No plebiscito da FEA, os estudantes… Ganharam, mas não levaram

Mesmo com 818 votos contra as catracas e 319 votos a favor, no
plebiscito da FEA a “paridade” anulou a vontade da maioria

No plebiscito realizado pela direção da FEA na última semana, o voto paritário (isto é, dividido entre estudantes, funcionários e professores de modo desigual, em que cada setor ficou representado por um voto apenas, a favor ou contra as catracas) garantiu que os votos da maioria de estudantes, e dos funcionários e professores que se opõem à instalação das catracas no prédio fossem praticamente anulados.
Foram 818 votos contra as catracas e 319 a favor. O resultado deveria ter derrotado a pretensão da direção da faculdade de instalar as catracas. No entanto, como o voto era paritário, apesar dos estudantes terem ganhado, uma vez que eles foram os que se manifestaram contra a medida em sua maioria, o resultado da votação foi manipulado para refletir a vontade da minoria.
Apesar de o plebiscito ter sido uma reivindicação do Centro Acadêmico Visconde de Cairu, que é contra a instalação das catracas e queria que a opinião da maioria se expressasse no seu resultado, a direção da FEA fez questão de deturpá-lo para conseguir legitimar as catracas.
Com a paridade, a congregação garantiu que o voto dos 3.488 estudantes equivalesse ao voto dos 184 professores e 135 funcionários. Assim, o voto de um professor equivaleu ao voto de 20 estudantes.
Cerca de 80% dos estudantes votaram contra as catracas, enquanto 76% dos professores e uma pequena maioria de funcionários, 53%, votaram a favor.
Entre os estudantes que participaram do plebiscito, 758 foram contra as catracas, enquanto apenas 205 foram a favor, totalizando 963 votos. Entre os professores, 22 foram contra e 71 a favor, totalizando 93 votos. Entre os funcionários, 38 votaram contra as catracas e 43 a favor, totalizando 81 votos.
Mesmo os estudantes tendo 963 votos contra 174 votos dos outros dois segmentos, ganhou a opinião da diretoria da faculdade. Mesmo que a esmagadora maioria dos votos (78,71%) tenha sido contra as catracas, a manobra da paridade vai obrigar o conjunto dos estudantes e dos funcionários e professores que se opuseram à medida a aceitar aquilo que já rejeitaram.
O que demonstra que o resultado do plebiscito já havia sido definido de antemão é a declaração dada recentemente pelo diretor da FEA, Reinaldo Guerreiro, ao Jornal do Campus: “Eu não posso deixar de fazer alguma coisa que a congregação solicitou [para quê consultar as pessoas se é uma ordem que não pode ser descumprida? – nota da redação do Jornal da USP Livre!]. Mas, como diretor, quero conversar com os alunos, explicar o que significa colocar catracas, que é para aumentar a liberdade e não para diminuí-la”.
Se já havia sido decido, por que consultar as pessoas? É óbvio que a direção da FEA buscou apenas legitimar uma medida tão impopular como a instalação de catracas que irá equiparar a faculdade a uma instituição privada.
A direção da FEA já tinha decidido, sem consultar ninguém, instalar “mecanismos” de controle de acesso no segundo andar do FEA1, nos prédios FEA2, FEA3, FEA5 e na biblioteca. Faltava apenas legitimar as catracas na entrada principal da faculdade.
As catracas são utilizadas em instituições privadas, onde quem está inadimplente ou não paga a mensalidade não pode entrar.
Nas universidades públicas, o acesso não é restrito, um estudante do ensino médio, por exemplo, pode assistir a uma aula na USP. Não precisa para isso dizer o que está indo fazer lá e justificar porque deseja assistir a aula, uma vez que a universidade é pública e gratuita, de todos para todos.
A decisão da FEA direciona a USP em um sentido completamente oposto. A partir de agora, só poderão entrar na faculdade aqueles que são estudantes, professores ou funcionários da FEA. Estes terão um crachá que os identificará, os demais terão que pedir permissão, explicar o que querem fazer na faculdade etc., mesmo que sejam estudantes da própria USP.
É privatização descarada de um bem público, sob o falso pretexto da “segurança”. A FEA não é só dos que estudam e trabalham nela, mas de todos que frequentam a USP. A direção da faculdade está tomando uma medida sem ter autoridade para tanto, uma vez que não é dona das instalações da FEA.
Apesar dos professores trabalharem e dirigirem a faculdade isso não garante que sejam seus donos e tenham o direito de restringir o acesso das demais pessoas às suas instalações, em outras palavras, que tornem a FEA uma instituição privada, ou seja, pertencente a um determinado grupo de pessoas.
É tão grotesca a situação que será criada pela direção da FEA que é, até certo ponto, incrível que não haja uma enorme reação contrária de estudantes, professores e funcionários. Os estudantes já demonstraram na própria votação que são categoricamente contra. Mas a ditadura do reitor-interventor, o clima de terror imposto à universidade pelo estado de sítio policial existente desde o ano passado, as ameaças, processos, expulsões, a presença ostensiva de guardas universitários e policiais militares estão dirigidos a intimidar aqueles que se opõem à privatização em marcha da universidade.
O que os demais estudantes, funcionários e professores de outras unidades da USP têm a dizer? Será que ficarão calados diante desse cerceamento da sua liberdade de ir e vir dentro da universidade da qual fazem parte?
É evidente também que a medida faz com a FEA se direcione ao que o reitor deseja: que se transforme em uma faculdade privada, assim como toda a USP.
Rodas já alterou o regimento da pós-graduação, retirando regra que determinava a gratuidade dos seus cursos, já fez declarações a favor de cobrar mensalidade dos estudantes e afirmou que “universidade pública não necessariamente significa gratuita”.
O reitor já deu o recado, somente os muito ingênuos, ou os que se venderam completamente por cargos, bolsas de estudo e favores da burocracia universitária, continuam acreditando que não existe uma forte pressão para que a USP seja privatizada.  

Um comentário

  1. Isso é bom para os alunos perceberem de que lado os professores e funcionários estão. Sempre votam contra os alunos e a favor da burocracia. A USP não tem mais jeito, precisa ser privatizada para que os professores aprendam como é o método de trabalhar e produzir privado. Tomara que as catracas controlem também os professores e funcionários, vai acabar a mamata quando tiverem ponto eletrônico. Deram um tiro no pé. ahahahahahaha

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