O diploma

Henrique Carlos andava abatido, cabisbaixo, arrastando-se pelo corredor do Crusp, pois as assembleias estavam frequentes ultimamente. Toda terça-feira, os moradores desciam à agora para discutirem as questões políticas que os aflingiam e, uma vez reunidos, acabavam por decidir ações para reverter a situação subalterna diante da Sas/Coseas/Reitoria, implicando assim, intensas mobilizações: havia muitos cartazes, crafts, panfletos, jornais demasiado denunciativos, palavras de ordem à flor da pele, pixações, passeatas, greve, enfim, muita baderna. Não que fosse contra a luta estudantil, mas as assembleias davam nisso e, acima de tudo, o desgastavam. Plebiscitos eram mais civilizados e eficientes.

Sua desilusão estava para atingir um estágio avançado, não fosse chegar aos seus ouvidos a seguinte notícia: a partir dali, as assembleias seriam apenas mensais, pois o fluxo de moradores havia diminuído e, além disso, a Sas/Coseas setenciara um toque de recolher à uma da manhã – os ataques do PCC, que horror! agora estavam acontecendo na USP -, o que atrapalhou a realização noturna das assembleias, que era o período mais acessível aos moradores. “Que bom que as gritarias das quatro da manhã não mais me importunarão”, pensava Henrique Carlos que, agora, sentia-se mais feliz e, consequentemente, obtinha maior rendimento acadêmico.

Alguns dias se passaram e o ato de colar cartazes restringiu-se apenas aos murais de dentro dos blocos (a SAS/Coseas havia retirado os murais do corredor), mas a comunicação pelos panfletos (jogados soturnamente embaixo das portas, de madrugada) continuava. “Melhor assim! olhar para aquela poluição visual na fila do bandejão me causava enjôo”. Henrique Carlos passou a ter uma digestão mais saudável e até conseguiu ganhar uns quilinhos; estava mais corado também.

Ao final do semestre, Henrique Carlos dera por falta das assembleias: elas tinham sido suspensas (substituídas por reuniões secretas fora da USP). Estava radiante: livre das assembleias, poderia decidir o que fazer sozinho e da melhor maneira. O assembleísmo havia finalmente acabado. Chegara à conclusão de que não só engastalhavam seus estudos, as assembleias também geravam repressão, afinal, assistiu durante as férias de dezembro seus participantes serem processados, presos e expulsos da universidade.

Logo em seguida, saiu de viagem: retirou-se à casa de seus pais; conheceu paisagens do cerrado; visitou casa de amigos antigos, também universitários – alertando-os sempre do perigo das assembleias. Quando voltou, o Crusp encontrava-se em situação muito melhor: um verdadeiro condomínio pequeno burguês, livre de maconheiros gritando “autonomia cruspiana” pra cá e “abaixo a polícia militar” pra lá, e desprovido de vagabundos depravados correndo nus pelo corredor ou diluindo-se em suor e samba nas cozinhas, numa verdadeira sauna subversiva. Até o velho louco que enfeiava o Crusp por ele perambulando e dizendo pertencer-se a uma galáxia soviétiva finalmente fora retirado dali. O Crusp passara de Conjunto Residencial da USP à Condominio Restrito da Usp. A Amorcrusp fora dissolvida para dar lugar ao síndico – nomeado pelo reitor – Waldir Antônio Jorge, que organizava as reuniões de condomínio impreterivelmente via skype. Assim, Henrique Carlos nem precisaria pisar para fora de seu quarto, já que as aulas haviam passado de presenciais à virtuais. Catracas magnéticas substituíram os porteiros. Câmeras foram instaladas no interior dos blocos, e muros com cerca elétrica foram erguidos ao redor do Crusp. O Chicão morrera deprimido pouco antes dos outros cachorros serem sacrificados. A horta fora destruída. O Regimento mudara: ninguém poderia entrar ou sair do Crusp após às 22h. Ficara proibida a existência de crianças no interior do condomínio. “Crianças são bagunceiras! como diria Nietzche: ‘ou filhos, ou livros’”, aliviava-se Henrique Carlos.

Alguns anos se passaram e nunca mais ouviu-se falar em processos, prisões ou expulsões. Ao final do curso, postava orgulhoso no Facebook: “viram só como a repressão vinha das assembleias? eu estava certo!” (ninguém curtiu).

No auge da sua extrema felicidade, livre de repressão e com uma feliz perspectiva de uma vida nova pós universidade, algo incomum aconteceu: sua massa corporal foi ficando delgada; suas curvas foram sumindo, tomando aos poucos uma forma retilínea; inscrições como “Universidade de São Paulo” e a assinatura de João Grandino Rodas (já há oito anos no reitorado) apareceram e fixaram-se em seu corpo como tatuagem. Enrolou-se. Entubou-se.

Henrique Carlos transformou-se em diploma.

Isa Lourenço 

(adaptado do conto “O arquivo”, de Victor Giudice, e inspirado nas expressões “assembleísmo” e “assembleia gera repressão”, citadas em uma fala durante o debate entre chapas para a Amorcrusp no dia 13 de novembro de 2012)