debate: Votar para reitor ou acabar com a ditadura na USP?

A direção do DCE está em campanha pela realização de eleições diretas para reitor.

Querem aproveitar a iminência do fim do mandato de João Grandino Rodas para, segundo matéria publicada no site do DCE, “articular com ADUSP, SINTUSP e APG um candidato unificado do movimento que defenda um programa de universidade verdadeiramente pública, gratuita e de qualidade”.

Mas, antes de “articular um candidato” para disputar o cargo, seria necessário verificar se o cargo está em disputa. Não está.

Então para quê lançar um candidato?

A campanha por “eleições diretas para reitor” revela-se uma farsa justamente porque abandona sua principal bandeira na primeira oportunidade.

Segundo informe dado por diretores do DCE na última reunião do Conselho de Centros Acadêmicos (CCA, de 18 de maio), a ADUSP estaria defendendo a aprovação no Conselho Universitário de uma proposta que permita que um candidato escolhido em eleições paritárias entre estudantes, professores e funcionários (isso é, em que o voto de um professor vale o de 16 estudantes e de três funcionários) seja incluído na lista tríplice apresentada ao governador do estado para que este escolha o reitor.

Essa é a farsa: não estão sequer lutando por diretas para reitor. Estão se submetendo à vontade do governo e da burocracia universitária, buscando uma acomodação, um acordo.
Para que a farsa de “eleições diretas” encampada pelo DCE vigore, é preciso ainda que 20% dos membros do Conselho Universitário concordem com que o tema seja discutido na próxima reunião, em 18 de junho.

Então, recapitulemos:

1. A direção do DCE diz que luta por eleições diretas para reitor. Citam como grandes conquistas da sua campanha as resoluções do XI Congresso dos Estudantes e um plebiscito em que participou menos de um terço do eleitorado que votou nas eleições para o DCE.

2. Diante do fato de que o mandato de Rodas se aproxima do fim, e que nenhuma medida os aproximou de seu objetivo declarado (eleger o reitor), apresentam uma nova proposta, que aparece encoberta pela primeira reivindicação: lançar um candidato para disputar as eleições-farsa que ocorrerão no segundo semestre. Já fizeram isso no passado, nas últimas eleições para reitor, com a candidatura do professor Chico Oliveira.
Democracia ou lobby?
Falam em democracia na USP. Dizem que querem eleger o reitor. Mas na primeira oportunidade rifam a própria campanha em troca de lançar um candidato próprio para “concorrer” nas eleições-farsa para reitor do jeito que elas são, sem mudar uma vírgula.

A conduta política da direção do DCE (Psol e PSTU) mostra que, para eles, a disputa eleitoral vale mais do que qualquer princípio democrático que digam ter.

Falam em eleições diretas e democracia, mas querem mesmo é participar na administração da universidade, do jeito que ela é, antes que professores e estudantes carreiristas se aposentem ou se formem e percam a oportunidade de se tornarem “eméritos”.
Pelo fim dos governos unipessoais da reitoria. Não à intervenção do Estado capitalista na universidade pública. Governo tripartite com maioria estudantil!
A reivindicação de eleições diretas para reitor não resolve em nada os enormes problemas da universidade. Tampouco os resolverão o lançamento de uma candidatura imaculada, pura, muito bem intencionada, comprometida, aguerrida, “de luta”.

A universidade deve ser independente do governo e isso só será possível quando essa for administrada pela própria comunidade universitária, a maior interessada no bom funcionamento e no avanço da universidade.

É preciso acabar com a figura do reitor, um elemento autoritário por natureza, já que concentra nas mãos de uma única pessoa, indicada pelo governador, o poder de decisão sobre questões fundamentais da vida acadêmica.

É preciso lutar por um governo tripartite com participação proporcional ao tamanho de cada setor na universidade, ou seja, com maioria estudantil. Esta é a única forma de garantir a autonomia universitária e a qualidade do ensino público e gratuito.

Rafael Dantas
Estudante de Letras
e militante do PCO