Contra a repressão, Rodas e a privatização

Rodas foi imposto à USP pelo governo do PSDB, mas apenas eleger o reitor não basta para “democratizar” a USP. É preciso dar o poder de decidir sobre os rumos da universidade àqueles que são a maioria : os estudantes.
Rodas foi imposto à USP pelo governo do PSDB, mas apenas eleger o reitor não basta para “democratizar” a USP. É preciso dar o poder de decidir sobre os rumos da universidade àqueles que são a maioria : os estudantes.

É preciso reafirmar porque os estudantes estão lutando contra a repressão e porque existe repressão na USP hoje.

Rodas, o reitor-interventor colocado no comando da universidade pelo governo do PSDB, tem um plano claro de privatização da USP, com o fechamento da universidade à comunidade, a criação de cursos pagos, e a entrega direta de parte das atividades realizadas pela universidade a empresas e bancos privados.

Para colocar esse plano, que vai no sentido contrário ao das aspirações da população por uma universidade pública e gratuita, em prática, Rodas estabeleceu uma verdadeira ditadura sobre a USP.

Usando o pretexto da “segurança” no principal campus da universidade, Rodas colocou a Cidade Universitária sob estado de sítio, impondo a presença permanente da Polícia Militar. Ocorre, no entanto, o contrário. Ao invés de “combater o crime”, coisa para a qual a polícia mostrou mais de uma vez ser completamente incompetente – vide o exemplo recente de um sequestro que ocorreu em plena luz do dia no campus e outros crimes menores que continuam a acontecer mesmo sob a “vigilância” da PM – a polícia foi chamada à universidade para impedir a luta dos setores que se opõem ao plano de Rodas.

Desde que a reitoria firmou seu convênio com a Secretaria de Segurança Pública e o Comando da PM, 85 estudantes já foram presos (73 na desocupação da reitoria em novembro passado e 12 na desocupação da “moradia retomada” no CRUSP, em pleno domingo de carnaval neste ano) simplesmente por terem tomado parte na luta do movimento estudantil contra a destruição da universidade representada por Rodas e o PSDB.

Há mais de uma centena de estudantes respondendo a processos administrativos e criminais por terem participado do movimento estudantil, além de diversos funcionários e toda a diretoria do Sintusp, que continuam ameaçados de demissão simplesmente porque tomaram parte também na luta sindical dos trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho.

Isso sem contar os oito estudantes expulsos da universidade durante as férias, acusados de terem participado da ocupação da “moradia retomada” no CRUSP e contra os quais a única prova apresentada pela reitoria é o relato de um funcionário da Coseas (Coordenadoria de Assistência Social).

Rodas afirmou cinicamente nesta semana, no boletim USP Destaques, que o que está em vigor na USP é o “pleno estado de direito” e que todas as medidas adotadas por ele estão imbuídas do mais puro espírito democrático.

No entanto, para que a “democracia rodiana” vigore, o reitor-interventor (que não foi democraticamente eleito para o cargo, mas imposto pelo governo do Estado à comunidade universitária, apesar desta ter indicado outra pessoa por meio do processo de eleições internas em vigor – que em si, já excluir a participação da maioria da universidade) precisa calar a voz dos que se opõem ao seu plano de privatização da USP.

O que é democracia na universidade: poder estudantil
Não é possível discutir a “democratização” da USP como se nada estivesse acontecendo; como se o livre-pensamento e a liberdade de expressão na universidade não estivessem sendo pisoteados pelas botas da tropa de choque da PM. É preciso expulsar a PM e o reitor-interventor que a impôs sobre toda a comunidade universitária.

Tampouco haverá uma verdadeira democracia na USP enquanto a esmagadora maioria da universidade (os estudantes) não tiverem o poder de decidir sobre os rumos da própria universidade. É por isso que não basta dar à comunidade universitária o poder de eleger um reitor. É preciso modificar radicalmente a composição dos órgãos dirigentes da universidade; fazer com que esses expressem a vontade da maioria na universidade: os próprios estudantes.

A comunidade universitária deve controlar a direção da universidade e isso não é possível enquanto uma casta minoritária de professores titulares se mantém no poder e ignora as reivindicações daqueles que são o verdadeiro motivo de ser da própria universidade: os estudantes. Mudar os estatutos da USP para que haja apenas eleições diretas para reitor, sem que se modifique a maneira antidemocrática por meio da qual as decisões sobre os rumos da universidade são tomadas serve apenas para encobrir o fato de que milhares de estudantes e funcionários estão submetidos a um punhado de professores que só dirigem a universidade com o consentimento do governo do Estado.

Isso é o poder estudantil: um governo da universidade formado pelos três setores que a compõem (estudantes, funcionários e professores) de maneira proporcional ao seu número, ou seja, com maioria estudantil, que modifique de fato a estrutura antidemocrática do poder vigente na USP hoje.