Debate: A liberdade de expressão e os defensores do “criacionismo” na USP

O Jornal da USP Livre! recebeu correspondência de um leitor contrário às posições expressas em um artigo assinado por Elmano Sadino. Publicamos aqui a carta recebida bem como a resposta do autor do artigo em questão.
Olá, Primeiramente gostaria de ter a resposta de uma pergunta: NÓS estudantes queremos ou não democracia e liberdade de expressão aqui na USP?
Acho que a resposta será um “sim”, mas diante de declarações irônicas/preconceituosas/discriminatórias publicadas na edição nº 55 do Jornal da USP Livre, cuja manchete foi “Não vamos abaixar a cabeça diante da ditadura do reitor-interventor”, fica um pouco difícil de acreditar nisso.
As declarações foram feitas em um artigo de opinião com o título “A Cruz”, de autoria de “Elmano Sadino”. Confesso que não entendi o porque de ressaltar a existência de um “professor criacionista na Letras” (como se isso fosse uma coisa proibida “em pleno século XXI” e aqui na USP, onde por sinal, todos querem “liberdade de expressão”); também não compreendi a relevância de expor uma opinião sobre evangélicos, comparando-os a “lesmas”, uma vez que vocês colocam lesmas e evangélicos unificados por um grupo: a chapa “Não vou me adaptar”, e na redação do texto, coloca-os lado-a-lado (a comparação é representada graficamente).
Se a liberdade de expressão é um dos itens que devem constar dentro de um ambiente universitário, não vejo isso aqui. Percebo nitidamente – e vocês o negarão – que há uma opressão ideológica por parte de vocês, essa opressão está em todo lugar daqui, não só do reitor para com os estudantes, professores e funcionários em geral, mas de estudantes que se julgam a nata intelectual da comunidade acadêmica para com “pobres e ignorantes evangélicos e criacionistas” (pobres e ignorantes de acordo com a concepição de vocês).
Por último, peço que tomem especial cuidado com a publicação de artigos de opinião no Jornal da USP Livre, pois tais artigos costumam carregar uma empolgação não refletida por parte do(s) autor(es).
Desde já agradeço a atenção, peço que me respondam, e declaro que sou a favor do Movimento estudantil, penso que as manifestações devem existir, mas só mando este e-mail, pois vejo que em MUITOS casos os estudantes que dizem “lutar” por causas importantes como “mais democracia e liberdade de expressão”, carregando bandeiras como “Fora Rodas” e “Fora PM”, caem em contradição, têm atitudes típicas de pessoas hipócritas, e deixam a verdadeira Luta Estudantil cair em puro e ingênuo maniqueismo.
Sem mais.  Obrigado.  R.G.

Elmano Sadino responde:

Prezado R.G., Agradecemos-lhe pelas considerações que o senhor fez à nossa matéria. Gostaríamos de responder a elas na ordem em que foram feitas. Vamos a elas:
1. “NÓS estudantes queremos ou não democracia e liberdade de expressão aqui na USP?”
R.: Como o senhor, nós as queremos. Liberdade de expressão significa que temos liberdade de criticar, repudiar, desacatar, escarnecer, bem como de enaltecer, engrandecer, elogiar, etc. Se não for assim, que sentido teria uma liberdade que nos obriga a irmos em uma única direção?
2. “Confesso que não entendi o porque de ressaltar a existência de um “professor criacionista na Letras” (como se isso fosse uma coisa proibida “em pleno século XXI” e aqui na USP, onde por sinal, todos querem “liberdade de expressão”)”.
R.: Temos ou não temos liberdade de expressão para discordar de um criacionista? Ou tal liberdade nos obriga a concordar com ele e aceitar o criacionismo? Se for assim, teremos que concordar com os que aceitam o criacionismo e concordar com os que não aceitam. Isso não é liberdade de expressão, é hipocrisia. O que o senhor está a dizer é que não podemos fazer críticas. É isso liberdade?
Mas temos sim obrigação de discordar e denunciar o criacionismo dentro de uma instituição científica. O criacionismo não é simplesmente uma profissão de fé; é um pensamento obscurantista, deletério, medieval e que não tem mais lugar no mundo moderno. Aceitar o criacionismo é o mesmo que aceitar que a faculdade de medicina forme curandeiros para exercer a profissão de médico. Se se permite que um professor universitário manifeste uma crença no lugar de um pensamento científico, permitir-se-á também que charlatães adentrem hospitais e clínicas e matem milhares de pacientes em nome da “liberdade de expressão”. Não senhor. Não se trata de liberdade de expressão, trata-se de impostura, charlatanismo, ignorância. E nada disso tem lugar numa universidade.
3. “Também não compreendi a relevância de expor uma opinião sobre evangélicos, comparando-os a “lesmas”.”
R.: A comparação é extremamente relevante em nossa livre opinião. Quais foram os avanços que os evangélicos proporcionaram às ciências? E à luta estudantil? Compare essas ações com a morosidade do passeio das lesmas e o senhor encontrará a resposta. Se o ofendemos com essa comparação, perdoe-nos. Nossa intenção não é ofender os evangélicos, mas as lesmas.
4. “Percebo nitidamente – e vocês o negarão – que há uma opressão ideológica por parte de vocês (…) que se julgam a nata intelectual da comunidade acadêmica para com “pobres e ignorantes evangélicos e criacionistas” (pobres e ignorantes de acordo com a concepição de vocês).
R.: Não há nenhuma opressão ideológica. Estamos abertos ao debate. Tanto é que estamos a responder a carta que nos enviou. Se quisermos estabelecer um debate sério, temos de contestar aquilo com que não concordamos. É o que fizemos. Discordamos das ações da atual diretoria do DCE e a criticamos. O senhor, no entanto, não nos faz críticas, mas censuras. Diz apenas que não podemos fazer isso, que não podemos fazer aquilo, que é errado criticar os evangélicos, as lesmas e os criacionistas. O senhor não nos diz por quê. Apresente uma única razão que confirme a relevância do pensamento criacionista. Prove-nos (ou, pelo menos, dê-nos indício de) que Adão é fato e não alegoria. Aí, então, debateremos.
Quanto a esta colocação, “pobres e ignorantes evangélicos e criacionistas”, temos a dizer que está mal colocada. Em primeiro lugar, há evangélicos ignorantes e evangélicos que não são ignorantes. Como alguém poderia dizer que Lutero e Calvino, bem como muitos doutores da Igreja, estudiosos da exegese bíblica, e teólogos sejam ignorantes? Em segundo lugar, não podemos dizer com precisão que os criacionistas sejam ignorantes. Há os que são ignorantes sim: os que acreditam nessa bobagem. E os que são desonestos: os que propagam o criacionismo com propósitos políticos, como o famigerado grupo de intelectuais venais denominado “intelligent design”.
5. “Peço que tomem especial cuidado com a publicação de artigos de opinião no Jornal da USP Livre, pois tais artigos costumam carregar uma empolgação não refletida por parte do(s) autor(es).”
R.: O Jornal da USP Livre! não censura os artigos publicados.

Aproveitamos o ensejo para dizer-lhe que suas opiniões serão bem-vindas e terão espaço no jornal. Se puder, colabore com matérias.

Atenciosamente,
Elmano Sadino