A USP na mira do Santander

Assim como as grandes universidades públicas do mundo, a Universidade de São Paulo também está sob a mira da privatização. O banco Santander, camuflado atrás da entidade que ele mesmo criou, a Universia, procura dar uma aparência progressista para sua penetração nas universidades. Inovação, superação, competitividade e carreira são as palavras mais utilizadas em seus materiais de propaganda. A parceria, no entanto, se mostrou, na prática, muito diferente do que o divulgado.

O banco Santander vêm investindo em catracas, cartões magnéticos para acesso e monitoramento, justificados sob o argumento de “segurança” e “troca de dados”, há alguns anos nas universidades estaduais paulistas. O campus da Unesp de Araraquara foi o projeto piloto no contrato entre a universidade e o Banespa/Santander.

O acesso à universidade com essas medidas restringe ainda mais o acesso da população à universidade pública e, em troca, essas parcerias amplamente propagandeadas como modernizadoras e inovadoras recebem das universidades maior número de acionistas, isenções fiscais, recolhimento dos investimentos com juros e correção e, o mais curioso, o domínio de todos os dados pessoais de estudantes, funcionários e professores. De maneira ilegal, o Santander, ou Universia, tem acesso às informações pessoal dos alunos, funcionários e professores.

Na USP, os estudantes da Escola Superior Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) em Piracicaba foram surpreendidos, em 2010, com a instalação de catracas e um cartão para ter acesso à dependências do campus. O cartão possui um chip e tem um número de conta pré-aprovada pelo banco. Todos os que possuem vínculo formal com a USP, nesse campus, tem seus dados passados para o banco sem sequer terem aprovado a “transferência de dados”.

Estudantes espanhóis publicaram um manifesto acusando o banco Santander como o principal protagonista na privatização das universidades ao redor do mundo, com a criação no ano 2000 da Universia. “Una de las entidades que más ha trabajado para la intromisión de la empresa privada en las universidades públicas de todo el mundo es el Banco Santander, mediante la creación en el 2000 de Universia. Esta red de universidades suministra servicios a las universidades y celebrará su XI Junta General de Accionistas en Zaragoza la semana del 9 de mayo. A ella acudirán todos los rectores de las universidades españolas y varios directores generales del Banco Santander, que decidirán los planes estratégicos a seguir a corto plazo para acercar las universidades al mundo empresarial.” (Trecho do ‘Manifiesto contra Universia’ – Asamblea Contra la Privatización de la Universidad, 09/05/2011).

O manifesto dos estudantes espanhóis denuncia a real intenção da entidade criada pelo Santander. Entre as consequências relatadas no manifesto, está a vinculação direta da pesquisa aos interesses privados: “Los universitarios estudiamos para poder poner en práctica ese saber mediante investigaciones que puedan tener importancia para el mundo empresarial, así, éste saca beneficio del trabajo ajeno, por no hablar de las condiciones laborales en las que los estudiantes han realizado esa investigación. (…) Como podemos observar el conocimiento se convierte en un producto más que el mundo empresarial, junto con los estados, quiere comercializar. La “economía del conocimiento”, así llaman a este robo.

A experiência dos estudantes espanhóis com a Universia é importante para o Movimento Estudantil da USP refletir diante da penetração do banco Santander no cotidiano do estudantes, implementando catracas, recolhendo dados pessoais de estudantes, funcionários e professores e monitorando suas atividades. No dia 1º de Maio, Rodas participou do encontro do Conselho Assessor Internacional Universia 2012, realizado no Rio de Janeiro. Junto a ele, estavam outros reitores brasileiros, como Carlos Alexandre Netto, Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Carlos Levi, Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O primeiro encontro do Consellho Assessor Internacional Universia foi na Espanha; o segundo, no México. É importante ressaltar que nesses encontros, parcerias do Universia com diversas universidades foram estabelecidas.

A estratégia de propaganda que o Santander promoveu para camuflar a entrega das universidades públicas para a usurpação privada e estrangeira foi através da campanha de que o ensino e a pesquisa necessitavam de “inovações”. Fato muito parecido à propaganda ideológica de Rodas, colocando a repressão e a privatização da USP como política de segurança e modernização. Um bom exemplo é a privatização da pós-graduação que, longe daquilo que Rodas fala na imprensa, a reformulação do Regimento da pós-graduação é uma evidente tentativa de subordinar as renomadas pesquisas da USP aos interesses das grandes empresas.

Um dos meios que os estudantes encontraram para reagir à a ofensiva de privatizar a universidade foi ocupando a sala doada pela Coseas (Coordenadoria de Assistência Social) para o Santander no prédio do CRUSP, abrindo a sala para uso dos estudantes. Para reagir à privatização, a organização e mobilização dos estudantes é a peça-chave.     S.D.