Entrevista com o Tucano (3ª parte)

acabamos acatando a ideia da nossa amiga do Ministério Público, que tem um gato mole na mão, mas tem pulso firme

 

O tucano das Mil e uma noites, que achava que morreria se fechasse o bico, continuou:

– Vou contar sobre um jogo de cena – disse-me o tucano. Houve uma ocasião em que nos reunimos, alguns líderes do partido, juízes, uma promotora com um gato no colo, o reitor e até o governador…

– Você está falando dos 72 presos da USP?

– Sim, eles mesmos. Na ocasião, estávamos decidindo como preservaríamos nosso nobre reitor da acusação de ser linha dura. A princípio, ele não entendia isso, e repetia que queria a expulsão dos terroristas, etc. Ele tem lá os seus problemas, mas no fundo é um bom rapaz! Bem, um dos nossos, que participa ativamente da universidade, o tenente F., que comprou um Civic novinho, apesar de ser militar!, sugeriu que montássemos um joguinho com a vida dos estudantes. Funcionaria assim: daríamos um jeito para expulsarmos uns 30 de uma só vez, e, depois de alguns dias de discussão, reuniões com o Conselho Universitário e debates democráticos, o reitor surgiria das trevas e anunciaria seu pedido de libertação incondicional de todos os acusados!

– Como os condenados à morte que são anistiados pelo rei no último momento?

– Bingo! Ele é xerifão e rei ao mesmo tempo!

– Mas isso acabou não ocorrendo…

– O restante da história é conhecido: para poupar o xerifão, para ele continuar como figura-chave de nossos esquemas, acabamos acatando a ideia da nossa amiga do Ministério Público, que tem um gato mole na mão, mas tem pulso firme e, é claro, o poder de formular qualquer acusação, por estapafúrdia que seja…

– Mas não estou certo se é um grande plano colocar os 72 na cadeia…

– Não é isso o que importa, meu amigo! O que interessa é que os tenhamos nas mãos por alguns anos, de modo que isso sirva de exemplo para os demais estudantes. Antes de moverem um músculo, eles pensarão nas consequências! Quantos anos de discussão sem ação eles vão levar até que inventem outra forma de nos incomodar, heim? Golpe de mestre!

– Claro que essa história vai ter fim.

– Sem dúvida. Na minha opinião, o nosso partido deverá dar um fim à história o quanto antes, pois novas coisas ocorrerão, no mais tardar um ano, quando o porte de drogas for legalizado para os consumidores. Claro que isso significará um golpe numa de nossas maiores fontes de apoio, pois qualquer reles taxista, corretor ou especulador que nos apoia, tem a firme convicção de que as drogas são a raiz do mal no mundo. Aí é que entra a nossa nova base, os evangélicos, como lhe falei anteriormente.

 

Reginaldo Parcianello