USP, um milagre?

Mais uma vez, o reitor-interventor rasgou elogios à privatização da universidade

“O fato de a USP hoje estar muito bem é quase um milagre”, disse o reitor da universidade, João Grandino Rodas, em entrevista ao portal G1. Segundo o reitor-interventor, o milagre estaria na impossibilidade de se manter uma universidade de qualidade apenas com recurso público, ou seja, sem a ajuda privada.
Vejamos a veracidade dessas palavras. As universidades mais bem colocadas nos rankings internacionais são todas públicas, variando de posição a cada ano a Unicamp, UFRJ, UFMG e Unesp. Em ranking elaborado pela Folha de S. Paulo, as dez primeiras colocações são exclusividade das públicas, federais e estaduais.
Um milagre seria um fato maravilhoso que se opõe às leis naturais. Já se vê por aí que o “milagre” não atingiu apenas a USP, mas as universidades públicas de modo geral, não sendo portanto nenhum milagre, mas uma regra.
É possível que o “milagre” a que se refere Rodas, cujas afinidades ideológicas remontam à ditadura militar, seja o milagre da USP, assim como as demais públicas, ter sobrevivido tão bem às inúmeras investidas dos governos desde a ditadura militar contra ela.
Com os acordos MEC-USAID, o regime militar colocou em prática uma política de desmonte do ensino público, por um lado tentando transformá-lo num ensino puramente técnico, sem produção de conhecimento e, por outro, de beneficiamento dos empreendimentos privados no ramo. Tanto é assim que uma das maiores empresas de educação do País foi formada durante o período por um conhecido apoiador da ditadura, João Carlos Di Genio, do grupo Objetivo.
Durante a era FHC, o ensino privado ganhou novo impulso e os governos do PT, com Lula e Dilma, também não deixaram de apoiar o setor. Programas como o Fies (Financiamento estudantil) e o Prouni, que são programas de financiamento do ensino privado com o dinheiro público, salvaram os tubarões da educação da falência, uma vez que é evidente que a população não tem dinheiro para acompanhar a expansão do ensino privado, que atualmente é maior do que o público. Reside aí o “dinamismo” do ensino privado tão propagandeado pela imprensa capitalista: na doação de verbas estatais para essas instituições e numa política que privilegia esse setor. Isso é o liberalismo, é ser liberal com os recursos públicos para os capitalistas.
Se é assim, por que as universidades públicas não poderiam viver exclusivamente da verba estatal, se as próprias instituições privadas sobrevivem da ajuda do Estado?
Vale ressaltar aqui o confisco da população que essa política representa. Um curso de direito por exemplo, pode custar cerca de 40 mil reais, na média, por pessoa. Um ensino que deveria ser fornecido pelo Estado com uma qualidade muito superior aos cursos pagos.
Rodas defende que empresas e grandes capitalistas financiem a universidade pública. Mas será que de repente os capitalistas, que destruíram a educação no País em busca de lucros, vão esquecer de sua avidez e simplesmente doar seu precioso dinheiro para ajudar a melhorar a educação brasileira? Claro que isso é uma pergunta retórica.
O que Rodas quer é abrir uma nova fonte de lucros para os capitalistas, a educação pública. Basta ver o que acontece com as fundações privadas na universidade. O caso mais escandaloso foi o da FIA, fundação privada que atua na Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA). A FIA é formada por professores da FEA, que usavam toda a estrutura da universidade e inclusive seu tempo que deveria ser dedicado à universidade, para administrar cursos de MBA na unidade, pelos quais cobravam altas mensalidades. Ou seja, não gastaram nada e usaram a estrutura da universidade para lucrar. Depois de mais de 20 anos de lucros exorbitantes, resolveram abrir uma faculdade privada, concorrente da FEA, com a “excelência USP”. E, claro, Rodas os parabenizou por essa iniciativa. O que o reitor-interventor defende quando fala em “buscar investimentos privados” é multiplicar esse tipo de fenômeno, bem como os lucros dos que vão se beneficiar disso, colocando a universidade a serviço dos interesses de alguns particulares.
Mas voltemos ao “milagre” de Rodas. Resta ainda uma pergunta. Por que o ensino básico público foi totalmente destruído enquanto as universidades ainda se colocam indiscutivelmente entre as melhores do País? Será esse o “milagre”?
Longe disso. A resposta é simples e pode ser vista nos acontecimentos dos últimos anos na USP: duas ocupações de reitoria, greves, enfrentamento com a polícia, o campus colocado em estado de sítio pela PM, PSDB e o reitor-interventor; centenas de funcionários demitidos, dezenas de sindicalistas ameaçados de demissão, 72 estudantes presos e centenas ameaçados de expulsão, além de alguns efetivamente expulsos.
Os estudantes universitários possuem uma maior tradição de organização e mobilização do que os estudantes secundaristas e por isso puderam opor maior resistência à destruição planejada pelos governos nos últimos quase quarenta anos.
Não se trata de nenhum milagre, Rodas. Trata-se da resistência da população a esse confisco que o imperialismo, por meio dos governos capachos da ditadura militar, do PSDB e do PT quer realizar. Trata-se da luta de funcionários, professores e principalmente dos estudantes em defesa da universidade pública para todos que a sua gestão policial quer liquidar, que impediu que o ensino superior fosse desmantelado em favor do lucro de alguns poucos.
Natália Pimenta
Militante do PCO
e da chapa 27 de Outubro