A verdade segundo Rodas

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Para Rodas Vladimir Herzog não foi morto pela ditadura.

O reitor interventor da USP ignorou as indicações feitas por entidades e nomeou ao seu gosto sete professores para compor a Comissão da Verdade da USP que terá tempo de duração de apenas um ano.
João Grandino Rodas criou uma Comissão da Verdade (CV) da reitoria. A comissão do Rodas terá a participação de apenas sete docentes. Os membros selecionados para a comissão por entidades que representam estudantes, pós-graduandos, professores e funcionários que discutem o assunto durante meses, foram completamente ignorados pelo reitor.
A Comissão foi instaurada na última quarta-feira, dia 8, através da publicação de uma portaria no Diário Oficial do Estado de São Paulo. Foram nomeados para a comissão o professor Dalmo Dallari, da Faculdade de Direito, como presidente, e os professores Erney de Camargo, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Eunice Durham e Janice Theodoro da Silva, da FFLCH, Silvio Roberto Salinas do Instituto de Física (IF), Walter Colli do Instituto de Químic (IQ,) e Maria Hermínia do Instituto de Relações Internacionais (IRI).
Membros da Adusp, do DCE Livre da USP, Associação dos Pós-graduandos (APG) e do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) já haviam selecionado três representantes, de cada entidade, para compor a comissão, mas foram deixados de lado pelo reitor. As entidades apenas esperavam que o Conselho Universitário aprovasse os nomes, para que a Comissão da Verdade entrasse em vigor.
A reitoria já tinha marcado uma reunião com a Adusp para o dia 14 deste mês para tratar do assunto. Após uma série de manobras, para tentar remarcar em cima da hora e cancelar a reunião, ela ocorreu na última terça-feira (7), em que foi informado sobre a instauração da CV sem qualquer membro escolhido pelas entidades.
Rodas é conhecido como ativo participante em julgamentos que discutiram os mortos da ditadura. Ele participou da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos entre 1995 e 2002, na qual votou pelo deferimento da maior parte dos processos que participou. Rodas foi contra a investigação, como crime dos militares, de casos famosos, como de Vladmir Herzog, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e Zuzu Angel. A grande maioria das suas votações enquanto representante da comissão foi feita em acordo com os militares que participavam dela, mostrando uma estreita relação do reitor-interventor com o regime militar.
A Comissão da Verdade na USP é de extrema importância já que há, segundo registros oficiais, pelo menos 47 pessoas, entre mortos e desaparecidos políticos, vítimas da Ditadura Militar na USP. No Brasil, ao todo, seriam cerca de 500 mortos e desaparecidos, ou seja, 10% dessas vítimas seriam membros da comunidade universitária.
É evidente que Rodas não quer revelar os crimes da ditadura na USP, com os quais podem estar envolvidos inclusive pessoas próximas dele que hoje fazem parte da sua gestão. A criação da comissão do Rodas é na realidade a tentativa de impedir qualquer investigação séria dos crimes dos militares na USP.
Diante de mais este ataque do Reitor, contra a criação de uma Comissão da Verdade que investigue de fato os crimes de militares na USP, é necessária a convocação imediata de uma assembleia para organizar uma campanha contra esta imposição.