Por que a LER-QI não foi ao ato-debate em defesa dos 72 processados?

Nessa quarta-feira, os estudantes que foram detidos durante a desocupação da reitoria da USP e estão sendo processados pelo Ministério Público realizaram um debate como parte da campanha pela anulação do processo.

Os estudantes são acusados de formação de bando e quadrilha, depredação ao patrimônio público, entre outros.

O debate foi aprovado na última reunião dos processados, dia 18 de fevereiro. Na ocasião, a realização de um debate próprio foi proposta pelo PCO (Partido da Causa Operária) e apoiada pelo POR e por estudantes sem partido. O debate foi importante inclusive pelo fato de que o DCE (PSol/PSTU) não havia incluído na programação da Calourada nenhum debate sobre o assunto, nem feito nenhuma campanha em defesa dos processados.

Na reunião, as correntes LER-QI e MNN, que têm militantes entre os estudantes processados, se colocaram contra o debate porque esse estaria “concorrendo” com as atividades da Calourada. Numa tentativa de chegar em um acordo, os estudantes que estavam interessados na realização da atividade propuseram que ela ocorresse durante o período do almoço no Bandejão Central, de maneira que não concorreria com nenhuma outra atividade programada. Mesmo assim, essas correntes foram contra e acabaram derrotadas na votação realizada na reunião.

No entanto, mesmo depois de aprovado o debate, essas organizações se negaram a ajudar a organiza-lo e divulga-lo. Alguns militantes chegaram a afirmar que não apoiavam o debate pois participariam do ato “unitário” que o DCE marcou de última hora, e no qual os processados teriam apenas cinco minutos para falar.

A ideia de que não se poderia realizar uma atividade que “concorresse” com a Calourada organizada pelo DCE é totalmente errada. Primeiramente, porque é imperativo responder ao ataque desferido pelo Ministério Público contra os estudantes. As formalidades burocráticas nunca podem ser usadas como motivo para impedir a luta. Em segundo lugar, tornava-se ainda mais necessário fazer o ato-debate diante do fato de que o DCE não apenas havia se retirado da luta contra as sindicâncias internas, como se opôs a todo momento a que os processados tivessem voz nas atividades por eles promovidas e também não organizaram qualquer campanha ou defesa dos estudantes diante da denúncia do MP. Também não é demais lembrar que o DCE se colocou contra todo o movimento de 2011, no qual os 72 foram presos. Assim, na Calourada realizada logo após a denúncia contra os estudantes, esses foram os que menos tiveram voz, quando eles deveriam estar no centro de toda a atividade, bem como sua defesa.

Diante disso, a política da LER-QI é ficar a reboque do DCE (Psol/PSTU), mesmo esse tendo mostrado em todas as oportunidades que não pretende levar adiante uma campanha efetiva em defesa dos 72.

A LER-QI acredita que os estudantes devem seguir o DCE para não romper a unidade do movimento, quando na realidade foi o próprio DCE que rompeu essa unidade ao se colocar contra o movimento e ao se recusar defender os estudantes que estão sendo perseguidos.

Uma campanha realizada pelos próprios presos, um debate em que tinham a oportunidade de explicar todas as circunstâncias, todos os motivos do movimento e desfazer as calúnias da imprensa burguesa não apenas era um direito, como é também uma necessidade dos que estão sofrendo essa perseguição. Boicotar essa atividade, como fez a LER-QI na prática, aparecendo no meio do debate com apenas uma pessoa no meio do debate, sem mobilizar nem convocar ninguém, sem ajudar na organização e convocação do debate e criando dúvidas sobre a legitimidade da atividade é simplesmente injustificável.

Ainda que esse DCE lutasse de fato contra as punições, o que está muitíssimo longe de acontecer, os 72 teriam todo o direito de organizar uma atividade própria em sua defesa. Todas as iniciativas de apoio à campanha, que contribuam para que os companheiros não sejam punidos, que ajude a divulgar o caso devem ser apoiadas e não boicotadas em nome de uma unidade com aqueles que em todos os momentos se opuseram à luta.

Natália Pimenta
Estudante de Letras e militante do PCO