Opinião: O fosso entre negros e brancos na USP

Recentemente, o jornal O Estado de São Paulo divulgou os últimos dados sobre o perfil dos estudantes da USP.
Os dados mostram o fosso que existe entre os estudantes negros e brancos no momento de ingressar à universidade, principalmente quando se trata da maior e principal universidade do País.
Em cinco anos, entre 2005 e 2011, ingressaram na USP apenas 77 estudantes negros nos cursos de Medicina, Direito e Engenharia, o que equivale a 0,9% dos matriculados nesses cursos.
O sistema existente na USP é o Programa de Inclusão Social da USP que garante bônus a estudantes vindos de escolas públicas. Esse sistema continua perpetuando a disparidade entre negros e brancos no acesso à universidade.
Em 2011, apenas 2,8% dos estudantes que ingressaram pelo programa em 2011 se declararam negros.
Os dados da quantidade de estudantes negros e brancos nas universidades públicas do Brasil são ainda mais alarmantes comparados com as características da população.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 50,7% da população brasileira é preta ou parda, mas essa estatística é completamente revertida dentro das universidades, onde os negros são a esmagadora minoria.
Desde 2006, por exemplo, apenas 12 estudantes ingressaram no curso de Medicina da USP. Entre 2010 e 2011, no entanto, nenhum estudante negro passou pelo funil do vestibular para o mesmo curso.
Em Direito, no ano de 2011, apenas 3 estudantes negros se matricularam. Negros e pardos somam apenas 7,6% dos estudantes de Direito.
Na Politécnica, onde se concentram as Engenharias, apenas 8 estudantes negros ingressam em 2011, representando a maior proporção desde 2006.
Os dados demonstram a situação alarmante da USP de exclusão dos estudantes negros, conforme declarou a própria Associação de Docentes da USP: “A USP sempre foi contra as cotas. É só ver que o Inclusp não serviu para incluir esse grupo”.
O reitor-interventor João Grandino Rodas não só é contra as cotas para negros, como tentou acabar com o Núcleo de Consciência Negra, criado por iniciativa dos poucos estudantes negros da USP.
Nas férias de janeiro, Rodas mandou derrubar o barracão do Núcleo. O boletim USP Destaques tinha a seguinte chamada “Núcleo de Consciência Negra: sua regularização junto à USP depende de providências dos dirigentes daquela entidade”.
O Núcleo de Consciência Negra, criado em 1987, é considerado “irregular” pela reitoria.
A ameaça aos estudantes e funcionários visa garantir a privatização da USP. O fosso entre negros e brancos na USP continuará a existir se os planos do reitor de privatizar a universidade se concretizarem.
Paulo Coelho Silva