Opinião: O que mostra o resultado das eleições para o DCE

O resultado das eleições para o DCE mostrou em primeiro lugar que a ideia de que a chapa da direita, a “Reação”, era uma ameaça eleitoral revelou-se como uma farsa, utilizada como pretexto para a chapa da situação “Não vou me adaptar”, amplamente rejeitada nas assembleias e mobilizações, tentar atrair uma parte dos estudantes que não fazem parte do seu curral eleitoral com a campanha do “voto útil”.
Em segundo lugar, ficou evidente nesta eleição que o voto no DCE, como foi estabelecido pela esquerda pequeno-burguesa nos períodos de refluxo do movimento estudantil, é um voto de curral eleitoral, onde a maior parte daqueles que comparecem às urnas é para lá arrastada sem saber absolutamente nada das eleições, dos programas e dos debates entre as chapas.
Isso é facilmente demonstrado na quantidade de votos da chapa da situação, que foi amplamente rejeitada pelos estudantes nas mobilizações.
Levando-se em consideração esse fato, o resultado mostrou que a suposta “maioria silenciosa da USP”, aquela que supostamente seria contra a greve e defenderia a presença da polícia no campus, simplesmente não existe, uma vez que a “campanha eleitoral”, ou seja, o arrebatamento de votos sem conteúdo algum da chapa “Reação” não foi feita pelos que compõem a chapa, mas pelo Estadão, a Folha e a Veja, a reitoria e os professores ligados a interesses empresariais dentro da universidade.
Se para a eleição, a direita consegue, com a ajuda de todo esse aparato, 2.500 votos em um universo de 80 mil estudantes, nos atos contra o movimento estudantil não conseguem levar nem 50 pessoas, o que comprova também o caráter fictício dessa votação, que nada tem a ver com a realidade.
A vitória da situação, a chapa “Não vou me adaptar” (Psol, PSTU), que nesta eleição representa a esquerda pequeno-burguesa em seu conjunto, encerra em si mesma uma grande contradição. Apesar da grande vantagem de votos (51% do total), essa é provavelmente a diretoria mais fraca do DCE até hoje.
Isso porque, descontando os votos que são de um curral eleitoral estabelecido por eles próprios, a votação não expressa um verdadeiro apoio a essa diretoria, mas uma rejeição à política da direita.
A eleição, neste momento de grande crise e polarização dentro da USP, revelou com extrema clareza o seu caráter artificial, de engrenagem burocrática que se impõe ao movimento estudantil.
No momento em que a crise atinge um nível inédito, a votação do centro da esquerda pequeno-burguesa atinge uma enorme soma, ou seja, ela é tanto maior quanto maior a sua crise política. Fica claro que não apenas a eleição não representa nenhuma opinião pública, nenhum movimento, nenhuma militância, mas uma manobra política que visa tentar recuperar o peleguismo que tradicionalmente domina o DCE.
A função política desta vitória é criar um mecanismo de colaboração com a reitoria de Rodas para conter a crescente evolução do movimento estudantil, uma tarefa que a direita não poderia de forma alguma cumprir porque levaria a situação a um nível explosivo.
Os integrantes desta chapa buscaram em todo o período anterior conter o movimento de luta dos estudantes (ocupação da FFLCH, ocupação da reitoria, desocupação do CRUSP, expulsão de alunos por Rodas etc.) em função de uma política de acordo com Rodas, inclusive chocando-se frontalmente com o movimento estudantil de luta, confiando nas suas negociações de bastidores com a reitoria (reveladas durante a ocupação).
Esta chapa foi taxativamente contra a palavra de ordem de “Fora Rodas” e não é favorável, de fato, apesar de toda a sua ambiguidade, a retirada da PM do campus.
Os 503 votos conseguidos pela chapa “27 de Outubro” são irrelevantes do ponto de vista de uma atuação eleitoral. Eles refletem, no entanto, aquilo que é a realidade política mais importante na USP neste momento.
Os 503 votos da “27 de Outubro” são, por um lado, os votos da única chapa que não dominava nenhuma máquina eleitoral justamente porque é uma chapa que nasceu do movimento de luta dos últimos anos e não conta nas suas fileiras com a burocracia estudantil e com nenhum laço com a burguesia e com o aparelho de Estado capitalista.
Estes votos, além disso, foram um passo importante para fortalecer o bloco daqueles que estiveram à frente da mobilização no final de 2011 e que se consolida em sua oposição à burocracia antimovimento estudantil.
A tarefa que está colocada é consolidar o movimento de luta que assumiu um perfil claramente delineado no ano passado, com base nas importantes experiências realizadas, para avançar no movimento de ruptura com a ditadura burocrática que pesa sobre o movimento estudantil e que se manifestou na eleição.

Natália Pimenta – Estudante de Letras e militante do PCO

Um comentário

  1. É isso aí, agora precisamos fortalecer o movimento estudantil combativo e independente. Apesar de estar no 3° ano de faculdade, nunca havia votado para o DCE por causa da divisão da esquerda. Nessa me senti na obrigação de votar, pois só havia uma única chapa de esquerda. Espero que continue assim, sem milhares de chapas, uma para cada partido. Acredito que acima de tudo, o nosso maior princípio é a unidade dos estudantes, o resto pode ser discutido.

    Curtir

Os comentários estão desativados.