OPINIÃO: No comando de mobilização importa como mobilizar

É curioso que várias organizações tenham como critério para o comando (seja de greve ou de mobilização) fórmulas pré-fabricadas e querem impingir as mesmas aos estudantes independentemente de quais tenham sido os resultados práticos a que elas conduziram.
Assim, criou-se o dogma do comando eleito por delegados nos cursos, embora sua efetividade para a mobilização (e não para anseios mesquinhos) não tenha sido comprovada. Ao contrário, a experiência de eleger delegados para o comando mostrou como essa forma conduz rapidamente para uma burocratização do mesmo.
Vejamos. A questão do comando é (ou pelo menos deveria ser) como melhor mobilizar os estudantes. Por que eleger os delegados mobilizaria mais do que possibilitar que o comando seja aberto à participação de todos os interessados? Alguns dizem que seria o comprometimento dos delegados em comparecer às reuniões e voltar ao curso com as resoluções etc., uma suposta responsabilidade com seu mandato.
Mas se fosse assim, bastaria apenas eleger os delegados como pessoas mais comprometidas e responsáveis por garantir a execução das tarefas, permitindo, no entanto, que outras pessoas se agrupassem no comando e ajudassem na mobilização.
Isso é especialmente válido em momentos em que não há mobilização, como o de agora. No curso de Letras, por exemplo, a assembleia contava com cerca de 40 pessoas e elegeu proporcionalmente quatro delegados. Essas são as pessoas mais ativas do curso. Isso significa que ao invés de procurar mobilizar essas 40 e mais dezenas de outras pessoas da Letras para o comando, o comando vai agrupar apenas um décimo desses ativistas, bloqueando ainda a aproximação de novos estudantes.
Nos cursos com menos tradição de mobilização a situação é ainda pior. Esse sistema pode facilmente excluir os estudantes combativos, dispostos a lutar e a organizar a luta, colocando em seu lugar um dos projetos de burocratas dos centros acadêmicos.
Bem, se a ideia do comando é envolver as pessoas para ajudar a mobilizar, esse objetivo fracassou. Ele não só não agrupa como exclui as pessoas que gostariam de participar, mas não conseguiram se eleger.
Os estudantes podem participar sem poder de voto? Sim, podem, mas qual o objetivo de alguém organizar e trabalhar por alguma coisa sobre a qual não tem nenhum poder?
Essa concepção de organização do movimento está baseada em algumas premissas erradas e em interesses que não dizem respeito ao melhor andamento da mobilização.
A primeira premissa errada é a da representatividade dos cursos. Segundo essa concepção, para ser legítima a mobilização tem que estar equilibradamente representada por cada curso. Isso é falso. A mobilização é feita pelos que se mobilizam. A USP não é uma federação. A mobilização contra Rodas, a PM e a privatização é de interesse de todos os estudantes e deve ser feita de maneira unitária. Esse federalismo só tem validade na medida em que as unidades de tal federação têm interesses particulares a serem defendidos no conjunto da mobilização. Não é o que ocorre na USP. Se o que está em jogo é, no final das contas, defender o caráter público da universidade contra a destruição que está sendo promovida pelo PSDB, qual é o problema de ter muito mais estudantes de um determinado curso do que de outro? Se os estudantes de determinado local compreenderam a necessidade da luta, o que devem fazer é procurar incorporar os de outro curso ou unidade nessa luta e não procurar promover uma igualdade artificial por meio das eleições no curso (que chamam de base).
Essa concepção é por um lado uma defensiva diante da acusação promovida pela reitoria, pelo governo e pela imprensa capitalista de que são apenas alguns estudantes que se mobilizam, uma minoria etc. Bom, se a mobilização tiver que começar pela FFLCH para só depois se expandir para as outras unidades, qual é o problema? É melhor que ela comece em algum lugar, o que permite que ela se espalhe, do que impedir que ela aconteça porque outros não perceberam ainda a importância da mobilização.
Por outro, é uma tentativa dos setores burocráticos (Psol e PSTU) de controlar o movimento, procurando colocar o setor mais combativo dos estudantes a reboque dos mais atrasados. Tanto é assim que esse expediente foi usado durante a ocupação da reitoria de 2007 para tentar quebrar a mobilização unitária.
A ocupação permitia claramente essa organização e mobilização unitária, ou seja, todos que estão presentes decidem, trabalham, ajudam a mobilizar e a organizar a mobilização. Em inúmeras ocasiões, a burocracia estudantil procurou invalidar organismos da ocupação reivindicando a eleição dos representantes nos cursos, ou seja, de pessoas que nem estavam na ocupação!
Assim como a força do movimento operário está na sua unidade (embora esses mesmos setores tenham mostrado claramente que não compreendem isso), também está aí a força do movimento estudantil. A base comum para essa unidade, no entanto, é a luta, ou seja, a unidade daqueles que estão lutando de fato, e não uma unidade conseguida artificialmente por meio de representantes em cada local.
Para os que acham que essa é a maneira soviética de organização (ou comunista, marxista etc.), não esqueçam que Lênin não hesitou em abandonar os sovietes quando viu que sem a mobilização revolucionária dos trabalhadores eles cairiam no pior de tipo de burocratismo e seriam um obstáculo para o desenvolimento do movimento operário.
Chama a atenção ainda que quando se propõe um comando aberto, a proposta seja rejeitada totalmente, não porque não mobiliza os estudantes, mas porque sendo aberto não permite votação. Bem, o que impede que o comando aberto vote alguma resolução? Evidentemente não é seu caráter aberto, senão as assembleias também teriam que ser feitas a partir de delegados eleitos nos cursos, mas o fato de que ninguém tem o controle sobre a votação. Mas por que o comando precisaria de um controle se as decisões centrais são tomadas pela própria assembleia? A resposta é clara e é isso que procuram esconder: a eleição de delegados e toda a parafernália burocrática é a tentativa de transformar um instrumento de mobilização independente em mais um instrumento de contenção da mobilização. É uma disputa para obter por fora das entidades a mesma “legitimidade” que essas entidades parecem conferir aos que as dominam para sufocar a mobilização independente dos estudantes.

Natália Pimenta
Estudante de Letras
e militante do PCO