Episódio de hoje: A tropa rosa choque

Rodinhas sonhava sonhava longe, enquanto via as paradas militares. Sentia-se o rei dos milicos, alinhando soldados, disciplinando cortesãos, ordenando o ataque dos soldados ao seus súditos…
Rodinhas contemplava a parada militar, naquele Sete de Setembro: disciplina, armas, corpos eretos, rostos duros, pescoço firme, braços retesados, tudo isso deixava Rodinhas arrepiado, sem saber bem porquê.
Ao fim da Parada Militar, ainda suado, Rodinhas vai até a Parada Gay, na Paulista. Por um momento, ele se sente atraído pelo movimento, e então parece que se acende uma luz no fim do túnel da alma escura de Rodinhas. Mas… não! Ele enruga a testa, aperta a boca, levanta a cabeça e cruza os braços, exclamando:
− Que gente desorganizada, que cores apavorantes, que desalinho nesse desfile!
Indignado com a Parada Gay, que não parecia em nada com a Parada Militar, Rodinhas segue triste o seu caminho:
− Eles mereciam uma lâmpada na cabeça, para terem ideias mais luminosas!
Um dia, muito tempo depois dessa quase-epifania de Rodinhas, foi criada a tropa Rosa Choque, que por um dia foi mais forte que as armas militares do Reino, e estabeleceu o arco-íris do diálogo, da aceitação das diferenças, da compreensão da diversidade política, que supõe a contestação séria e veemente, quando necessária. Enfim, não há um único teórico da política que não admita o enfrentamento como condição básica da existência da POLÍTICA. E enfrentamento físico, quando for o caso, sem que haja crime e portanto sem punição de quem protesta sob BASE LEGAL LEGÍTIMA. Quando a Polícia é usada para ANIQUILAR O MOVIMENTO CONTESTATÓRIO, e não como enfrentamento, não há sequer política no Estado, quanto mais democracia.
O Reino de Rodinhas não queria nada com a democracia. Não queria sequer ser político. Na verdade, não queria nem ser nobre, mas Absolutista, e, contra todas as fantasias dos escritores e sábios do Reino (que fumavam seu ópio e viviam em Babilônias longínquas), o Absolutismo convivia com o Estado Democrático de Direito (!), sem que os juristas percebessem o contra-senso de um monstro, um Leviatã cuja cabeça era o ânus, e o ânus era a cabeça pensante.
A Tropa de Rosa Choque avança, avança, com percussão no tambor, e não nos escudos, trazendo alegria e esperança de liberdade para o povo. Apavorados, os Militares da Tropa de Choque e das outras armas – aqueles mesmos de rosto duro e trejeito retesado! – saíram correndo e tropeçando, sem saberem o que ocorria no fundo de suas almas.
Esse foi um dia de glória, para os que alimentam alguma esperança de raiar o sol novamente no Reino… que não será mais de Rodinhas.
por Reginaldo Parcianello