Opinião: A proposta de “diretas para reitor” na visão de um estudante da UnB

Fiquei sabendo que as eleições para reitor na USP são decididas por uma ínfima minoria da universidade e que parte da esquerda no movimento estudantil defende a proposta de diretas para reitor.
Na UnB, diferentemente da USP, estudantes, funcionários e professores podiam participar da votação. Até o ano de 2008, quando ocupamos a reitoria e derrubamos o reitor, o voto nessa eleição era dividido da seguinte maneira: estudantes tinham 15%, professores 75% e funcionários 15% dos votos. Formava-se assim uma lista tríplice e o voto final, assim como na USP, era dado pelo governo.
Na ocupação da reitoria, que foi a maior mobilização estudantil da UnB na últim década, a esquerda pelega da UnB defendia com unhas e dentes que tudo ia mudar se a eleição para reitor fosse paritária. Eles defenderam o fim da ocupação da reitoria em nome da suposta conquista da paridade que viria a ser aprovada em uma reunião do Conselho Universitário, meses depois.
No mesmo ano, o atual reitor José Geraldo, do PT, se elegeu em uma eleição paritária. Mas, sem a mobilização, a burocracia universitária aplicou um golpe: o voto dos estudantes só seria paritário se todos os 30 mil estudantes da universidade votassem, todos os funcionários e professores. Caso contrário, seu peso decaía conforme a participação.
A eleição de José Geraldo foi apoiada abertamente pelo PT e pelo PSol em segundo turno, já que esse partido possuía candidato próprio. O sistema paritário foi comemorado por toda a esquerda pelega, que acabou com a mobilização para conseguir uma consulta falsamente paritária, uma democracia de faz-de-conta, já que o governo sendo o verdadeiro eleitor.
Pois bem, agora que termina o mandato de José Geraldo, o que essa esquerda pelega tem a dizer? Nada. Estão calados porque o reitor reprimiu as manifestações, ignorou os protestos estudantis, demitiu os terceirizados e está colocando grades e câmeras por todo o campus. Pergunto: de que adiantou votar para reitor?
Na USP, eles estão dizendo que é preciso lutar por “diretas para reitor”, mas será que não aprenderam com a experiência da UnB?
Para quê votar para reitor se: em primeiro lugar, a eleição é controlada pelo governo, em segundo lugar, se concentra todo o poder sobre a universidade na figura de uma pessoa e, em terceiro lugar, as regras da universidade já definem de antemão quem pode se candidatar a reitor?
O que essa esquerda pelega e conservadora está fazendo na USP é alimentar as ilusões dos estudantes em medidas que não têm nenhum efeito e não produzem mudanças reais no regime de poder da universidade, como a eleição para reitor\.
O PSol, por exemplo, alimentou a ilusão no seus próprios militantes de que conseguiria eleger um reitor na UnB. Havia, inclusive, promessas de cargos para os seus militantes do movimento estudantil caso fossem eleitos.
É exatamente isso que é ocultado. Os estudantes servem apenas como massa eleitoral, para garantir os interesses de uma burocracia que dirige de fato a universidade. Os estudantes não possuem direito de se candidatar, tão pouco de decidir sobre os rumos da universidade.
A proposta de “diretas para reitor” oculta que só professores podem se candidatar; que a eleição será na realidade muito pouco democrática; que o governador continuará escolhendo o reitor, não passando a eleição de uma consulta. E mesmo que fosse muito diferente disso, a eleição para reitor continua significando que estudantes e funcionários não têm nenhum poder real dentro da universiade e que esta continuará sendo administrada por uma burocracia. O poder continua concentrado nas mãos do reitor, cuja mandato, ainda que seja escolhido pela esmagadora maioria, no sistema “uma cabeça, um voto”, está totalmente fora do controle daqueles que compõem a universidade.
Por isso, eu apoio a luta pelo governo tripartite com maioria estudantil, como fizeram os estudantes em Córdoba em 1918. Somente dessa forma será possível mudar de fato a estrutura de poder na universidade, o resto não passa de manipulação e ilusão.
L. G.
Estudante de Serviço Social da UnB