Opinião: Por que é preciso derrubar Rodas

O movimento estudantil adotou a palavra de ordem “fora Rodas”. No entanto, muitos ainda questionam abertamente se a saída do reitor-interventor produzirá algum efeito sobre os rumos da universidade.
Em menos de quatro meses, Rodas prendeu quase 90 estudantes para tentar calar o movimento estudantil. Entre as medidas mais recentes, está a reformulação do regimento da pós-graduação, sendo que um dos pontos da mudança é o fim da gratuidade da mesma; um coronel da PM foi apontado para chefiar a Guarda Universitária, transformando abertamente em instrumento de repressão o que deveria ser uma guarda patrimonial.
Isso ocorreu poucos dias depois de vir à tona um relatório secreto da Polícia Civil que durante a investigação da morte do estudante Felipe Ramos de Paiva descobriu que os policiais militares do batalhão designado para vigiar a USP estão envolvidos com o narcotráfico. Segundo o relatório, a informação era de conhecimento da Secretaria de Segurança Pública e o reitor-interventor, com o aval do governo do Estado, ainda assim colocou os bandidos fardados para tomar conta da universidade.
Esse fato serviu para comprovar que a presença da polícia no campus nada tem a ver com segurança, como alegou João Grandino Rodas na época, mas sim com a repressão aos movimentos que se colocam como obstáculo à privatização da universidade.
Alguém poderá perguntar “De que adianta derrubar o reitor?”, já que o governo do Estado tem o poder para escolher outro reitor igualmente ruim.
A reivindicação de saída do reitor deve sim ser acompanhada de uma reivindicação de mudança do regime de poder na universidade. Na pauta da greve, a reivindicação de “estatuinte livre e soberana já” vinha subordinada ao “fora Rodas”.
O objetivo dessa reivindicação é também a conquista da total autonomia da universidade e a constituição de outro regime de poder, em que tenha voz toda a comunidade universitária, em epecial os estudantes, que são a maioria da universidade.
“Mas e se conseguirmos apenas derrubar Rodas e não mudar, ao menos de imediato, nem um milímetro do regime de poder?”. Será ainda assim um grande ganho. Um dos motivos para derrotar Rodas agora é que isso interromperia inevitavelmente os planos do governo do PSDB, ainda que não permanentemente. Se Rodas renunciar, ou coisa que o valha, isso seria equivalente ao governo reconhecer que seus planos foram amplamente rejeitados e este seria forçado a recuar.
O mais importante de tudo, no entanto, é que a derrubada de Rodas resultaria em uma profunda mudança na relação de forças dentro da universidade, abrindo caminho para o desenvolvimento das lutas e da organização estudantil e para novas conquistas. A direção do DCE e seus aliados não conseguem compreender esse problema, apesar de falarem da “correlação de forças” a todo o momento, em geral para explicar aos estudantes porque não é possível lutar, entrar em greve, ocupar um prédio etc., ou seja, tomar qualquer iniciativa concreta contra a ditadura do reitor-interventor e a privatização da universidade.
É preciso uma enorme mobilização para derrubar o preposto do governo do estado na USP, rejeitado até por parte da própria burocracia universitária. E isso precisa ser feito logo, antes que ele destrua completamente a universidade.
Rafael Dantas
Estudante de Letras e militante do PCO