Texto de reitoria da USP desrespeita perseguidos pela ditadura

por Alceu Castilho (extraído do blog http://alceucastilho.blogspot.com/)

A assessoria de imprensa da reitoria da USP divulgou nesta terça-feira um texto que desrespeita perseguidos pela ditadura de 1964. Logo no início é feita uma referência a um manifesto, feito em novembro e renovado em março, dos “perseguidos pelo regime militar, parentes dos companheiros assassinados durante esses anos sombrios e defensores dos princípios por eles almejados”. Esse manifesto recusa qualquer homenagem feita pela atual reitoria.

Em resposta aos signatários do manifesto, o texto da reitoria – leia aqui – refere-se a eles como “autointitulados”. Ou seja: “autointitulados” perseguidos, “autointitulados” parentes de pessoas assassinadas, “autointitulados” defensores de princípios defendidos por aqueles que foram assassinados pelo regime.

Um texto oficial da assessoria de imprensa da reitoria da Universidade de São Paulo não é um texto impessoal. O texto intitulado “Democracia na USP” tem nome e sobrenome: e atende pelo nome do reitor João Grandino Rodas.

Cabe a pergunta de um jornalista (e estudante da USP) que respeita os assassinados pela ditadura: qual era a sua posição durante o regime militar, João Rodas? Esta pergunta foi feita ao senhor, por meio de sua assessoria de imprensa, mas o reitor não quis falar sobre o assunto.

Agora, chama os perseguidos e parentes de “autointitulados”. Ora, alguém se “autointitula” parente de uma pessoa torturada e morta pela ditadura? Alguém se “autointitula” perseguido pelo regime militar quando, entre os signatários, estão pessoas notoriamente conhecidas por terem sido perseguidas por esse regime de exceção? Enxergaste ali, Magnífico Reitor, nomes de brasileiros mortos e desaparecidos?

De que lado o senhor estava durante a ditadura, João Rodas? O senhor não conhecia essas pessoas? Não participou das mesmas batalhas?

O texto da reitoria ainda ironiza a ampliação das reivindicações dos signatários. Coloca entre aspas a realização de “outros atos de lançamento” e completa, com ironia: “Esse manifesto, com propósitos múltiplos e cujo texto aumenta a cada relançamento, mantém as assinaturas coletadas anteriormente!”

Assim, com exclamação. A ela adicionamos uma interrogação: caro reitor, o senhor está duvidando da legitimidade das assinaturas coletadas pelos perseguidos políticos (muitos deles, professores da mesma Universidade de São Paulo) e parentes dos assassinados?

Poderia, então, reitor Rodas, dizer isso com todas as letras? Está em jogo a reputação das pessoas que assinaram o documento? (Leia aqui a lista completa.)

A das famílias de Caio Prado Jr, de Bento Prado Jr? Dos professores Chico de Oliveira, Emília Viotti da Costa, Emir Sader, Flávio Wolf de Aguiar, Helenira Resende (irmã de uma desaparecida do Araguaia), Luiz Roncari, Maria Amélia Azevedo, Osvaldo Coggiola?

Estariam utilizando indevidamente, João Rodas, as assinaturas do vereador Carlos Neder e dos deputados estaduais Adriano Diogo e Rui Falcão? Do preso e torturado Celso Lungaretti? De Carlos Eugênio Paz, da família de Luis Carlos Prestes e de… Zuzu Angel?

Por Zuzu Angel e Stuart Angel Jones assinam os manifestos Hildegard Angel Bogossian e Ana Cristina Angel Dronne, filhas de Zuzu, irmãs de Stuart. A reitoria está insinuando que foram adicionadas reivindicações que essas pessoas não quiseram assinar?

A sociedade paulista quer saber sua resposta.

2 comentários

  1. O CO pode retirar o senhor Rodas do comando, o CO é composto de professores, funcionários e alunos. Que resposta este segmento vai dar a ele? Calem-se agora e se locupletem por interesses egoísticos, que depois a maioria vai gritar, reclamar e seus reclamos serão ouvidos nos quarteis e porões…..

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