Por que a LER-QI quer paralisar a campanha em defesa dos 72?

A última reunião dos presos, realizada no domingo, 3 de março. No início da reunião, durante os informes, cerca de 20 processados estavam presentes e mais 15 estudantes não processados.
Logo depois dos informes, a primeira discussão, levantada por integrantes da Liga Estratégia Revolucionária LER-QI e do MNN foi a de que a reunião não deveria ser deliberativa.
Ou seja, que fosse uma simples discussão que não tomasse nenhuma medida concreta de campanha, num momento em que o processo está correndo na Justiça. O argumento é de que não seria legítimo deliberar, devido ao fato de que só havia 20 processados presentes. Mas em diversas ocasiões foram tomadas decisões importantes com esse mesmo número de pessoas ou até menos, como foi o caso da tese dos processados para o Congresso da USP, uma decisão muito mais importante e que foi tomada em uma reunião com apenas seis processados.
Essa proposta recebeu apoio apenas dos representantes da LER-QI e do MNN e foi derrotada.
Logo após essa votação, as propostas de luta foram apresentadas. A mesma LER-QI destacou todas as propostas. Tal fato causou indignação nos presentes e fez com que alguns processados abandonassem a reunião já naquele momento.
Depois de destacar todas as propostas, entre elas a de que o movimento deveria seguir a bandeiras “fora Rodas!”, “fora PM” e “fim dos processos”, principais reivindicações do movimento que ocupou a reitoria, surgiu um debate sobre quem teria poder de decisão na reunião; os processados ou todos os presentes.
A LER-QI defendia que apenas os processados votassem, enquanto outra ala defendia que os processados deveriam ter exclusividade no que diz respeito ao próprio processo no qual estão envolvidos, mas que sobre a campanha e as atividades, todos os que estão participando deveriam poder decidir, por um critério democrático de que todos devem ter direito a decidir sobre aquilo no que estão empenhados e também como forma de agregar mais estudantes à campanha.
A proposta da LER-QI venceu por apenas um voto de diferença, numa votação confusa e com várias abstenções. Nesse momento, mais uma leva de processados se retirou por não concordar que as pessoas não possam decidir sobre o movimento no qual estão participando.
O maior problema da política levada adiante por essas duas correntes, no entanto, é a de que não pode haver campanha sem o apoio das entidades, pois elas são representativas.
O problema dessa concepção é que implica na prática que os processados vão depender dessas entidades para que haja campanha. E isso em uma situação em que estas entidades têm se mostrado abertamente contrárias à campanha, tendo inclusive boicotado a luta dos presos ostensivamente na calourada.
E de fato, o resultado final da reunião foi o de que nenhuma medida concreta para a realização de uma campanha em defesa dos estudantes processadas foi aprovada, apenas medidas que, embora importantes, são parciais, como a realização de mais debates como o do dia 27.
Isso implicaria em que os processados não poderiam encampar sua própria defesa, mas sim que devem depender das “entidades”.
No entanto, onde estavam essas entidades quando a polícia prendeu os estudantes no estacionamento da história? Onde estavam elas quando foi realizada as ocupações e a greve? Elas estiveram invariavelmente contra todos os movimentos realizados pelos estudantes nos últimos anos. Ficar a reboque delas é matar qualquer possibilidade de defesa dos 72 e de mobilização estudantil.
O movimento de luta contra os processo – e, aqui, estamos nos referindo ao movimento real, não aos que apenas em palavras dizem apoiar o movimento, mas o boicotam e sabotam na prática –  precisa se organizar, em primeiro lugar com aqueles que efetivamente querem levar esta luta adiante e lançar a campanha. Esta é a única forma de conseguir aliados e apoiadores para esta reivindicação

Natália Pimenta
Estudante de Letras e militante do PCO