A CRUSPIANA

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Canteiro de obras do CRUSP 1963.

1a. Parte

“Menina arruinada dos olhos” dos arquitetos Eduardo Augusto Knesse de Mello (1906 – 1994), Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira, o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), construído entre 1961 e 1963, na Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira, bairro Butantã-SP, a priori foi um projeto ambíguo que, antes de prestigiar a acomodação dos discentes da referida instituição, flertou com o evento dos Jogos Pan-Americanos de 1963, hospedando, portanto, os atletas e suas delegações; o que, deveras, injeta dúvida a respeito da finalidade da obra, isto é, se é o CRUSP um espólio reciclado aninhando estudantes em um empreendimento descartável de festividades internacionais de desporto, ou de fato teve sua planta feita e pensada para corpo estudantil. Segundo o protagonista da lida, Eduardo Knesse, concebia-se de início que fossem feitos seis blocos de prédios à luz da técnica de pré-fabricação e à luz do pensamento vitruviano: “utilitas, venustas, firmitas” (utilidade, beleza e solidez). A “utilitas”, aos olhos do arquiteto, é o conforto: solução arquitetônica imprescindível à habitação, uma vez que a arquitetura deve onerar o homem aos acessos que respeitem a sua liberdade, tanto que, no projeto inicial do CRUSP, quis seu criador que os prédios fossem dispostos de forma paralela e espaçados entre si, não por qualquer atitude perversa que tivesse o objetivo de isolar o convívio entre os residentes do conjunto habitacional, pelo contrário, os espaços entre um prédio e outro seriam preenchidos por “monumentos de lazer”, ou melhor, construções como quadras poliesportivas, quiosques com churrasqueiras, piscinas e etc., que teriam somente o propósito de intencionar o convívio coletivo entre os “cruspianos”, mesmo tendo a reitoria, na década de 70, e para a ruina da “menina dos olhos” de Eduardo Knesse, construído nos espaçamentos entre os prédios o que hoje é conhecido como Conjunto Colmeia e que para o arquiteto é conhecido como “trecos horrorosos e coisas sem finalidade alguma”, que trouxe utilidade para uns e desconforto para outros, uma vez que abriga departamentos vinculados à reitoria e não, de toda forma, o espaço para lazer perquirido; Em “venustas” está a solução prática da habitação CRUSP, isto é, quando se pensa no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo nota-se que sua beleza não é algo como obras com sinuosas curvas à moda de Oscar Niemeyer, o inverso disso, a beleza estética está na composição prática entre “utilitas” e “firmitas”, a amoldar um conjunto de estruturas que abriguem dignamente dois mil moradores; E em “firmitas” está a sólida construção feita aos arroubos técnicos a que melhor merece uma obra.

Assim sendo, e retomando, intentou Eduardo Knesse, em sua obra inicial, acomodar no Projeto CRUSP, juntamente com as novas técnicas inglesas de pré-fabricação, a filosofia emprestada do arquiteto e engenheiro romano Marcos Vitrúvio Polião. Esta modalidade foi por ele apreendida nos idos em que trabalhou na empresa UNI-SECO, como aponta Roberto Alves de Lima Montenegro Filho, em sua dissertação de mestrado “Pré-fabricação e a obra de Knesse de Mello”, 2007. Segundo ele, “Kneese de Mello atuou na pioneira empresa Uni-seco, influenciada pela técnica de pré-fabricação inglesa, entre 1951 e 1955. Inicialmente como arquiteto colaborador, desenvolvendo os sistemas construtivos e, posteriormente, como sócio empresário. A experiência adquirida neste período contribuiu com o processo de racionalização de todo o conjunto da edificação do CRUSP.” Tal empreitada, como revela Montenegro Filho, gera custos reduzidos e melhor viabilidade para obra, seguida de rigidez e mobilidade. O agrado da técnica não só atrai os olhos de muitos empreendedores da construção civil como também catalisa a viabilização de obras, como foi o caso do CRUSP para Paulo Camargo, presidente da FUNDUSP (Fundo Construção Universidade SP) e mentor do alongamento do projeto. A melhor dizer, o projeto de início, como acima foi dito, concebia apenas seis prédios que, juntos, cobiçavam um custo de **** (valor não encontrado), cujo qual serviria perfeitamente para a “firmitas”, pleiteada por Knesse de Mello. Todavia, vendo a possibilidade de explorar a inovadora técnica da pré-fabricação importada pelo arquiteto acima citado, Paulo Camargo, não só aceitou o projeto, como obstinou a construção de mais seis prédios fora aqueles, dando ao todo mais de duas mil moradias. Bem haja ou mal haja em suas intenções, há de, por lógica simples, se supor que dobrar um projeto e não sua verba resultaria isso em diluir e fragilizar a integridade dos produtos e, por conseguinte, a tão buscada “firmitas” de Knesse, visto que se gastaria, por exemplo, o valor que fosse empregado em cem vigas, em duzentas, havendo assim uma diluição do material e de sua integridade. Contudo, o projeto foi aprovado.

Mesmo estando Eduardo Knesse de Mello ciente que, já na prancheta, o projeto possuía riscos estruturais – os quais advieram do pedido de Paulo Camargo –, em 1961 deu-se início o projeto, mesmo este enfrentando problemas mais graves: obstou à obra o embaraço de não se haver galpões para a manufaturação das peças que comporiam a estrutura dos prédios. Na ciência da pré-fabricação, como mesmo aponta Eduardo Knesse no vídeo documentário “ARQUITETO”, da produtora Videovideo, é preciso que haja galpões que isolem os materiais das intemperes climáticas e que possuam técnicos-inspetores a analisar diariamente a evolução do preparo do material e sua integridade; ou seja, não havendo isso, há uma falta de qualidade da “solidez” da peça em questão.

Em mesmo documentário, Knesse de Mello relata como foi o canteiro de obras do CRUSP, segundo ele, todas as estruturas foram construídas a céu aberto – sofrendo com o tempo e com o clima – em uma espécie de “improviso laboratorial”, a que ele chamou de “experiência”. A técnica era de pré-fabricação, mas o canteiro era como qualquer outro convencional, relata o arquiteto.

O zelo de Eduardo knesse e seu pensamento vitruviano podem ser questionados segundo ao modo como se sucederam e cingiram as intenções da Universidade de São Paulo à obra, isto é, as reais motivações na feitura ou idealização do CRUSP, por parte da reitoria, são levados em questão, dada a forma como foi intencionada, uma vez que, findadas as obras, os prédios acabados foram inaugurados por atletas do Pan-americano de 63 – como de início foi dito – e fechados em seguida até o ano seguinte, quando doze estudantes, ao lado de Rafael Kauan ocuparam o quinto e o sexto andar do Bloco A, dando início ao projeto de reinvindicação do CRUSP, que resultou, em 1968, no IPM-CRUSP, orquestrado por ninguém menos que o Luís Antônio da Gama e Silva, reitor da USP entre o ano de 1963 e 1969, o qual em sua biografia consta participação no CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e seu brioso trabalho como redator do Ato Institucional 5 (AI-5), de 1968.   

 

Ramote

Continua na próxima edição…