Os estudantes precisam se libertar da camisa-de-força do Psol e PSTU para lutar contra Rodas, a PM e os processos

A assembleia realizada dia 14 de março mostrou que a atual gestão do DCE é um entrave para o desenvolvimento da luta do movimento estudantil

A denúncia do Ministério Público contra os 72 que foram detidos na desocupação da reitoria em 2011 começou a levantar novamente o movimento estudantil na USP.
Na Calourada desse ano o DCE (Diretório Central dos Estudantes) dirigido pelo Psol e pelo PSTU lutaram para que a questão dos processos não fosse colocada, mas a iniciativa dos prórios processados de convocar um debate público ao lado do Bandejão pressionou o DCE a improvisar um ato. Este, supostamente em defesa dos processados, não passou na realidade de um palanque para parlamentares e  burocratas estudantis e sindicais ligados aos partidos que dirigem o DCE.
Os processados se colocaram em movimento e exigiram uma assembleia, que foi realizada efetivamente no dia 14, quinta-feira.
Cerca de 500 pessoas compareceram para deliberar sobre a resposta dos estudantes diante do ataque, mas praticamente não conseguiram, diante do boicote do DCE.

Como são as assembleias feitas pelo Psol/PSTU

As assembleias da USP foram transformadas em uma verdadeira farsa pelo Psol, em especial pela corrente que está atualmente no DCE, o MES (Movimento de Esquerda Socialista), da deputada Luciana Genro.
Diante do fato de que os estudantes ultrapassaram o controle da direção burocrática do DCE na ocupação da reitoria em 2007 e que a partir de então um bloco de oposição foi se formando e começou a disputar a direção do movimento real.
A saída do DCE foi tentar inutilizar a assembleia como instrumento dos estudantes. O primeiro passo foi acabar com qualquer possibilidade de debate livre. A tática é inchar a lista de inscrições para forçar um corte nas falas.
Para se ter uma ideia, nessa assembleia mais de 100, das 500 pessoas presentes, se inscreveram, ou seja, mais de 20%. Em uma assembleia como a que aconteceu em 2009 logo após o confronto com a PM, no calor dos acontecimentos, em que estavam presentes mais de 3.000 estudantes, apenas 45 pessoas se inscreveram, ou seja, menos de 2%!
Depois de inchar a lista, eles propõem um corte e dessa maneira controlam totalmente as falas. A maioria esmagadora vai para o DCE, enquanto uma ou outra ficam para as demais organizações. Os estudantes sem partido ficam totalmente de fora.
Isso serve para eles martelarem na cabeça dos presentes, criando a ideia de que suas propostas são as de senso comum.
Depois de mais de uma hora de discursos demagógicos e enfadonhos, passam à aprovação das propostas. Nessas assembleias, as propostas nunca são votadas até o fim. Esse é outro espaço para manipulação, pois eles escolhem cuidadosamente quais as propostas que serão colocadas em votação e quais não serão.

Para mobilizar, os estudantes precisam ter voz nas assembleias

Uma das primeiras medidas tomadas pela oposição foi a tentativa de mudar esse sistema. Eu propus que a assembleia começasse diretamente pelas propostas. Que o debate se desse em torno delas e elas fossem votadas, uma vez que a assembleia é principalmente uma maneira de os estudantes decidirem os rumos do movimento, discutindo para tomar ações práticas e não como um fim em si mesmo.
A proposta foi considerada derrotada pela mesa, por contraste. No entanto, essa, como muitas outras votações em que o contraste foi considerado pela mesa como sendo favorável ao DCE, embora não fosse claro, ficariam seriamente questionadas posteriormente, quando se constatou que uma proposta considerada ganha por eles havia sido, na realidade, derrotada através da contagem dos votos.
Essa assembleia não foi diferente. As propostas votadas foram apenas os eixos do movimento. os principais: Contra os processos e contra o PIMESP.
A votação foi duplamente manobrada. Primeiro porque havia um setor que defendia que não houvesse apenas um ou dois eixos principais e sim vários. Isso sequer foi colocado em votação. Em segundo lugar, porque a proposta de que o PIMESP estivesse entre os eixos principais passou pelo mesmo método de contraste.
Em relação ao PIMESP, a assembleia novamente se dividiu. Embora todos fossem contra o PIMESP e defendessem a reivindicação de cotas do movimento negro, um setor propôs que a reivindicação de fim do vestibular, única solução verdadeira para o povo negro e os trabalhadores, fosse inserida também, mas Psol e PSTU se opuseram sem explicar sequer porque se opunham. Essa votação também o DCE ganhou por “contraste”.
Embora houvesse diversas propostas de eixo, o DCE no controle da mesa decidiu suprimir todas elas e votar apenas a que lhes interessava, a de “diretas para reitor”. Os eixos de “Fora Rodas” e “Fora PM”, já tradicionais do movimento foram cuidadosamente excluídas da votação.
Essa votação revelou a farsa dos contrastes. Por duas vezes os estudantes levantaram a mão e o DCE afirmava que sua proposta havia sido aprovada por contraste. Os estudantes se recusaram a aceitar. Foi proposto então o plenário se dividir fisicamente em duas metades para ficar visualmente mais claro. Embora os que votavam contra esse eixo fossem visivelmente maioria, o DCE também não quis aceitar sua derrota. Foi feita então a contagem de votos e revelou-se que a proposta do Psol e PSTU havia sido derrotada.

O movimento precisa se libertar da camisa-de-força da atual direção do DCE

Essa votação colocou em xeque todas as decisões da assembleia votadas na mesma situação, pois ficou claro que não havia de fato contraste e a recusa da mesa em realizar a contagem dos votos foi uma maneira de impor uma decisão que era contrária à vontade da maioria dos estudantes presentes e que só interessava de fato ao DCE.
Por meio de todas essas manobras e de um controle rígido da mesa, que impede que qualquer pessoa que se oponha ao DCE tenha suas propostas encaminhadas e mesmo que ela possa fazer questões de ordem etc., a vontade dos estudantes não pode ser expressa pela assembleia.
Após a votação dos eixos foi deliberado por um ato. Mais uma vez o DCE se recusa a tomar uma ação mais ofensiva contra os processos, contra a reitoria e o governo. Não estamos aqui falando de realizar uma greve ou ocupação, mas apenas da proposta de realizar uma passeata na Avenida Paulista, coração da cidade, local onde uma passeata certamente teria maior repercussão.
Em lugar da passeata propuseram um ato parado. Em lugar da Paulista, propuseram o Tribunal de Justiça, na Praça da Sé. Uma proposta tímida que é evidentemente uma resposta à pressão do movimento e uma tentativa de contê-lo ao máximo.
A tarefa é organizar os estudantes de forma independente do DCE. A unidade na luta deve ser feita sobre bases concretas. Do contrário, é apenas um atrelamento do movimento ao DCE, o que significaria o fim do mesmo e o sufocamento a luta contra Rodas e a PM dentro da USP.
Natália Pimenta
Estudante de Letras
e militante do PCO