Direto do Fefelechão (narrativa futebolística no rádio)

Direto do Fefelechão, meus amigos, vai começar o jogo do século, que reúne a equipe dos AMIGOS DO REI ROTAS e dos AMIGOS DE SOFIA, com seus ídolos e jogadores consagrados.
Com destaque dos AMIGOS DO REI ROTAS: no ataque, a Rota, a PM–MP e o Esquadrão da Morte; na defesa, a Oh-peidei, Silas Mala-fala e Fragosinho Carioca; dos AMIGOS DE SOFIA, destaque para os atacantes Marx e Nietzsche e para a defesa de Aristóteles e Hegel.
O Rei Rotas, ao contrário do Rei da Baixada Santista, fede a peixe e tem as pernas tortas, mas não é Garrincha. Como o deixaram entrar em campo algum dia? – é o que muitos se perguntam, e os especialistas em futebol asseguram que, se ele não sabe jogar nada, ao menos sabe dar assistência aos que sabem catimbar, roubar a bola, levar a bola para casa… cheia de grama verdinhas e de cheques em branco! E o Gerardo faz parte da superstição do time: quando entra em campo, o ataque e os artilheiros são muito mais eficientes e estraçalham até as criancinhas.
A bola está rolando, rolando, com os AMIGOS DE SOFIA na posse de bola… e o Rotas já cai no gramado, dizendo que foi atingido com bosta e pedras. O juiz paralisa a partida…
– É impossível, protesta Sócrates, é impossível, nós estávamos com a posse de bola!
O juiz dá um cartão amarelo para o corinthiano de Atenas, e manda o jogo prosseguir. Sócrates, indignado, vai à beira do gramado, enxuga o suor, toma um gole de Sukita e volta à sua posição!
Bola com a Rota, que avança pelo meio, matou um, matou dois, matou três – que jogador formidável! – desarmou o adversário, colocou as digitais de outro em uma metralhadora, chutou, e… não, errou! Errou em bola e chutou um jogador caído, mas o juiz não viu, não quer conversa e disse que não vai olhar nas câmaras…
A bola é lançada para o REI ROTAS, Rotas não viu nada, levou uma bola nas costas, caiu no gramado… e caiu no macio, pois a gandula do Ministério Público jogou um pelego para o Rei Rotas não se machucar! E ainda caiu sobre a bola!
O técnico dos AMIGOS DE SOFIA precisa agitar o time, pois não adianta nada dizer como fazer o gol: é preciso correr, disputar, encontrar alternativas, pensar no jogo real e não no imaginário… O técnico insiste que é Pitágoras reencarnado e apenas contempla a partida.
Atenção, Agro Piano vai marcar… de mão! Colocou a bola na rede e o juiz validou o gol de mão! Novo protesto da equipe de SOFIA, mas agora o juiz acena e os policiais invadem o campo, para que o gol de mão seja validado.
É impressionante como muitos AMIGOS DE SOFIA são, na verdade, amigos da onça, pois fazem o jogo do adversário: estático, legalista, joga ideias às cegas… Vai ser necessário muito trabalho e muita luta, mas luta verdadeira, para os AMIGOS DE SOFIA voltarem a reinar no Fefelechão. Imagine: estão perdendo o jogo para uma equipe de pernas de pau! Nosso comentarista esportivo esclarece:
– A equipe dos AMIGOS DE SOFIA está analisando mal o esquema tático de Aristóteles: acha que manter a bola no meio do campo evita os extremos viciosos das duas grandes áreas. E também, ao buscar a suposta neutralidade ofensiva, acaba entrando no jogo violento do adversário. Enfim, kantianamente falando, eles precisam de categoria e de fatos concretos, no espaço e no tempo da bola.
Atenção, os AMIGOS DE SOFIA invadiram a área, vão marcar… o juiz apitou… é pênalti! Não, o juiz apitou contra eles e expulsou os jogadores que iriam marcar! Que juiz ladrão, grita a torcida! Juiz comprado! Até a mãe do juiz vem à beira do gramado para renegar seu filho e se unir à torcida dos AMIGOS DE SOFIA! Ela grita freneticamente “juiz filho da p.”!
Bola com Vampeta, ou melhor, Drácula, da equipe do ROTAS, jogador que veio da Serra e tira sangue do adversário! Mas o Drácula é logo desarmado, pois um jogador da equipe de Sofia carregava uma cabeça de alho e um crucifixo! Drácula da Serra esmurra o chão, disse que foi atingido por uma pedra; o juiz disse que ele estava sangrando, mas o sangue estava em seus dentes! Drácula da Serra foi atingido por uma bolinha de papel de um torcedor amigo dele, e ele rolou pelo chão! Veio o médico e confirmou que a bolinha de papel rachou seu crânio… Mas, como não havia nada dentro dele, Drácula se levanta e o jogo prossegue.

Rota com a bola… É  impressionante  esse jogo: A Rota domina tudo, até o tráfico de armas e de drogas… todas as drogas de jogador em campo foram traficadas por ela. A Rota tenta matar até mesmo Platão, Aristóteles, Kant, Hegel e Marx, tenta torná-los invisíveis aos torcedores, com tantas bombas e fumaça no ar. E está conseguindo! É muito hábil esse jogador: coloca uma viatura na cobertura, enquanto outros companheiros fuzilam o adversário, num lance tão rápido que ninguém vê nada.

Final do jogo! Agora eu quero ver a opinião do ouvinte sobre o melhor e o pior do jogo.
A Rota foi o artilheiro do jogo, que, se não marcou gols bonitos, foi o que mais atirou, atirou, atirou sem parar, atingindo muitos torcedores que estavam nas arquibancadas inferiores e na geral. Os torcedores das arquibancadas superiores não foram atingidos e disseram que isso faz parte do espírito esportivo e se sentem muito seguros com um jogador tão hábil e tão bem treinado.
A Oh-peidei foi o jogador com mais gás, que mais correu… correu como uma barata tonta, é certo, dizendo que queria acertar onde a coruja dorme, para despertar uma pombinha imaginária.
O jogador campeão em catimba foi o Drácula da Serra, que rolou pelo chão, quando foi atingido por uma bolinha de papel, e a torcida adversária, rolou, rolou, rolou de tanto rir com um jogador tão pé furado e tão catimbento! Nem a soma de todos os argentinos do mundo vale uma catimba do Drácula da Serra!
Melhor faixa de torcedor: “Drácula é do bem”, de um torcedor da equipe dos AMIGOS DO ROTAS. A segunda melhor faixa é “Filma nóis”.
A torcida mais vibrante foi a da equipe do ROTAS; os torcedores urravam a cada lance desonesto, gritavam que eles eram do bem, ululavam quando a Rota dava um carrinho por trás, pois sabiam que ele não seria expulso. Quanto mais sangue, mais vibração, e esses torcedores ficavam mais histéricos: queriam ver mais sangue ainda. Nem os torcedores da equipe dos Amigos de Auschwitz gostavam de ver tanto sangue!
O jogador mais mascarado é dos AMIGOS DE SOFIA: o Adorno, que é de Punta del Este e não de Frankfurt.
Melhor jogada: a tabelinha em espelho PM – MP, com uma ligação direta entre a defesa e o ataque.
O pior jogador da partida é o Gerardo, que nem chegou a tocar na bola, mas foi o capitão da equipe do ROTAS. Sobre sua má atuação, ele mesmo explica para a imprensa:
– Investimos dois chutes, três passes e ainda aplicamos outros 15 reais em chuteiras novas!

por Reginaldo Parcianello