A ignorância de Rodas

João Grandino Rodas, reitor-interventor da USP.

Quando o ex-governador do Estado de São Paulo, o famigerado José Serra, escolheu, o hoje também famigerado Prof. Dr. João Grandino Rodas, fê-lo de uma lista na qual Rodas constava como segunda opção. Serra o escolheu não pelas qualidades, mas pelo papel que deveria cumprir, papel esse que nada tem que ver com o ensino.
Nada tem que ver com o ensino, pois quem coloca policiais para vigiar alunos vai contra toda e qualquer filosofia educacional. Não se educa com opressão, educa-se com o exemplo. Essa é uma lei fundamental. Não só fundamental como vulgar. É do conhecimento de qualquer um. Nem mesmo um educador de formação behaviorista misturaria força policial com estudo.
Mas o papel de Rodas, nós já sabemos, é privatizar a USP. Para isso, e apenas para isso, ele foi escolhido. Mas, deixando tudo isso de lado, como se isso não bastasse, julguemos a capacidade de Rodas para o cargo que ocupa, levando em consideração a mentira de que ele ocupa o cargo por que tem capacidade. Nesse caso, o escolhido teria de ter, pelo menos, três qualidades: 1. Conhecer o seu ofício; 2. Conhecer seu instrumento de trabalho; 3. Conhecer aqueles para quem trabalha.
Rodas seria o candidato ideal se: 1. o ofício dele fosse preparar a universidade para a privatização; 2. trabalhasse como interventor; 3. se aqueles para quem trabalha fosse o PSDB, ou Alckmin, ou Serra, ou um patife qualquer.
Mas, esperava-se que (1) seu ofício fosse o de administrador de um centro de ensino, (2) seu instrumento de trabalho fosse a educação e (3) trabalhasse para os alunos da universidade. Nesse caso, ele deveria, no mínimo, saber o que é administração, o que é educação, o que é aluno e o que é universidade. Nada disso ele sabe. Se soubesse o que é administração não administraria para um bando de tubarões que querem destruir, sucatear a universidade e depois darem-na de bandeja para a iniciativa privada. Ensino não combina com negócio. Educação serve para a formação espiritual do homem e não para o comércio de indivíduos. Rodas nada sabe de educação. Quando expulsa alunos, quando processa alunos, age como carrasco e não como professor. Ele faria o mesmo com os próprios filhos? Não!
O que diria um verdadeiro educador? A professora titular da Faculdade de Filosofia, Maria das Graças de Souza – ela sim uma verdadeira educadora –, apesar de não ter concordado com a tomada da reitoria – pelos alunos que se revoltaram contra a presença da PM no campus –, disse: “Mas nós temos que ficar do lado deles, afinal são os nossos meninos.” Palavras de professora, palavra de mãe.
Quando Rodas aprenderá que o ofício do educador é educar?
Mas há uma questão ainda mais grave: Rodas sabe mesmo para que serve uma universidade e, sobretudo, como administrá-la?
O Prof. Dr. J. G. Rodas, comentando as eleições para o DCE, disse que a Chapa 27 de Outubro propunha que os alunos se encarregassem da universidade. Segundo Rodas, o Magnífico, isso é impossível. O Magnífico Reitor não conhece sequer a origem e desenvolvimento das universidades, organismos para o qual ele trabalha.
A primeira universidade apareceu na Itália, em 1088. A Universidade de Bologna foi formada por estudantes que se encarregaram de contratar professores para o ensino das leis. O propósito desses estudantes era a defesa de cidadãos estrangeiros que se dirigiam à Itália (na época, dividida em diversos territórios) para estudar. Quando chegavam, acabavam por se agrupar em moradias destinadas a estudantes. Essas moradias eram divididas em blocos que se organizavam segundo a nacionalidade, ou local de nascença do estudante. Esses blocos eram denominados natio, e daí advém a palavra moderna “nação”. As diversas “nações” uniram-se contra os desmandos das autoridades repressoras (as PMs da época) que se aproveitavam dos estudantes, dada a condição de estranhos deles. Uniram-se e criaram essa entidade monumental que hoje se denomina UNIVERSIDADE.
Na Idade Média, o aluno, antes de adentrar a universidade, formava-se em sete matérias: retórica (arte de argumentar), gramática (arte de escrever), dialética (arte de pensar) –chamadas de trivium – e geometria, aritmética, música e astrologia (hoje, astronomia) – chamadas de quadrivium  ou ciências. Essas disciplinas eram conhecidas como as sete artes (regras) liberais. Tinham esse nome porque eram as regras para tornar o espírito livre.
Dessa forma, o aluno, transformado em homem livre, instruído (erguido), seguia para a universidade, o local onde era exercida a liberdade (no sentido de lugar em que a polícia não incomodava as nações).
O termo “wuniversidade” não é, como muitos pensam, uma alusão à universalidade do saber. Universidade é a congregação dos povos, das nações, a universalidade de seus estudantes. Aquilo que foi criado por um universo de estudantes, hoje se encontra nas mãos de meia-dúzia de burocratas.
Uma universidade, por ser universal, não deve ter processos que impeçam o livre ingresso de todo aquele que clame por saber. Uma universidade não pode ser elitista. Tem de ser aberta a todos. Não pode ter vestibular. Sendo ela um edifício aberto, não deveria ter vestíbulos.
O professor teria de ser escolhido pelo aluno. Na USP, é a burocracia de cada escola que escolhe o professor e determina que alunos assistirão às aulas dele.
Aluno e professor se escolhem mutuamente como um gesto de afeição. Se o aluno não abraça o mestre como pai, como confiará nele? Como confiará que aquilo que aprende é mesmo o certo ou, pelo menos, o melhor para ele?
O termo latino alumnus, do qual deriva a palavra “aluno”, tinha o sentido de “aquele que é nutrido”, pois o educador encerrava uma imagem de mãe. Que mãe entrega o próprio filho para a polícia?
A. T. F.