As ocupações do CRUSP e a perseguição política

“Ah, não existe coisa mais triste que ter paz

E se arrepender, e se conformar”

–Vinícius de Moraes

 

No dia 18 de março de 2010, no campus Butantã, a assembleia do CRUSP (Conjunto Residencial da USP) deliberou ocupação imediata do térreo do bloco G. Na época, esse espaço era usurpado por burocratas da COSEAS (Coordenadoria de Assistência Social) e por um banco privado estrangeiro, o Santander. A princípio, aquela ocupação não tinha a proposta de virar moradia. Como a burocracia não cedia em nada nas negociações, a ocupação virou a Moradia Retomada, que recebia estudantes que não conseguiram vaga no CRUSP, apesar de precisarem. Mas antes disso havia uma pauta. Em primeiro lugar, pedia-se mais vagas para a moradia estudantil. Com as obras do bloco A1 atrasadas aquele ano, o CRUSP tinha sete blocos, dos doze originais. Três foram demolidos, suprimidos; dois são atualmente subutilizados pela reitoria. Todo ano o drama se repete, não há vagas para todos os calouros que precisam. Centenas ficam de fora, não conseguem vaga. Em segundo lugar, pedia-se o fim do sistema de espionagem na moradia. Em uma reunião com a gestão da Amorcrusp, a cúpula da COSEAS deixou escapar relatórios feitos pelos vigilantes do CRUSP. Além do estranho interesse pela vida amorosa e pelos hábitos noturnos alheios, os relatórios mencionavam realizações de assembleias, relatando a pauta de discussões, listando presentes e registrando posicionamentos. Finalmente, entre outras reivindicações, pedia-se critérios claros de seleção para o ingresso na moradia, exclusivamente socioeconômicos. Até hoje a seleção é obscura, e cada vez mais obscura. Os critérios não são conhecidos, além de pesar a avaliação subjetiva das assistentes sociais, por meio de um critério chamado “parecer técnico”. (Significa que pra conseguir vaga a assistente social precisa ir com a sua cara). Resumindo, portanto, entre outras reivindicações a ocupação tinha uma pauta que pedia: -mais vagas no CRUSP; -desmantelamento do aparato de espionagem; -critérios claros, objetivos e exclusivamente socioeconômicos de seleção para ingressar na moradia estudantil.

Como se pode constatar, não era uma pauta extravagante. São reivindicações razoáveis de se fazer e possíveis de serem atendidas. É isso que chamam de extremismo hoje em dia. Pode-se constatar também que são exigências legítimas e políticas. É isso que chamam de vandalismo. Portanto a pauta era razoável, legítima e política. E é preciso dizer aqui que essa pauta não surgiu na ocupação. A exigência de mais vagas, por exemplo, remonta pelo menos a 1996, no século passado. Essas demandas estavam sendo negociadas por meses com a coordenadoria, sem nenhum resultado. Nenhum compromisso, nenhuma promessa, nenhuma concessão. É isso que a burocracia nomeou “diálogo”. A palavra “diálogo”, na USP de hoje, é o amuleto dos cínicos. Quando opõem o “diálogo” à ocupação omitem as negociações frustradas dos meses anteriores. Omitem que algumas dessas reivindicações são bem antigas, e que enrolaram diversas gestões da Amorcrusp até que elas terminassem, ludibriando-as por meio do “diálogo”. Esse “diálogo” é nada, apenas uma palavra fácil para dar ares de extremismo a quem está exigindo o mínimo.

Em vista do que foi exposto até aqui, podemos dizer: a pauta era legítima; a burocracia nunca esteve disposta a ceder espontaneamente. Esclarecido isso, coloquemos aqui o seguinte: foi essa ocupação que motivou a eliminação de oito estudantes da universidade. (Até agora, um deles conseguiu ser reintegrado por meio de uma liminar). Eliminação é o imediato desligamento da universidade, sem possibilidade de reingresso, seja no corpo discente, docente ou como funcionário. Essa é a punição reservada aos inconformados. É disso que se trata quando denunciamos a perseguição política na USP. A ocupação tinha motivação política, e se impôs como método diante da intransigência da burocracia.

O Magnífico Reitor João Grandino Rodas cometeu essas eliminações no dia 17 de dezembro de 2011, aniversário da invasão do exército no CRUSP em 1968, dias depois da decretação do AI V. Muitos foram presos, outros nunca apareceram, e mais de 800 foram abandonados na rodovia Raposo Tavares, deportados para o meio do nada apenas com a roupa do corpo. É importante lembrar aquele CRUSP hoje. O CRUSP de Jeová Assis Gomes, de Chico Dialético, de Rafael Kauã, e de tantos outros. Um CRUSP fruto de ocupações, como o de hoje. Na década de 60 aqueles prédios tiveram que ser ocupados para se tornarem moradia. Nos anos 80 isso se repetiu. Nos anos 90 também. E com a ocupação da COSEAS, essa primeira década do século XIX também não passou em branco. O bloco A foi fruto de ocupação. O B também. E o C, e o D, e o E, e o F, e o G. O CRUSP teve que se impor à USP.

Essa última ocupação também renderá vagas. O térreo do bloco G, que foi sede da UEE, do DCE e da AURK nos anos sombrios da ditadura militar, não voltará para os burocratas. Será alojamento provisório, num reconhecimento involuntário da legitimidade das demandas do movimento. Contudo, ao custo de oito eliminações. Contudo, ao custo de uma reintegração de posse. No dia 19 de fevereiro, domingo de carnaval, às quatro e meia da manhã, um contingente de mais de 300 homens da PM de São Paulo expulsou as pessoas que estavam na ocupação, levou-as para a delegacia. Depois as prenderam ao longo de um dia inteiro em celas claustrofóbicas, sujas de excremento e sangue, e só as soltaram sob fiança. Não eram mais as pessoas que ocuparam inicialmente que estavam morando lá. A Moradia Retomada já tinha recebido diversos moradores novos. Chegamos a uma situação em que morar é um crime, é excessivo. Estamos aquém até mesmo de um estado “democrático de direito”. Desvirtuam as leis para justificar barbaridades. É esse tipo de coisa que chamamos de criminalização dos movimentos sociais.

Mas não vai funcionar. Ninguém irá se arrepender de ter lutado pelo que é justo. Não vamos nos conformar. Enquanto a estrutura de poder da universidade for centralizadora e autoritária a resistência e o inconformismo persistirão. Enquanto a USP continuar excluindo pessoas, mesmo depois de elas terem driblado o filtro social do vestibular, a necessidade continuará levando naturalmente ao “extremismo”. É tempo de revolta.

William