Entrevista com o Tucano (… o DCE tem uma função primordial em nossos planos)

Um dia desses, pela floresta da Insanidade, tive a oportunidade de ouvir o longo relato de um Tucano, velho conhecido, desses de bico enorme, que me explicou muitas coisas do plano de governo e de sociedade, que é sempre debatido na cúpula partidária. Depois de falar livremente sobre o “merecimento” no plano de carreira do funcionalismo, que consiste em um chicote molhado com açúcar, disse brincando, ele perorou sobre a necessidade de se reduzir o Estado ao mínimo do mínimo, e então passou a me falar do plano do Partido em relação ao movimento estudantil.

–  Mas que importância os estudantes têm – indaguei – diante de tão nobres planos do Partido?

– Ora, isso é muito elementar… As pessoas envelhecem e sempre precisamos renovar nossa base de apoio. Na Democracia, não basta ter os juízes e a imprensa na mão, nem controlar o pleito pelo dinheiro: precisamos de eleitores, e eles é que asseguram a legitimidade de nossas medidas de contenção dos ânimos do povo. Os jovens eleitores são, em número expressivo, estudantes, mas eles…

– Não simpatizam com as medidas mais violentas!

– Não, não é bem isso… Acontece que os estudantes ainda não conhecem bem a lei da vida, de que uns mandam e outros obedecem, de que há trabalhadores e empregadores, que todas as pessoas têm um preço, e que não podemos aceitar que invadam os nossos imóveis…

– Desocupados?!

– Você está caçoando! Estou falando da propriedade privada, assegurada pela lei! Enfim, os estudantes são muito sensíveis a tropas de choque, balas de borracha e cães, talvez pela hombridade que foi perdida ao longo dos anos…

– Isso parece o Feliciano falando!

– Ora, até a POLI tem curso de Bíblia!

– Essa eu não engulo! Vá lá que eles não têm muita ideia de mundo, salvo a que passa por uma garrafa de… bem, ao menos crentes eles não são!

– Não vou discutir sobre isso! É ver e ver!

Ele prosseguiu, com o mesmo ânimo:

– Para nós, tucanos, pouco importa se o DCE da USP é controlado pelo PSTU ou pelo PSOL, PT ou outro qualquer, contanto que realmente CONTROLE os ânimos dos estudantes, de modo que eles pensem que estão se envolvendo em grandes questões políticas ou humanitárias, ou com a dignidade da mulher…

– Ah, de fato – interrompi – eles sempre falam da dignidade da mulher e do negro, e têm até um grupo de mulheres que irrompe do nada, cantando musiquinhas como “Nós somos mulheres, e…”

– Claro, claro… Mas tanto eles como nós, tucanos, sabemos muito bem que só os negros morrem, nos enfrentamentos com a polícia, e as mulheres pobres é que são vitimas da violência!

– Isso é discurso comunista, Sr.!

(ele fingiu que me dava um tiro na testa, mas sempre de bom humor)

– Mas não percamos o essencial disso tudo: o DCE tem uma função primordial em nossos planos: além de controlar os estudantes, faz com que eles pensem que são revolucionários, idealistas… defesa de mulheres, negros, palestinos… só coisas fantasmagóricas, até que um belo dia esses jovens crescem e percebem que, se quiserem ganhar dinheiro, terão que defender nossas ideias, e então deixarão os seus partidos de “esquerda”!

– Não é possível, agora o Sr. é que está caçoando!

– Repito: a função que idealizamos para os estudantes é justamente essa que vem sendo cumprida na USP: PS-tu, PiSol e DCE desempenham a tarefa de MEDIAR ou AMACIAR a mente dos jovens ainda ineptos ou inaptos para assumirem a lei da vida! Imagine um partido que não tem um vereador sequer e com tantos seguidores na USP! É óbvio que esses estudantes, ainda ingênuos, depois de algum tempo caem na real e seguem o caminho da vida, senão esse partido seria muito forte! Calcule o número de adeptos que eles teriam! Mas o que importa é que eles, enquanto uspianos, estão agem como queremos, cumprindo o papel mediador entre os esquerdistas e os tucanos, e recebem seu quinhão por causa disso! Isso tudo é melhor do que deixar o DCE cair em mãos erradas…

– Estou impressionado! Eu achava que os seguidores do DCE eram sinceros em suas crenças!

– Bem, temos um outro meio de controlar isso. Mas sei muito pouco sobre isso, e mesmo que soubesse mais, não poderia dizer…

Diante de meu olhar pasmo, ele continuou:

– Veja você aquela história da maconha na USP…

– Não foi pela maconha… – questionei com um sorriso irônico.

– Está bem, não vou esconder de você… É óbvio que não gastaríamos milhões com helicópteros, cavalaria, tropa de choque, etc., se fosse por um bando de jovens que quisesse fumar maconha. Nunca usaríamos a mesma técnica de desocupação empregada no Carandiru, evitando a presença de testemunhos e peritos e preparando as provas a nossa favor, se não fosse algo que mexesse no coração de nossos movimentos, digamos, políticos. Acontece que a USP é um lugar muito importante no orçamento estadual, e também um lugar onde podemos, arrã (pigarreou) fazer investimentos e reinvestimentos, contratos com empresas que utilizam os laboratórios, um toma-cá-dá-lá com empreiteiras, e coisas do gênero. Todo mundo tem seu ganha-pão, não é mesmo?

Por Reginaldo Parcianello