A CRUSPIANA

“Menina arruinada dos olhos” dos arquitetos Eduardo Augusto Knesse de Mello (1906 – 1994), Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira, o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), construído entre 1961 e 1963, na Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira, bairro Butantã-SP, a priori foi um projeto ambíguo que, antes de prestigiar a acomodação dos discentes da referida instituição, flertou com o evento dos Jogos Pan-Americanos de 1963, hospedando, portanto, os atletas e suas delegações; o que, deveras, injeta dúvida a respeito da finalidade da obra, isto é, se é o CRUSP um espólio reciclado aninhando estudantes em um empreendimento descartável de festividades internacionais de desporto, ou de fato teve sua planta feita e pensada para corpo estudantil. Segundo o protagonista da lida, Eduardo Knesse, concebia-se de início que fossem feitos seis blocos de prédios à luz da técnica de pré-fabricação e à luz do pensamento vitruviano: “utilitas, venustas, firmitas” (utilidade, beleza e solidez). A “utilitas”, aos olhos do arquiteto, é o conforto: solução arquitetônica imprescindível à habitação, uma vez que a arquitetura deve onerar o homem aos acessos que respeitem a sua liberdade, tanto que, no projeto inicial do CRUSP, quis seu criador que os prédios fossem dispostos de forma paralela e espaçados entre si, não por qualquer atitude perversa que tivesse o objetivo de isolar o convívio entre os residentes do conjunto habitacional, pelo contrário, os espaços entre um prédio e outro seriam preenchidos por “monumentos de lazer”, ou melhor, construções como quadras poliesportivas, quiosques com churrasqueiras, piscinas e etc., que teriam somente o propósito de intencionar o convívio coletivo entre os “cruspianos”, mesmo tendo a reitoria, na década de 70, e para a ruina da “menina dos olhos” de Eduardo Knesse, construído nos espaçamentos entre os prédios o que hoje é conhecido como Conjunto Colmeia e que para o arquiteto é conhecido como “trecos horrorosos e coisas sem finalidade alguma”, que trouxe utilidade para uns e desconforto para outros, uma vez que abriga departamentos vinculados à reitoria e não, de toda forma, o espaço para lazer perquirido; Em “venustas” está a solução prática da habitação CRUSP, isto é, quando se pensa no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo nota-se que sua beleza não é algo como obras com sinuosas curvas à moda de Oscar Niemeyer, o inverso disso, a beleza estética está na composição prática entre “utilitas” e “firmitas”, a amoldar um conjunto de estruturas que abriguem dignamente dois mil moradores; E em “firmitas” está a sólida construção feita aos arroubos técnicos a que melhor merece uma obra.

Assim sendo, e retomando, intentou Eduardo Knesse, em sua obra inicial, acomodar no Projeto CRUSP, juntamente com as novas técnicas inglesas de pré-fabricação, a filosofia emprestada do arquiteto e engenheiro romano Marcos Vitrúvio Polião. Esta modalidade foi por ele apreendida nos idos em que trabalhou na empresa UNI-SECO, como aponta Roberto Alves de Lima Montenegro Filho, em sua dissertação de mestrado “Pré-fabricação e a obra de Knesse de Mello”, 2007. Segundo ele, “Kneese de Mello atuou na pioneira empresa Uni-seco, influenciada pela técnica de pré-fabricação inglesa, entre 1951 e 1955. Inicialmente como arquiteto colaborador, desenvolvendo os sistemas construtivos e, posteriormente, como sócio empresário. A experiência adquirida neste período contribuiu com o processo de racionalização de todo o conjunto da edificação do CRUSP.” Tal empreitada, como revela Montenegro Filho, gera custos reduzidos e melhor viabilidade para obra, seguida de rigidez e mobilidade. O agrado da técnica não só atrai os olhos de muitos empreendedores da construção civil como também catalisa a viabilização de obras, como foi o caso do CRUSP para Paulo Camargo, presidente da FUNDUSP (Fundo Construção Universidade SP) e mentor do alongamento do projeto. A melhor dizer, o projeto de início, como acima foi dito, concebia apenas seis prédios que, juntos, cobiçavam um custo de **** (valor não encontrado), cujo qual serviria perfeitamente para a “firmitas”, pleiteada por Knesse de Mello. Todavia, vendo a possibilidade de explorar a inovadora técnica da pré-fabricação importada pelo arquiteto acima citado, Paulo Camargo, não só aceitou o projeto, como obstinou a construção de mais seis prédios fora aqueles, dando ao todo mais de duas mil moradias. Bem haja ou mal haja em suas intenções, há de, por lógica simples, se supor que dobrar um projeto e não sua verba resultaria isso em diluir e fragilizar a integridade dos produtos e, por conseguinte, a tão buscada “firmitas” de Knesse, visto que se gastaria, por exemplo, o valor que fosse empregado em cem vigas, em duzentas, havendo assim uma diluição do material e de sua integridade. Contudo, o projeto foi aprovado.

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Mesmo estando Eduardo Knesse de Mello ciente que, já na prancheta, o projeto possuía riscos estruturais – os quais advieram do pedido de Paulo Camargo –, em 1961 deu-se início o projeto, mesmo este enfrentando problemas mais graves: obstou à obra o embaraço de não se haver galpões para a manufaturação das peças que comporiam a estrutura dos prédios. Na ciência da pré-fabricação, como mesmo aponta Eduardo Knesse no vídeo documentário “ARQUITETO”, da produtora Videovideo, é preciso que haja galpões que isolem os materiais das intemperes climáticas e que possuam técnicos-inspetores a analisar diariamente a evolução do preparo do material e sua integridade; ou seja, não havendo isso, há uma falta de qualidade da “solidez” da peça em questão.

Em mesmo documentário, Knesse de Mello relata como foi o canteiro de obras do CRUSP, segundo ele, todas as estruturas foramconstruídas a céu aberto – sofrendo com o tempo e com o clima – em uma espécie de “improviso laboratorial”, a que ele chamou de “experiência”. A técnica era de pré-fabricação, mas o canteiro era como qualquer outro convencional, relata o arquiteto.

 

O zelo de Eduardoimagem 22 knesse e seu pensamento vitruviano podem ser questionados segundo ao modo como se sucederam e cingiram as intenções da Universidade de São Paulo à obra, isto é, as reais motivações na feitura ou idealização do CRUSP, por parte da reitoria, são levados em questão, dada a forma como foi intencionada, uma vez que, findadas as obras, os prédios acabados foram inaugurados por atletas do Pan-americano de 63 – como de início foi dito – e fechados em seguida até o ano seguinte, quando doze estudantes, ao lado de Rafael Kauan ocuparam o quinto e o sexto andar do Bloco A,imagem 21 dando início ao projeto de reinvindicação do CRUSP, que resultou, em 1968, no IPM-CRUSP, orquestrado por ninguém menos que o Luís Antônio da Gama e Silva, reitor da USP entre o ano de 1963 e 1969, o qual em sua biografia consta participação no CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e seu brioso trabalho como redator do Ato Institucional 5 (AI-5), de 1968.

A bem da verdade, o IPM-CRUSP (Inquérito Policial Militar do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), “Instaurado pela Portaria n.° 15-SJ do Exmo Sr General Comandante do II Exército, em 18 de DEZEMBRO de 1968, para apurar as atividades políticas subversivas no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.” (fonte: MovE Brasil), demonstra os intentos por parte da reitoria da universidade – e jamais menos por parte do reitor Gama e Silva –, visto que, segundo o próprio documento, “Foram constituídas várias comissões militares do Exército e Fôrça Pública de São Paulo para revistarem tôdas as dependências do CRUSP, interditando aquelas em que fosse encontrado material subversivo e apreendendo imediatamente qualquer arma ou explosivo que fôsse encontrado lavrando-se na ocasião o têrmo respectivo de «Busca e Apreensão».” Além disso, é constatado pelo documento que a comunidade cruspiana “se marginalizou às leis do país constituindo-se em um «ghetto», onde foi destruído totalmente qualquer resquício de princípio de autoridade. Não se sabia quem aí residia.”.

imagem 3Em rubrica do dicionário Houaiss (eletrônico), para Gueto há de se ter as seguintes definições: “na maioria das cidades europeias, bairro onde todo judeu era obrigado a residir; bairro de uma idade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, freq. devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais; todo estilo de vida ou tipo de existência resultante de tratamento discriminativo.”. Há que se pode saber, a partir disto, que se incorporou na universidade, naqueles idos, o que, não por muito esforço, pode-se notar dum discurso de estranheza duvidosa que já, há não muito, em Europa, foi usado antes a fim de servir às praticas perversas de alguns regimes. A parte disto, não havendo tendenciosidade alguma, há às claras implicado no tratamento por Gueto uma postura discriminativa e repelista (com o perdão ao neologismo) do projeto habitacional perquirido por Knesse, como se pode ver ao tratamento que o projeto tomou, isto sendo ao fato de Paulo Camargo duplicar o projeto inicial sem dobrar a verba para fazê-lo sólido e sem riscos futuros, bem como não projetar galpões para a feitura das peças pré-moldadas e, com o fim do pan-americano, fecharem as portas do CRUSP, em 64 – data de golpe militar. Não obstante a apenas isso, a conduta que se revela aos poucos é ainda a conduta que se mantém e se delineia em um opressivo caráter de ocultação e dissolução do empreendimento CRUSP, que, em suma, podemos dizê-lo como sendo apenas monumento desportivo e descartável, pois, em dias de hoje, na Universidade de São Paulo, muito não é diferente daqueles regimes europeus, no que tange os alojamentos do CRUSP e ao modo como os universitários ingressantes são tratados ao requererem suas moradias, bem como ao modo como são submetidos em condições de alojamento precário e ao modo como são alienados pela SAS-COSEAS, ao que diz respeito das informações que lhes são [jamais] entregues, isto é, não se leva em conta, por parte das assistentes sociais, o direito que um estudante tem em ser bem salientado e assistido honestamente por aqueles que detêm o “poder” sobre eles e de qualquer informação que lhes auxilie. Em outras palavras, diferente do que diz o IPM-CRUSP, nos dias de hoje, foi construído totalmente os antigos resquícios de princípio de autoridade.

Segundo pesquisa de campo feita para este jornal (USP LIVRE), efetuada desde o dia 11 de Março, de 2013, com universitários alojados no Bloco E, Bloco C e CEPE-USP, constatou-se por entrevista e averiguou-se o seguinte:

Primeiramente a composição dos alojamentos é a de: no Bloco E, havendo apenas 2 quartos para alojamento, um feminino e outro masculino, há 3 quartos com cada um com duas beliches, tendo a soma de 12 meninos e 12 meninas em cada “apartamento” – fala-se aqui de apartamento porque neste Bloco o alojamento mais se parece com um apartamento, visto que há um corredor que divide os 3 quartos, que são muito pequenos, e 2 banheiros; no Bloco C, havendo 6 quartos para alojamento – que aqui nada se parecem com um apartamento, pelo contrário, lembram apenas um grande salão, ou melhor, porão –, onde 3 são para meninos e 3 para meninas, cada quarto, exceto o Quarto 1 e o Quarto 4, possuem um banheiro interno, os outros, logo, são externos. Cada quarto desse alojamento possui em média 8 camas, dispostas paralelamente uma com a outra e, a preencher todo o quarto, estão, em sua maioria, ocupadas; e no CEPE-USP havendo apenas 5 pequeníssimos quartos para alojamento – não se sabendo por esta reportagem em que modo são divididos por gêneros, pois, devido a quantidade de burocracia e de restrição, não se pode tomar muitas entrevista –, são lá dispostas 8 beliches, num total de em média 11 alunos por quarto, com realce, exageradamente pequenos.

Nestes alojamentos, o aluno em chegada encontrará as seguintes mobílias: Bloco E: Beliches com armário embutido; Bloco C: camas com finos e velhos colchões, muitos com insetos que julgam ser cupins, ventiladores, cortinas, uma mesa, uma cadeira e cômodas por número de camas; CEPE-USP: beliches, ventiladores, armário de ginásio, uma mesa e duas cadeiras.

Afora o patrimônio servido, o seu estado e os relatos dos alunos sobre as condições do lugar, dos objetos e de sua vivência:

Falar-se-á de forma geral neste ponto para que não haja de modo algum forma alguma de se poder identificar os alunos por trás dos comentários e das denúncias, dado que há, ao que se espreita tanto na Universidade de São Paulo, quanto também em seus setores menores, como é o caso da SAS-COSEAS, maneiras inúmeras de se perseguir estudantes intencionados a ver melhorias e mudanças nesta instituição. Assim sendo, já de início se relata, por meio da admitida voz dos estudantes, os problemas de infraestrutura dos alojamentos, colocando em voga a herança vitruviana deixada à universidade por Eduardo Knesse, ao que se refere em solidez, beleza e conforto (utilidade). Deste modo, averígua-se a má excelência do alojamento quando se olha diretamente, com pouco custo, aos móveis emprestados aos estudantes, pois se percebe todos ou quase todos corroídos por cupins, com cômodas quebradas em suas gavetas, com mofos e, em alguns casos, pouco utilizáveis, visto que de quatro gavetas restam duas; há, também, cômodas que estão queimadas em sua superfície, ao que se pode supor que foi colocado sobre ela panelas quentes o suficiente para tostar a madeira; batentes de portas trincados e em péssimas condições para seu uso; trincos e maçanetas quebrados e quase sem utilidade de segurança; tomadas defeituosas sem contato algum com o sistema de energia; ventiladores quebrados ou ruins para o uso, consertados “na gambiarra”, dado que se pode notar o uso de fitas isolantes e fios desencapados; teto expelindo “curiosa gosma preta que surgiu uma outra vez pela rachadura do teto”; banheiro com chuveiro queimado – que mais tarde, havendo a falta de manutenção e de atendimento da zeladoria, os próprios estudantes vieram a consertá-los, custando-lhes não só o serviço como a peça substitutiva –; privada sem assento e privadas que “fantasmagoricamente, ao apertar a válvula de descarga, expele gosma amarela fétida e nojenta por todo o banheiro até o ralo do chão”; paredes imundas e com vários rabiscos de ex-alunos – o que evidência falta de manutenção e pintura –; encanamento de esgoto do prédio exposto nos quartos dos alojamentos do Bloco C; e, no caso do CEPE-USP, corredores e alojamento com goteiras e enlameados, dado que o caminho/trilha é terra e apenas.

imagem 4A mais dizer, na chegada dos primeiros calouros ao alojamento pôde por eles ser encontrada uma situação calamitosa de abandono de lugar. Notou-se que havia poeira em muitas mobílias, excremento de baratas em “suas” gavetas, teias de aranhas e afins.  Não só isso, mas, também, defeitos com as instalações elétricas e encanamento. A funcionalidade das privadas, em alguns quartos era – e ainda é – de péssima a inutilizável, bem como lâmpadas queimadas e tomadas sem pontos de energia. Vazamentos, infiltrações e goteiras são apercebidos constantemente pelos estudantes ao longo de sua estadia. Há colchões em estado de péssima conservação: muitos estão finos, mofados e apresento exaustão por conta do tempo de uso. Muitos dos problemas funcionais foram resolvidos por conta dos próprios calouros, que, não havendo qualquer material de limpeza disponibilizado a eles e não obtendo resposta da zeladoria com suas reclamações, tiveram que se munir contra a sujeira investido suas economias – as quais servem apenas para compra de material de leitura e para o jantar de final de semana, uma vez sabendo-se que o bandejão não abre nesses dias à noite – para comprar vassouras, pás para recolher lixo, desinfetante, inseticida, etc.. Contudo, riscando o fato de terem de comprar o material, fica sabido aqui que muitas são as vezes que os estudantes têm que emprestar seus materiais a outros calouros menos afortunados financeiramente, pois o problema de modo algum é isolado.

imagem 5Adiante, a falta de limpeza não deixou de ser apenas presente de boas vindas da SAS-COSEAS, por outro lado deste, há o serviço de limpeza efetuado por funcionários terceirizados que, semanalmente, “limpam” (aspas aqui por conta dos entrevistados) no turno da manhã, cerca de 09h30, os alojamentos, salvo a intercalação do dia, isto para atender todos os alojamentos, ou seja, quinta-feira limpa-se o Bloco-C, sexta-feira outro e por aí em seguida. Nesta operação faxina, pede-se a todos os estudantes, ou pode ser entendido que se obriga a todos os estudantes alojados que se retirem do recinto o mais rápido possível, pois o tempo para a limpeza urge! Nesta feita, os alunos têm que deixar a chave de seu quarto (é de apenas uma por quarto) na recepção uma hora antes do horário da limpeza e, após isso, estão, todos entregues aos espaços da universidade, e temporariamente desabrigados, ficam a esmos pelos cantos, seja com suas leituras, seja com seu ócio requisitado pela SAS. Entretanto, fosse isso algum bem em suma, acusam os alojados a falta de veracidade da limpeza. “Quantas não foram as vezes que entramos no alojamento após a limpeza e vimos que tudo foi limpo de forma barata” diz um dos estudantes. Neste acaso, a melhor dizer, não corriqueiras vezes se encontrou o chão molhado e não limpo e embaixo das camas intacto nas sujeiras, sem se quer fossem tirados os objetos dos estudantes que ficam por lá. Aliás, tomou-se como via de regras, por parte dos alojados, devida a consequente ocorrência, que seria preciso que fossem tirados os objetos que ficam embaixo da cama para que fosse limpo o chão, contudo não é sempre que se pode dizer que é limpo aquele canto do quarto. É mais um efeito de boa fé por parte das “tias da limpeza” (maneira com que são chamadas as trabalhadoras pelos alunos) a limpeza do que um ofício prendado e contratado. Afora isso tudo, inda se denuncia o uso, por parte das “tias”, do material de limpeza dos próprios estudantes. “Ora, se já não bastasse não termos ajuda alguma com o custo de compra dos materiais, ainda as ‘tias’ pegam-nos de nós e usam-nos de forma a desperdiçá-los, já que nem limpam direito o quarto com nossos materiais; antes limpassem e eu nem reclamaria”, indigna-se um estudante. Para a opinião de um dos alojados, nem se deveria ter tal mecanismos – digamos um tanto maternal ou então demasiadamente burguês – de limpeza do alojamento, uma vez que, já todos os hospedados adultos sendo, não seria nada que não lhes fossem de suas obrigações cuidar da limpeza e da manutenção desta em seus quartos, porém, desde que estivesse o alojamento, já há muito antes, limpo para a recepção dos calouros. Para este estudante, este mimo por parte da SAS-COSEAS serve apenas para ausenta-la dos deveres de reforma estrutural e a servir apenas como medida paliativa que não corrobora qualquer vontade para melhorar os espaços do CRUSP.

imagem 61Outro ponto relevante a que apontam, colocando novamente o enfoque aos gastos que os calouros têm de forma desnecessária, há a falta de distribuição de papéis higiênicos nos alojamentos. Em total maioria, os estudantes relatam com certa indignação a ausência de papel higiênico, pois, em média geral, são mais de 6 pessoas por quarto que, humanos que são, necessitam de usar alguns metros por mês de papel higiênico e, não o havendo, resta, portanto, a seus bolsos imagem 62custear a limpeza. Ora, há, por parte da SAS-COSEAS, o grande interesse em se limpar tudo e não manutenir nada; para a lógica do papel higiênico se vê o oposto, conquanto que, se tomado o auxílio alimentação a manutenção do estudante, seja então suas forças ao labor diário, a falta de papel higiênico se esquiva à limpeza; em outras palavras, ao que melhor parece, a SAS-COSEAS interessa-se em falsear a índole de boa anfitriã e, em seu fundo, em suas atitudes mais sutis, demonstra o seu caráter verdadeiro, que é a desobrigação para com o corpo estudantil – que não de longe é, ao que se intenta pensar, o pensamento de vários departamentos da universidade (ao todo, ela mesma).

Há inda estudantes contentes que dizem estar tudo maravilhosamente bem, tudo está absurdamente bem como deveria estar, “vivemos nos melhores dos mundos”. Para esses, o espaço fornecido pela SAS-COSEAS é de absurdo agrado, conquanto que, não se havendo este tipo de serviço, notoriamente todos estariam às margens da rua e, ou, sem faculdade. Porém isolado essa ideia a um pequeno grupo de alojados, risca a grande maioria o adendo de que, grosso modo, a Universidade de São Paulo, briosa em seu status, é infeliz por ter mecanismos tão marginais que tratam estudantes a um modo tão deplorável de se viver. Um dos estudantes que acerca esse pensamento diz que “as instalações do alojamento são muito básicas, é algo que não se espera vir de uma das maiores e melhores faculdades do Brasil”. Estes creem, não muito diferente que os outros que defendem o modo como é gerida a gestão COSEAS, que é estupendo o fato de se haver abrigos aos estudantes que migram de suas terras natais, contudo, há ressalvas quanto ao modo em que são recebidos e ao estado do local onde se apascentam.

Denominador comum entre os lados, a bifurcação entre os pontos de vistas sobre as instalações da USP para os calouros se unificam em um ponto majoritariamente impar, que é a assistência da COSEAS, isto é, a forma ou o modo em que os estudantes são tratados pelas assistentes sociais em épocas de pré-seleção. Pois, muitas denúncias – não só sendo de agora, mas de tempos outros – se enveredam à SAS-COSEAS no que diz respeito à ocultação de informação ao ingressante.  O protocolo burocrático da referida instituição, além de obscura, torna inda mais nebuloso em prática, dado que quando, segundo mesmo os relatos perquiridos nas entrevistas, o universitário se apresenta aos benefícios de que tem direito, o tratamento das assistentes, variavelmente péssimo a razoável, provoca desorientação a eles. Muitos relatos acumulam denúncias de que as assistentes sociais não salientam os estudantes de que possuem, dada o auxílio emergencial, a bolsa alimentação, que consiste em café da manhã, almoço e jantar. Dezenas de estudantes, em suas primeiras semanas, compraram seu próprio alimento e o cozinhou. Inda houve quem encontrou refúgio comendo alimentos pouco nutritivos, como salgados, bolachas ou macarrão instantâneo. Outros inda indicaram que não foram informados sobre como funciona o PAPEF, ou inda as outras bolsas que poderiam concorrer, sendo a bolsa livro, ou até mesmo a bolsa Santander. Nem mesmo o Aprender com Cultura e Extensão foi lhes dito. Não houve em suma uma orientação minuciosa sobre seus direitos e como consegui-los, sendo o que ficou do atendimento, para muitos, foi apenas a incompreensível esperança de ter começado a guinar o caminho para conquistar a tão sonhada permanência estudantil. Tal caminho é tão árduo que entre os alunos se cunhou expressões como “a FUVEST é fácil perto da seleção da COSEAS”. Entende com isso os estudantes, isto é, não só entendem como reconhecem ao dizerem aquilo que, de fato, há arregimentado na conduta da USP o segregacionismo: burocratização demasiadamente fatídica e, por assim dizer, tosca. Aliás, quando se fala de burocratização, ferrenha é a atitude da corporação COSEAS em seus métodos, visto que em um caso houve que uma assistente mostrou no computador, via Google Maps, a casa de um aluno ingressante a fim de lhe mostrar, de forma retórica, a estética frontal de sua casa, a isto servir de argumento para que ele não pudesse requerer seus direitos como estudante, uma vez que, na suposta lógica da COSEAS, “casa bonita, aluno sem necessidades”. Há, inda, mais casos como assistente social ir à casa de vários alunos com a finalidade de averiguar a veracidade de sua situação, apontam estudantes. Para eles, que sofreram, o que dizem ser um abuso, é esta conduta um excesso, pois, não obstante o indivíduo ter que expor – de forma humilhante – sua vida e os problemas a ela inerente, a SAS-COSEAS inda perquire presencialmente os fatos. Em análise feita pelos próprios entrevistados, atitude tacanha como essa demonstra a segregação e a barreira monumental que a USP implica aos direitos dos estudantes. Ora, em breve parêntese, ao longo dessas denuncias, ressalta-se o afastamento por parte da reitoria do ideal do projetista do CRUSP, senhor Eduardo Knesse. Conforto algum há nessas atitudes, e o que se nota é o apagamento do CRUSP do ideal da universidade, muito embora, como visto no começo desse artigo, não se pode dizer que algum dia se assim teve. A fim de exemplo que pode ser dado, o estudante, ou qualquer quem for, se entrar no site da universidade notará a falta de apologia à habitação universitário, assim como, nas planilhas financeiras, pouco, ou nada, se haverá de incentivo fiscal que idealize a construção de mais prédios ou coisa parecida. Na suma deste ponto, a Universidade de São Paulo parece, sutilmente, perpetrar um projeto de varredura do CRUSP e qualquer ideia semelhante. Não é, ou seja, de sua pretensão, a que se nota, residir estudantes dentro de seus muros; daí se pode, quiçá, desdobrar o porque de fato não há reformas contundentes dos prédios, isto é, reformas estruturais que só prestaram para mantê-lo em pé e funcionais, saudáveis e íntegros… sólidos.

Fechando o parêntese e retomando o ponto, indignados os estudantes ainda ressaltam que muitas das informações, senão todas, a que têm direito foram apreendidas pelo método da vivência cruspiana, ou seja, “o boca a boca”. Veteranos acabam sendo responsáveis por salientar os estudantes sobre todos os causos de seus direitos. Mas, e a AMOR-CRUSP?, o leitor espera saber e pergunta agora. A que se informou esta reportagem, a AMOR-CRUSP fica estreita a apenas mera paquera com os estudantes, uma vez que, desde a chegada dos calouros apenas se comprometeu em reuni-los em um jantar, feito nas primeiras semanas de aula. A melhor salientar o leitor, este projeto veio da gestão Unidade Cruspiana, em 2011, onde fica a AMOR-CRUSP incumbida de ajudar os estudantes na lida dos jantares de final de semana de seu primeiro mês. Para o primeiro jantar a própria associação (gestão de 2012) pagou o alimento, contudo, nos demais, incentivou. No entanto, a atual gestão do CRUSP, CRUSP POPULAR, apenas conduziu um único jantar a, o que parece, desencargo de consciência, e nunca mais voltou. Não houve reuniões com os calouros alojados para lhes salientar seus benefícios e muito mesmo assisti-los até sua emancipação no CRUSP. Entretanto, não dando a atual gestão da AMOR-CRUSP qualquer injustiça, há os estudantes que flertam com sua paquera. Estes dizem que foram assistidos e são muito bem representados por esta. Houve casos que a associação prestou serviço direto com o COSEAS dialogando em favor do estudante.

A finalizar e a rematar os pontos, nota-se neste artigo, e após muitos documentos e ensaios lidos, como, por exemplo, da Renata Santiago Ramos, arquiteta e urbanista da UFRGS, em seu artigo “Alojamento Universitário Como Lugar No Campus, Caso CRUSP”, de 2010 – artigo vinculado ao simpósio “A Arquitetura do Lugar: Variações nos Lugares da Pluralidade”, que o Projeto Crusp, em sua concepção foi um marco não só individual ao arquiteto Eduardo Knesse, ou a tecnologia de pré-fabricação no Brasil, mas também ao movimento estudantil e a todo o corpo dissente de todas as faculdades ou universidades do país, visto que inaugurou o pensamento sobre a causa da vivencia e residência estudantil. Contudo, e jamais apenas isso, delineou o fulcro da problemática ideológica por parte da reitoria e seus representantes, os reitores; isto é, a política, ou então sobredita ideologia, que a USP herdou é a, agora  pouco mais nítida, política conservadora e segregadora, que jamais vinculou a construção do CRUSP em pensamento humanista que pretendia Knesse, pelo oposto disto, fê-la, ao que pouco podemos provar, na atenção de alojar um evento internacional de desporto, como é o Pan-americano, e destruí-la, como fez com três dos doze prédios construído. A pré-fabricação, modalidade demasiadamente barata requer, isenta de manutenção, o prédio em fiasco demolido, dado que assim, caso haja preferência em se não ter mesmo uma moradia estudantil, fica mais barato derrubar um prédio e erguer outro a reformar estruturalmente o prédio avariado. Isto é, entretanto, deixar o prédio em estado de insolução e não o manutenir é algo receoso, visto que, arrumá-lo em começo de definhamento é imensamente barato, e não fazê-lo, talvez seja por perversidade. Ora, deixar – ao jargão – um prédio sucateado, e sucateá-lo desde sua construção com sanções aos pedidos do arquiteto é evidência um projeto deveras obscuro que cuidadosamente pode se supor ser a ocultação e inutilização duma habitação. E aglutinante a isso, a conduta tosca de uma organização que se pretende gestora do CRUSP – a SAS-COSEAS –, sua leviana obscuridade e desinformação aos estudantes, desamparo e mão de ferro, em verdade só apontam os olhares para essa lógica de arruinar a única habitação estudantil do campus da USP no Butantã. Esse comportamento, a dizer um pouco mais, no que foi aqui constado gera ressalvas e muito medo aos ingressantes; muitos, temerosos, procuraram no entrevistador a segurança de que em seu artigo jamais houvesse qualquer resquício de suas denuncias, isto por temerem perder tudo o que não inda conseguiram. Ou seja, e já a finalizar, a cultura CRUSPIANA é hoje a cultura da ruína, um pó que será varrido embaixo do carpete com letreiros “Sejam Bem Vindos, Universitários”.

Por:  Ramote