquia pública. O que o reitor-interventor está tentando impor é a “convocação permanente” das forças policiais para vigiar a USP e, não é segredo para ninguém, reprimir o movimento que luta em defesa do ensino público e gratuito.