PM na USP não é a segurança

No último dia 18 de Maio completaram-se dois da morte do aluno Felipe Ramos de Paiva que foi assassinado com um tiro na nuca no estacionamento da FEA, ao término de suas aulas no período noturno. O episódio gerou repercussão tanto na Universidade como fora dela. O caso foi utilizado oportunamente pela reitoria da USP para formalizar a entrada da PM no campus com o convênio assinado no segundo semestre de 2011, com a justificativa de que era necessário mais segurança.

A reitoria apresentou a PM como solução única para a segurança e ignorou medidas de fato práticas para a questão, como por exemplo, a questão da iluminação do campus que até hoje não saiu do papel.

Segundo a urbanista e professora da FAU, Raquel Rolnik: “é uma enorme falácia, dentro ou fora da universidade, dizer que presença de polícia é sinônimo de segurança e vice-versa. O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros campi do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje não foi devidamente debatido e superado”.

Na época, para conseguir a aceitação do convênio com alguns estudantes e parte da comunidade universitária a reitoria apresentou um plano geral de segurança que foi publicado no boletim “USP Destaques” de 9 de setembro de 2011 que dizia, “será criado o Fórum da Cidadania pela Cultura da Paz, que congregará os diferentes atores da região da Cidade Universitária e entorno, além de representantes de movimentos e organizações sociais, com o objetivo de discutir, propor, avaliar e apoiar ações que previnam e reduzam a violência nesse território. Como parte fundamental desse processo, o Fórum instituirá o Observatório de Segurança Cidadã, que será responsável pelo monitoramento e acompanhamento dos programas e ações” e também a “capacitação da comunidade universitária, com o oferecimento de cursos e palestras, e a criação de canais de comunicação entre a comunidade e a Polícia Militar (…) o campus ganhará um novo sistema de iluminação, que deve entrar em funcionamento nos próximos meses”, quase dois anos de promessa e nenhum novo poste foi instalado. A reitoria ainda concluía que este projeto seria “o início de uma grande parceria, na qual será feito um trabalho integrado em conjunto com alunos, professores e funcionários da Universidade. Os policiais visitarão as faculdades para saber as opiniões do público da USP”. De fato os policiais visitaram as faculdades, mas não para dialoga com os estudantes.

Quase dois anos se passaram e não foi criado nenhum Fórum da Cidadania pela Cultura da Paz, do Observatório de Segurança Cidadã ou de qualquer outra instância aberta na Universidade que discuta a segurança no campus.

Os estudantes da Universidade não têm canais de comunicação com a PM, pelo contrário, os contatos com a polícia foram extremamente violentos, como por exemplo, a desocupação da reitoria com mais de 400 policiais e a prisão de 72 estudantes.

Passados quase dois anos do convênio USP-PM ficou mais que comprovado que a PM não foi colocada na USP para garantir nenhuma segurança. No dia da morte do estudante Felipe Ramos, na mesma hora, a PM estava fazendo uma blitz próxima à Faculdade de Educação. Depois do convênio todos os episódios envolvendo a PM foram referentes a atritos, na maioria violentos, com estudantes, desde abordagens a estudantes negros, revistas e até a detenção, como a que ocorreu com os três estudantes no estacionamento da FFLCH no dia 27 de outubro de 2011 ou o de 72 estudantes no dia 8 de novembro do mesmo ano ou ainda o de 12 estudantes na desocupação da Moradia Retomada, no CRUSP, no domingo de carnaval de 2012.

Definitivamente a PM não foi colocada na USP para promover segurança e integração com a comunidade, mas é utilizada para intimidar o movimento estudantil e de funcionários que se opõem à ditadura do reitor-interventor João Grandino Rodas.

João André Dorta
Com informações da nota do CAVC “Dois anos de descaso com a segurança na Universidade de São Paulo”