Editorial – Vivemos uma ditadura na universidade?

Na Física, durante a ocupação da reitoria em 2007, um grupo de professores ficou famoso por ter declarado que “a USP não é uma democracia”.
Mais do que constatar um fato, os “generais da Física”, como ficaram conhecidos, defendiam que a situação devia permanecer assim e que nem estudantes, nem nenhum outro setor excluído das decisões deveria contestar isso.
No entanto, mais do que os “generais da Física”, as pessoas que mais contribuiram para tornar esse fato evidente foram o ex-governador do Estado de São Paulo, José Serra, e o reitor-interventor da USP, João Grandino Rodas.
José Serra passou por cima das eleições internas realizadas dentro da universidade para escolher o segundo colocado, João Grandino Rodas. Vale lembrar que quem vota para reitor na USP é um punhado de professores titulares, em grande parte diretores de faculdades que são escolhidos pelos reitores, que por sua vez são escolhidos pelo governador. Ou seja, Serra passou por cima das pessoas que o próprio PSDB tratou de colocar na direção da universidade, em quase 20 anos no governo do Estado.
Esse fato revela uma crise evidente, mas revela claramente a ficção que é a ultra restrita democracia que supostamente existiria na USP. O Conselho Universitário na realidade não manda nada. O PSDB colocou seu cupinchas na direção da universidade para que eles façam uma simulação de processo democrático, mas quando esse processo contraria a vontade do governador, ele não hesita em ignorar qualquer decisão e escolher seu candidato preferido.
Talvez isso não bastasse para caracterizar uma ditadura, poderiam dizer alguns, já que a universidade não necessariamente precisaria ter um governo democrático, com representantes eleitos etc.
Não é verdade, pois esse fato mostra que não há nenhuma autonomia na universidade, como prevê a própria constituição, mas que ela, ao contrário, está totalmente subordinada ao governador, ou seja, sob a ditadura quase unipessoal do governador.
Mas isso não é tudo. O interventor do PSDB na USP decidiu sitiar o campus, intimidar a comunidade universitária com abordagens constantes e, pior, impedir pela força a luta dos estudantes e funcionários para mudar o status quo dentro da universidade. Esse fato mostra inequivocamente que o regime na universidade é semelhante ao de uma ditadura.
É fundamental compreender que a Universidade de São Paulo é uma instituição pública, financiada com o dinheiro de impostos que toda a população paga. Como instituição estatal, a universidade deveria ser acessível a todos e não apenas a um punhado de pessoas. Deveria, sobretudo, ser gerida e ter sua produção voltada para os interesses da população de um modo geral, ou seja, do desenvolvimento do País e não para os interesses de algumas empresas e bancos. Dessa maneira, deveria ser essa população a responsável pelas decisões dentro da universidade, assim como ela deveria ter poder sobre todos os serviços a ela prestados.
Na universidade, quem representa o povo são os três setores que a compõem, mas especialmente os estudantes, setor menos ligado ao Estado e cujo único interesse está na melhoria do ensino. Por isso, um governo da universidade formado por uma maioria de estudantes, que são também a maioria dentro da universidade, é a única forma de garantir a autonomia da mesma e um ensino e uma produção de conhecimento voltados para a população.