CRUSP: Retomar as assembleias

O destino das assembleias nessas eleições

Há dois anos não temos mais assembleias frequentes no CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo). Das três chapas que concorrem esse ano à Amorcrusp (Associação de Moradores do CRUSP), uma única chapa abre a perspectiva de efetiva participação de todos os moradores na gestão, por meio de assembleias frequentes e soberanas: a Retomada. As outras duas representam ou uma prática “parlamentar” (é a “esquerda” entre aspas, CRUSP Popular) ou uma franca oposição à participação direta (Pra Frente CRUSP). Para a realização de assembleias, deve-se votar na Retomada.

“Representação”

A realização de assembleias é a única forma de superarmos a mera “representação” na participação política concreta e cotidiana. A “representação” concentra o poder das decisões todo em algumas pessoas eleitas (às vezes restando uma única pessoa no fim da gestão, como aconteceu com a Novo [sic] Amorcrusp em 2011). Mais importante e profundo do que isso, a “representação” nos reduz, a todos nós “representados”, a um conjunto abstrato e limitado, determinado unicamente na relação com a SAS (Superintendência de Assistência Social, que administra o CRUSP). Trata-se de uma redução, em que os sujeitos se diluem em “papéis” sociais circunscritos, cronometrados, estanques e programados: o estudante; o “condômino”; o “síndico” que dirige a Amorcrusp etc. Ao menos duas consequências adversas decorrem daí. Primeira, a entidade em si, sem respaldo de um movimento real, não tem quase nenhum poder de barganha, de modo que sua pressão sobre a burocracia é quase nula. A segunda consequência é que os interesses da SAS, sub-repticiamente, em parte estabelecem fronteiras para os interesses dos cruspianos (a totalidade deles) sem que isso sequer seja sentido, e em parte incorpora-se a eles, travestindo de interesse dos moradores o interesse da burocracia. Um movimento real para as demandas atuais do CRUSP, de sujeitos reais, não é plausível se circunscrito pela SAS.

Entidade usurpada

Essas duas consequências podem ser mapeadas tanto na prática das últimas duas gestões quanto nos programas das chapas que hoje as representam. De um lado, oposição (franca ou envergonhada, tanto faz) às assembleias, de outro, redução das demandas cruspianas a problemas de infraestrutura e lazer. Dois anos sem assembleias não ajudaram em nada na articulação dos moradores em torno de pautas comuns, na organização de um movimento. Sob o silêncio dessa relativa “paz” a burocracia desfruta de um infame triunfo: o rebaixamento das nossas pautas e o avanço da repressão. Como dito acima, isso é consequência de uma Amorcrusp meramente “representativa”. Não existem moradores de verdade nesse contexto, somos “eleitores”, cujo voto legitimaria qualquer decisão dos nossos eleitos. Sem o respaldo de um movimento concreto que a legitime de fato, a Amorcrusp não pode exigir nada que vá além das conveniências da burocracia. A SAS cede apenas aquilo que lhe interessa ceder, visando sempre o controle e o conformismo (a demarcação de um quadrado na parede do bloco F destinado à “livre expressão” é emblemática), ao mesmo tempo em que impõe medidas repressivas sem nenhum protesto (pra ficar num exemplo pitoresco, não se pode mais andar sem camisa nos corredores).

Participação real: assembleias

A única forma de nossas demandas superarem os limites traçados pelos burocratas é a discussão em assembleias. A única forma de organizar um movimento com condições de exigir essas demandas da burocracia é por meio de assembleias. Nas assembleias somos sujeitos reais, com demandas concretas e possibilidade de expressá-las e de decidir coletivamente o que fazer a respeito delas. Não as demandas domesticadas no âmbito do que a SAS estabelece como razoável (na verdade intolerável), mas demandas que de fato nos incomodam, contrárias aos interesses excludentes da burocracia. Como as demandas do último movimento real do CRUSP (a ocupação do térreo do bloco G em 2010), formuladas coletivamente em assembleias (na época semanais). Vale recordar algumas delas*:
-mais vagas na moradia;
-desmantelamento completo do serviço ilegal de vigilância e fim das práticas violentas da SAS;
-fim das expulsões arbitrárias de estudantes da moradia.
Essas foram algumas das demandas que surgiram ao longo de um processo concreto de lutas. Certamente elas ainda estão latentes no CRUSP, expressam carências e distorções que ainda persistem. Outras pautas, que você ou eu talvez nunca tenhamos imaginado, podem estar na cabeça de algum vizinho nosso; outras ainda, podem não ter sido pensadas por ninguém, mas surgiriam numa discussão coletiva. As assembleias são imprescindíveis para democratizarmos a Amorcrusp e recuperarmos sua relevância, levantarmos os problemas da moradia e termos força política para exigir o que precisamos. Pela volta das assembleias, eu voto na Retomada.

William Dunne
entusiasta da chapa Retomada