citação Colecionador de…

Colecionador de Sonhos – I

Numa meia-noite de fim de primavera, já nas férias,
cochilando depois de um na Praça do Relógio,
tive um sonho como uma fotografia:
vi o reitor nas pedras, vindo da toca de uma coruja,
tornado outra vez aluno.
Não a correr e a rolar-se pela erva, o que já seria um absurdo e uma heresia acadêmica,
mas a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha passado no vestibular.
Era nosso demais para fingir
de primeira pessoa aqui da academia.
Na reitoria era tudo chato. Um desacordo!
Papéis e burocracia e reuniões para todo lado.
Cobranças. Ordens. Contas. Lattes!
Lá tinha que estar sempre sério
e de vez em quando de se tornar outra vez reitor.

E subir para o último andar da antiga Antiga, agora Nova, Reitoria
com sua carteirinha de reitor pela catraca, que ele mesmo mandou colocar,
e os movimentos atados por uma roda de seguranças.
Seu pai era um velho lenhador, serrava e podava decisões.
Sua mãe, não se sabe. Sorte dela. Tão amada, injustamente, quanto mãe de juiz.
Ele era músico e poeta, formado, pasmem, também em letras e em música:
aparentemente, aos desavisados, teria tudo para ser um de nós.
Talvez já fora.

Um dia em que o sucessor de seu pai estava a dormir,
e os diretores de institutos e faculdades estavam em algum congresso por aí,
ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano, novamente, e aluno.
Com o terceiro criou um reitor eternamente atrás de sua mesa.

E deixou-o sentado na mesa que há lá em cima
e serve de modelo aos outros.
Depois fugiu para a Praça do Relógio de Sol,
chegando pelo primeiro Circular que passou.
Hoje, vive no meu apê comigo: hóspede regular.
É um aluno estudioso, sempre a sorrir e com os olhos a brilhar.
Vai à Quinta e Breja, mata aula para ficar batendo papo
ou por causa da fila do bandejão
ou para discutir os melhores rumos do país.
Toca seu violão na praça, em tardes de sol,
come das frutas do campus
e foge a gritar dos cães da Uspão.
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Esta é a curta história do reitor aluno.
Por que razão que se perceba,
não há de ser ela mais verdadeira
que tudo quanto os acadêmicos pensam
e tudo quanto as disciplinas ensinam?

Alberto Conheiro