Entrevista com o Tucano (2ª parte)

 

 … se não tivermos nenhum inimigo ou uma encarnação do Mal, não poderemos mobilizar as massas a nosso favor

 

Relato abaixo outros pontos da conversa amistosa que tive com um tucano.

– Você parece muito humorado, para um tucano da cúpula – eu provoquei.

– Os esquerdistas pensam que os tucanos são sempre sisudos e moralizadores, quando estão longe das câmaras. Pelo contrário, nós nos divertimos muito, e temos o nosso teatro particular.

– Não estou compreendendo…

– Nós temos os nossos peões, como o Azedinho da Veja, que sempre espuma de raiva! Nós pedimos para ele manifestar sua indignação em relação aos vermelhinhos, como se eles estivessem prestes a dar um golpe, e ele leva tudo ao pé da letra, causando furor até mesmo entre os jornalistas mais… tradicionais!

– Mas por que tanta provocação com chavismo, invocação com Cuba e com países que não têm nenhum poder bélico nem econômico significativo?

– Admiro sua ingenuidade, meu amigo! Veja bem: se não tivermos nenhum inimigo ou uma encarnação do Mal, não poderemos mobilizar as massas a nosso favor. Os shoppings dão conta da mente das pessoas mais endinheiradas, enquanto as outras…

– Mas sem a URSS não existe nenhuma ameaça vermelha!

– Aí é que está! Quando caiu a Cortina de ferro e o muro de Berlim, nós tivemos algum tempo para providenciar outra cortina e outros muros, como o da fronteira com o México e o de Israel. E justamente por não haver nenhuma ameaça verdadeira dos comunistas, nós pudemos criar mil e uma histórias dos males que eles nos causam, sem a preocupação com a sua possível realização!

– Como uma história para assustar as crianças?

– Justamente! E o povo acredita, sem saber que é pura ficção! Mas o que realmente importa é que os trabalhadores se sintam envergonhados em protestar contra os baixos salários. Então, eles mesmos se encarregam de criar um discurso, que se propaga gratuitamente. Por exemplo, que os professores são vagabundos ou os sem-terra são terroristas. Claro que eu acho isso tudo muito útil, não só para o partido, mas principalmente para os meus negócios, e eu tenho também o direito de me divertir com essa comédia!

– Isso tudo me parece contraditório e non sense!

– Aí é que está o bom da história! Quando a ameaça comunista representava um certo perigo para nós, que somos alinhados aos EUA e ao FMI, nem falávamos muito do comunismo, pois acabaríamos revelando como de fato era a vida deles, o que inevitavelmente levaria algumas pessoas a fazerem uma comparação entre diferentes sistemas econômicos.

Embriagado com sua lógica, ele continuou:

– O Villã, no Jornal da Curtura, é outro peão dos bons! Rimos até cair no chão, quando ele responde a uma questão sobre direitos humanos ou educação, lembrando o Presidente Hermes da Fonseca ou Artur Bernardes! E rolamos no chão quando imaginamos os esquerdistas indignados com aquela verborreia e com aquela carinha de amuado do nosso amigo e fiel servidor! Isso tudo compensa, e com vantagem, o fato de ele ser um historiador de araque!

Depois que parou de rir, o tucano me revelou os bastidores do partido sobre o acordo feito com os evangélicos do país.

– Os evangélicos são a base de nosso partido, a partir de agora, e, diante do crescimento do número de fiéis, discutimos em uma assembleia como acolheríamos essa nova força política. Claro que os mais antigos de nosso partido acharam isso um absurdo, mas o sangue novo entendeu que nós somos os Republicanos – como os da América – em nosso país, e acolhemos qualquer tendência política que acredite na livre iniciativa, na propriedade privada acima de tudo e de todos, bem como no Estado como instância que só deve existir para proteger aquilo que nós… amealhamos. Os evangélicos não questionam nada disso, pois estão preocupados é com camisinha, dízimo, homossexuais, e no restante do tempo leem a Bíblia ou trabalham como cordeirinhos, e até dizem que sindicatos e direitos dos trabalhadores são tentações do Demônio. Então, como os respingos do tumulto do Feliciano recaem sobre os governistas – os de Brasília – nós aproveitamos a oportunidade e fechamos um acordo com eles. Os pastores e outros mediadores praticamente induzirão os fiéis a votarem nos candidatos do Bem, nos defensores da Família, etc. Claro que isso supõe, evidentemente, que aceitaremos o discurso deles, essas baboseiras todas de Bíblia, mas pedimos pelo amor de Deus que eles não trouxessem tão a público essas histórias de negros e gays, e assim houve um entendimento recíproco.

– E eles aceitaram?

– De imediato! Acho que foi porque pedimos pelo amor de Deus!

– A Dilma e o PT também vão querer uma fatia desse bolo! – intervim.

– Eles só vão ficar com a casca, pois nós nos antecipamos e conseguimos fazer os pastores baixarem o tom. É a mesma história que lhe contei sobre o DCE da USP: o importante é que o DCE controle os estudantes, não importa o seu discurso; e os pastores podem dizer o que quiserem, mas não podem mais levar a público o ataque aos gays e aos negros. Você vai ver: se a nossa aliança com os evangélicos for bem costurada, os pastores políticos (ou políticos pastores) vão falar só de coisas amenas, de maioridade penal, de mais rigor na lei, e coisas do gênero, que só fazem meus negócios irem de vento em popa, pois ninguém pensa em taxar os meus lucros, como fazem em outros países. Por isso, temos várias linhas de força: a das massas, que passa pelo Azedinho, com o discurso de direita; a do DCE, que usa o discurso de esquerda; a dos evangélicos, que está se fortalecendo…

E o tucano concluiu o assunto, antes de começar a cantar suas verdadeiras piadas:

– Como as coisas mudaram desde que o Covas dizia que iria para o Incor, mas não pararia de fumar, ou o Fernando Henrique, que podia se declarar ateu para a imprensa!  O Nécio Eves, nosso homem forte, não vai poder contar as suas nem das suas (ele sempre diz que gosta de molhar o bico antes e depois de chalrear!), e olha que ele tem bem mais histórias, em BH, no Rio… tudo de deixar Guimarães Rosa na sarjeta.

 

Reginaldo Parcianello