As aventuras de Rodinhas – Episódio de hoje: Titio Reale, o mago

Titio Reale era um mago muito importante, pois ele era capaz de transformar qualquer lei e decretos cerceadores dos direitos civis e humanos em uma “Constituição”. Tinha, como todo mago, a virtude da sobriedade, que desvinculava sua imagem da face do horror que atingia também a Universidade.
Quando os Salvadores da Pátria removeram o Presidente, em 1964, prometendo convocar eleições tão logo fosse restabelecida a ordem – e muitos levaram fé nisso –, foi necessário legitimar a existência de generais ocupando o poder de civis eleitos pelo soberano, o povo.
Depois de expurgar juízes e cassar parlamentares, além de outros milhares de atos arbitrários, foram promulgadas leis que atentavam contra os direitos básicos dos cidadãos: fim da liberdade de imprensa e livre difusão da cultura (anotem bem isso, pois já não há mais censura, graças a Deus!), perseguição política, prisões preventivas sem direito a advogados, etc.
Titio Reale, mago esperto, junto com Gaminha e outros, convenceu os maiores juristas do país que era possível prender legalmente uma pessoa por sessenta dias, sem nenhuma acusação formal, sem que a família soubesse, como se a pessoa tivesse sido abduzida. Esse tempo era necessário para, digamos, refrescar as ideias do suposto “terrorista”. Os ares do DOPS, DOI-CODI e de diversas delegacias eram os mais adequados para isso. Quanto mais fundo o porão, melhor.
E então aquilo que para muitos parecia não existir, a ditadura, acabou revelando aquilo que realmente era: a supressão total do Estado de Direito. Claro que Titio Reale, o grande mago, bem como outras pessoas dignas, fazia de conta que estava tudo bem, e que o país estava dentro das leis internacionais.
Com tantas prisões arbitrárias, torturas bárbaras, assassinatos e suicídios forjados, é digno de nota o feito de titio Reale, que transformou a barbárie em lei e, fingindo-se de morto em meio à convulsão social, reinou como a mítica Inês de Castro, em Portugal. Nem Merlin faria melhor!
por Reginaldo Parcianello