Estudantes se opõem à reformulação do Regimento da Pós-Graduação

Está para ser aprovada às pressas a reformulação do regimento geral da pós-graduação na Universidade de São Paulo. A proposta, que está sendo conduzida pelos colegiados para ser aprovada rapidamente sem discussões profundas sobre seu caráter e suas implicações, está sendo amplamente rejeitada pelos estudantes. Durante o ato-protesto realizado quarta-feira, 28 de março, em frente à reitoria, o Jornal da USP Livre! entrevistou o estudante Flávio Moraes, mestrando em Física e representante discente de sua unidade. Confira a entrevista abaixo:

Flávio, qual é a principal alteração no regimento e qual o seu significado?

O principal não são os pontos que estão sendo alterados, mas a política que está por trás da reformulação do regimento. Ele traz a questão dos encurtamentos dos prazos, os mestrandos vão ter que se formar mais rápido. Há, por trás dele [do regimento], a entrada de não-doutores nas universidades para ministrar cursos. Tudo isso está voltado a uma mercantilização do curso de mestrado e doutorado. Houve uma mudança sobre a proposta do que é uma tese de doutorado que fala sobre a inovação e tecnologia. Eles retiram o envolvimento do estado da arte e colocam, também, desenvolvimento profissional, durante o trabalho de doutorado. Isso deixa bem claro a proposta do regimento. Hoje, a USP é a que mais forma doutores. Eles querem aumentar esse número, mas que não desenvolvem o estado da arte na sua área, mas sim, os que desenvolvem um conhecimento tecnológico. Mas o desenvolvimento tecnológico e inovação já se tem em todo lugar. As empresas têm que promover o desenvolvimento da tecnologia para existirem. Agora, estão tirando a função das empresas e trazendo para a universidade. Não estou dizendo que é ruim existir desenvolvimento tecnológico. Existe, inclusive, um proposta do MEC para que existam cursos de desenvolvimento de tecnologia no Brasil, mas uma coisa é o curso, outra coisa é voltar todo a pós-graduação de uma universidade para o desenvolvimento tecnológico. Esse regimento, inclusive, permite que as empresas realizem cursos de formação de professores dentro da universidade. Porque o profissional que educa as pessoas para uma empresa, mesmo não sendo doutor ou mestre, poderá ser vinculado à universidade. O curso que ele dá para a empresa ele poderá dar no mestrado como um curso profissionalizante. Esse curso não necessariamente vai ser considerado ensino, mas extensão, o que dá a possibilidade de ser pago. Existe uma série de ataques presentes na política desse regimento, O problema em combatermos esse regimento ponto a ponto é que não combatemos a política por trás dele – que é nosso principal inimigo.

Você considera que esse processo se dá pela política de privatização da universidade?

É mais do que a política de privatização. É uma política de sucateamento do ensino. O ensino vai ser elitizado, mas a qualidade vai diminuir – no sentido de questionamentos e vivência. Por exemplo, em especial nas humanidades, mais que nas exatas, o questionamento sobre política.

Nas humanas se tem mais tempo, menos cobrança dos alunos. Na economia, na POLI, vê-se estudante já entrando para o mercado de trabalho. Esses estudantes têm muito menos tempo e muito menos condições de fazer um questionamento político. Para quem quer sucatear todo o país, diminuir o questionamento político é uma ferramenta muito útil. Onde mais existe o questionamento é dentro da universidade, portanto, esse sucateamento é voltado para formar uma elite pequena pouco questionadora.

Como vocês, estudantes da pós, pretendem se organizar para barrar essa política?

Essa é uma questão complicada porque as consequências começam hoje, aprovado ou não o regimento. Mesmo se for aprovado, não será sem destaques. Temos um tempo pequeno para promover modificações. Uma maneira é fazer uma proposta de melhora qualitativa na pós-graduação. Se tivermos uma proposta de regimento muito superior a essa, a qual agente consiga propor, é muito difícil que se consiga aprovar outra coisa senão aquilo que agente propor. Então, temos um tempo muito curto para um trabalho muito grande e para propor uma melhora qualitativa no regimento da pós-graduação.