Opinião: Falta um pouco de “anarquia” na USP

Os anarquistas que me desculpem (e muitos que se consideram mesmo anarquistas podem até concordar comigo), mas, na USP, está faltando justamente um pouco da “atitude” que os fizeram famosos. Pixar uns muros, quebrar umas janelas, jogar umas bombas, queimar umas viaturas… o repertório é vasto, mas está sendo muito pouco utilizado.

Os defensores da propaganda pela ação estão fazendo muito pouca “propaganda”.

Rodas, por sua vez, não está usando retórica. Está agindo concretamente para esmagar o movimento estudantil da USP. São muitos os processos e os policiais que perambulam pela Cidade Universitária para provar seu ponto.

E os que se reivindicam parte de um movimento revolucionário, de luta, combativos, em uma palavra, anarquistas? Não deveriam estar agindo também? Não é sua inclinação primária reagir à violência com violência?

No entanto, o anarquismo estudantil é mais moderado, contido, tímido… quase uma filosofia, com muita conversa e pouca ação. Quase não guarda laços com seus companheiros franceses, russos, norte-americanos e os inventores do terrorismo moderno, do final do século XIX. Apenas uma semelhança continua na ordem do dia: a aversão aos partidos políticos.

Mas esta aversão é explicada por outros motivos: na USP, o “anarquismo” estudantil (já entre aspas, uma vez que se trata apenas de uma espécie de filosofia anarquista) se propaga em oposição aos partidos que se cristalizaram no controle do DCE e dos Centros Acadêmicos. Existe porque o ambiente criado pela esquerda pequeno-burguesa no movimento estudantil é completamente burocrático: só se faz discursos e a luta, quando há, é combatida com todos os meios disponíveis, da calúnia às intimidações e agressões.

As assembleias foram transformadas pelos membros do Psol e do PSTU (e, antes deles, pelos do PT) em um teatro para as pessoas que participam do movimento estudantil… mas só os atores escolhidos pela direção burocrática do DCE de plantão podem participar.

Na medida que entraram em luta, os estudantes da USP mostraram estar agrupados sob diferentes bandeiras.

Atuam na universidade, como pode ver qualquer um que olhe mais atentamente, diferentes correntes que se reivindicam comunistas, socialistas e, inclusive, “trotskistas”.

Há também um número considerável de tendências e inclinações anarquistas.

A partir das convicções daqueles que estão organizados em partidos e correntes (ou do que alegam ser suas convicções), haveria motivos mais do que suficientes para os estudantes lutarem. Mas, o que falta mesmo é luta.

Para tentar entender porque, apesar de tantos “revolucionários” no nome e nas intenções, os partidos de esquerda da USP não fazem jus ao legado de Leon Trótski, Lênin, Engels e Marx, é preciso deixar claro: muitos que se reivindicam “socialistas” e “comunistas” simplesmente não levam a sério as conclusões dos principais dirigentes do movimento operário internacional e a experiência da luta das massas contra o capitalismo. Vendem uma mercadoria falsificada: sua suposta “combatividade”.

São, antes, partidários dos reformadores do marxismo, da escola de Eduard Bernstein, o primeiro a deturpar com algum sucesso a teoria da luta de classes e as conclusões revolucionárias do socialismo científico.

Fizeram sua a fórmula oportunista do revisionista alemão: “o movimento é tudo, o objetivo final, nada”. Só que o “movimento” a que os reformistas e conciliadores de hoje se referem é outro (e bem conhecido dos que já estão fartos do blá-blá-blá das assembleias e da falta de disposição de luta dos “dirigentes” estudantis).

Trata-se do simulacro de parlamentarismo burguês encenado pela direção do DCE e dos centros acadêmicos que difundem a ilusão de que construirão “uma grande greve” para combater o reitor-interventor enquanto não fazem nada e só se mobilizam efetivamente quando se trata de eleger uma chapa de cupinchas para a direção de uma entidade.

Os pelegos enchem a boca para falar que a chapa Reação (de direita e, portanto, estranha ao movimento estudantil) foi convidada a tomar chá com brioches com o reitor. Mas, não eram eles, os terríveis “social-democratas” do Psol e do PSTU que queriam “dialogar” com Rodas quando esse assumiu?

No movimento estudantil da USP há uma tendência revolucionária e uma contra-revolucionária. À primeira falta, entre outras coisas, ímpeto, iniciativa, agressividade, virulência. A segunda é preciso tirar do caminho.

Rafael Dantas

Estudante de Letras e militante do PCO

Um comentário

  1. Sobre o texto “Falta Um Pouco de Anarquia na USP” do Jornal da USP Livre do dia 17 de maio de 2012.

    Ao estudante de letras e “militante” do PCO Rafael Dantas.

    Levando em consideração sua matéria, criticando o movimento anarquista na USP, gostaria de expressar algumas considerações sobre o texto.

    Não faço parte de movimentos anarquistas dentro da USP. Conheço pouco do RIZOMA, e costumo fazer ativismos pela cidade de SP, sem me restringir à USP (como muitos por aqui fazem, agindo como se só existisse o academicismo e a Universidade de São Paulo).
    Nós anarquistas não defendemos a “propaganda pela ação” (seu 2º parágrafo), nós costumamos agir. Nossas intervenções estão por toda a cidade em forma de panfletagens, pixações (SIM! PIXAÇÕES) e até mesmo o rackeamento de sites do governo ao qual vocês dizem se opor. Como já disse e repito, ainda não conheço os movimentos anarquistas dentro da USP, estou apenas fazendo considerações de algumas afirmações em seu texto que me pareceram deturpadas.

    Quanto ao 3º parágrafo
    Onde está escrito que a “inclinação primária” de todo anarquista é reagir à violência com violência? Nós, anarquistas, defendemos acima de tudo a liberdade de agir conforme a razão individual, sem obrigar qualquer companheiro de luta a agir contrariamente àquilo o que pensa ser justo (acredito que há anarquistas que reagem com violência e anarquistas que reagem por outros meios, como por exemplo, o ativismo).

    Quanto ao 4º parágrafo
    Dentro do anarquismo tentamos sempre manter o contato com ativistas de diferentes lugares do mundo. A prova disso vocês podem encontrar no site do CMI (Centro de Mídia Independente) – que é só um dos exemplos de comunicação entre anarquistas – onde estarão textos vindos de anarquistas até mesmo da Grécia, notícias sobre acontecimentos e ações diretas executadas ao redor do mundo por anarquistas e não por partidários.
    Pois bem, já que falaram sobre a aversão do movimento anarquista aos partidos políticos, cito aqui alguns dos porquês dessa aversão:
    1 – Um partido político luta para chegar ao poder, e não derrubá-lo. O movimento anarquista almeja acima de tudo a plena liberdade, sem a existência de um governo e qualquer outra hierarquia possível entre seres. Essa é a oposição óbvia entre nós anarquistas e o seu partido político.
    2 – Nós já temos um “partido de esquerda” no poder, no entanto este até hoje só ofereceu migalhas ao povo, não acabando com as classes nem mesmo chegando perto da igualdade social. Não creio que o PCO no poder agiria diferente. Não é pessoal, é só que enquanto houver governo, este agirá em prol da economia capitalista (não é uma escolha de vocês, isso já está consolidado). Por isso, à nós anarquistas, não interessa o poder e sim a derrota desse governo e dessa economia.
    3 – Quanto a sua crítica ao DCE e Centros Acadêmicos, que afirma que se trata de dois movimentos “muito burocráticos”, eu pergunto: Vocês acham que se algum membro do seu Partido da Causa Operária ganhasse uma eleição, resolveria o problema de desigualdade (e todos os outros problemas) com pixações, quebrando janelas, jogando bombas, queimando viaturas (seu parágrafo nº 1) ou assinando PAPÉIS (pura burocracia)? Sua crítica deveria ser autocrítica. Um partido trabalha com burocracia sempre, ou vocês acham que seus companheiros vereadores, deputados, prefeitos etc. trabalham como?

    Quanto ao 12º parágrafo
    Você está se referindo ao legado de alguns dos membros de movimentos históricos socialistas. Te pergunto qual legado que Lênin ( que você citou) deixou. E eu te respondo: deixou seu rastro de tortura e violência contra os que se opunham à sua ditadura. Deixou profundas feridas até mesmo no movimento socialista, o qual deturpou e envergonhou, chamando de “socialismo” o massacre que foi seu governo.

    Quanto a sua crítica ao reformismo:
    O que é o Partido da Causa Operária senão um movimento reformista?
    Creio eu que chegar ao poder para “reformar” o atual sistema (mais uma incoerência da sua ideia comunista) seja no mínimo reformista. Mais uma critica sua que deveria ser auto critica.

    Finalizando:
    As alfinetadas dadas ao movimento anarquista e a falsa ideia de anarquismo que se restringe à violência e ao caos serão sempre rebatidas pelo movimento anarquista REAL e independente da Universidade. Aliás, quanto a luta dentro da Universidade, creio eu que seja comum o interesse por defender os 73 estudantes processados, sendo desnecessária a sua alfinetada ao movimento anarquista.
    Se você quer tanto praticar essa SUA DEFINIÇÃO de anarquia, faça você mesmo. Não espere que o movimento anarquista ou qualquer outro faça por você^^

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