Reitor que criou falsa Comissão da Verdade foi contra a punição dos torturadores da Ditadura

USP RodasO reitor da USP, João Grandino Rodas, passou por cima do fórum que organizava a criação da Comissão da Verdade da USP (CV) e instituiu uma em que todos os membros foram escolhidos por ele. A medida arbitrária foi tomada para impedir que os crimes sejam de fato investigados.

Durante a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos na qual participou, Rodas se colocou contra o reconhecimento de diversas mortes promovidas pelos militares e agora afirma que a Comissão da Verdade não deve servir para “reabrir problemáticas que nos dividam”.

O Fórum pela Democratização da USP estava se reunindo há mais de um ano para criar a Comissão da Verdade da USP, para investigar os crimes dos militares contra os direitos humanos dentro da universidade. Os membros da Comissão já haviam sido escolhidos e só aguardavam o parecer do Conselho Universitário para começar a atuar.

Rodas, no entanto, passou por cima desta decisão e instaurou a “Comissão da Verdade segundo Rodas” sem qualquer tipo de consulta à comunidade universitária ou mesmo ao Conselho, sem qualquer tipo de justificativa.

No último programa “Palavra do Reitor”, Rodas tratou da criação da Comissão, afirmando cinicamente que ela terá “autonomia e liberdade” e se posicionou contra a punição dos torturados, de forma velada. Disse: “isto [investigar os crimes da ditadura] não se faz por motivo persecutório, não se deve, realmente, reabrir problemáticas que nos dividam”.

Além disso, procurou justificar sua atuação na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, em que votou, junto com o militar que participava da comissão, general Oswaldo Pereira Gomes, contra a investigação de famosos casos de pessoas mortas pela ditadura, como o estudante Edson Luiz. Segundo ele, a atuação não possuiria qualquer caráter ideológico, mas era jurídica.

O reconhecimento e a punição dos crimes dos militares é algo fundamental para determinar a verdadeira ruptura com o período ditatorial que, de fato, nunca ocorreu no Brasil. A manutenção de vários dos membros e apoiadores da ditadura com cargos nas instituições militares e políticas do país até hoje evidencia este fato.