Comissão da Verdade do Rodas – ” Não podemos aceitar esse golpe”

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Renan Quinalha.

O jornal da USP Livre! entrevistou o estudante Renan Quinalha, doutorando da USP, escolhido como representante da Associação dos Pós graduandos da USP para compor a Comissão da Verdade. Também é assessor da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Na entrevista ele fala da mais nova ação ditatorial do reitor interventor João Grandino Rodas que decretou, por meio de uma portaria, uma comissão composta por sete professores ignorando os indicados pelas entidades de estudantes, professores e funcionários.

USP Livre!: Renan, você fazia parte da Comissão da Verdade que estava sendo organizada na USP a partir das entidades, APG, DCE, Adusp, Sintusp etc? E qual o papel dessa pré-comissão?

Renan Quinalha: Cada entidade promoveu a escolha democrática de três membros titulares e três membros suplentes para integrar a futura Comissão da Verdade da USP. Fui um dos pós-graduandos escolhidos em assembleia da APG USP Helenira “Preta” Rezende. Apresentamos os nomes que cada categoria elegeu democraticamente para a Reitoria e estávamos negociando ainda a maneira de formalizar a instituição da Comissão da Verdade da USP quando fomos surpreendidos pelo golpe anunciado em reunião com representantes da Reitoria na última terça-feira, dia 7.

USP Livre!: Antes de apresentar a comissão pronta, a reitoria havia dado sinais de que aprovaria os representantes das entidades?

Renan Quinalha: Sim, havia a forte expectativa de que os membros indicados por cada entidade fossem considerados pela Reitoria na hora de formalizar a criação da Comissão da Verdade da USP. Tivemos quatro ou cinco reuniões entre o Fórum Aberto pela Democratização da USP, composto pelas quatro entidades (APG, DCE, Adusp e Sintusp) e outros CA’s, com os representantes designados pelo Rodas para tratar das negociações. Estes já nos haviam adiantado que a Comissão seria criada, cabendo-nos discutir melhor qual o formato e as pessoas que comporiam a Comissão. E foi o que fizemos quando apresentamos a proposta formal, garantindo autonomia e independência pra Comissão, e os nomes dos membros indicados democraticamente pelas entidades.

USP Livre!: O que você tem a dizer desta decisão, completamente ditatorial do reitor, em aprovar uma comissão própria sem diálogo com as entidades que já estavam discutindo o assunto há muito tempo?

Renan Quinalha: A decisão é um absurdo e precisa ser denunciada amplamente. Não podemos aceitar esse golpe. Além de romper um processo de negociação que estava em curso, evidenciando a má-fé, impõe de cima pra baixo uma Comissão da Verdade de maneira anti-democrática, contrariando precisamente a finalidade de uma comissão desta natureza, que é aprofundar e radicalizar a democratização da nossa Universidade. Esse golpe é manifestação da estrutura de poder centralizada e da cultura política autoritária que ainda orientam a gestão da USP.

USP Livre!: O que você tem a dizer da composição de sete professores formado pela reitoria para compor essa “Comissão da Verdade do Rodas”?

Renan Quinalha: Alguns dos indicados apoiaram a eleição do Rodas e defenderam a entrada da PM no campus, além de sequer terem assinado o abaixo-assinado que contou com 5 mil adesões da comunidade USP. Mas, sem entrar no mérito dos nomes impostos, fato é que o acúmulo e a mobilização dos setores que estavam à frente dessa iniciativa era no sentido de que, para seu bom funcionamento, a Comissão da Verdade da USP precisaria ser participativa e democrática no que se refere à composição dos seus membros. Impor apenas sete professores bem antigos da Universidade, compromissados politicamente com o Rodas e com agendas muito ocupadas, com o prazo de apenas um ano, significa limitar os trabalhos e o alcance dessa Comissão.

USP Livre!: O que esta “nova” comissão vai fazer? Vai de fato investigar os crimes envolvendo os mortos e desaparecidos ligados à USP? Quais os objetivos do reitor com essa comissão criada por ele?

Renan Quinalha: Como dito acima, ficou evidente que a Reitoria não quis aceitar uma Comissão democrática, com representantes eleitos pelas respectivas categorias e com poderes para acessar arquivos e documentos da USP. O receio é que a Comissão pudesse ter contato com informações que digam respeito ao atual funcionamento da USP, fazendo recomendações no sentido de democratizar mais profundamente a nossa Universidade. Dessa Comissão imposta do Rodas, não podemos esperar muita coisa, pois já foi limitada de partida no que se refere às prerrogativas que lhe foram asseguradas, à falta de autonomia e independência em relação à Reitoria e ao comprometimento dos escolhidos com as políticas do atual Reitor. É cristalino que a maior parte desses nomes, que chegaram a combater a ditadura no passado, foram escolhidos pra legitimar essa Comissão, mas, no fundo, terão muitas dificuldades e mesmo vontade de radicalizar a apuração dos crimes da ditadura e as continuidades deles no presente.

USP Livre!: O que as entidades vão fazer agora a partir desta comissão decretada pela reitoria?

Renan Quinalha: Vamos fazer uma denúncia ampla desse golpe e continuar a campanha por uma Comissão da Verdade de verdade na USP. Vamos mobilizar todos os setores da comunidade USP, levaremos ao Conselho Universitário, à imprensa e a todas as outras instâncias em que pudermos reverberar esse absurdo. Um grande ato está sendo pensado também para as próximas semanas.

USP Livre!: Qual a importância de uma Comissão da Verdade da USP?

Renan Quinalha: Uma Comissão da Verdade de verdade na USP será fundamental não só para revelar os crimes do passado, mas também apontar as continuidades do autoritarismo no presente: nas estruturas arcaicas de poder, na falta de representatividade dos colegiados centrais, na cultura política de violência na repressão dos movimentos sociais na Universidade, nas perseguições políticas em curso, no regime disciplinar da ditadura etc. A USP precisa passar a limpo esse período para que possa avançar no sentido de democratizar a si própria, a produção e o acesso de um conhecimento crítico e referenciado socialmente.