Opinião: Papofobia

Não, não pode! O primeiro termo do neologismo tem de ser grego para que não se incorra em hibridismo. Como é “papa” em grego? Hoje, é “pápas”; mas quando isso não existia, talvez se devesse usar um termo como bispo, que em grego é “presbíteros” ou “despotés”. Assim, teríamos algo como “despotofobia”. Horror ao déspota?

Déspota é aquele que exerce poder absoluto. E o papa, teoricamente, exerce poder absoluto. Tem o poder de dizer aos fiéis o que devem ou não devem fazer. O fiel não pode se fiar com alguém do mesmo sexo; não pode fazer aborto; não pode participar de movimentos sociais (como a Teologia da Libertação), etc.

Mas, o que interessa aqui não é o déspota, mas a fobia.

Da mesma forma que a igreja proíbe muitas coisas, fiéis e infiéis juntaram-se numa cruzada contra a fobia. O resultado foi a proliferação de neologismos.

Afora o racismo e o feminismo, que terminavam em “ismo”, surgiram os neologismos terminados em “fobia”: Homofobia nós já conhecíamos; recentemente, escutei gerontofobia (discriminar os anciãos). Logo, logo, teremos pela frente a lipofobia (horror aos gordinhos), csantofobia (quem conta piada de loira), e, não nos espantemos se racismo e feminismo não mudarem de nome: maurofobia e ginecofobia. E, até mesmo as fobias se transformarão: homofobia se tornará urofobia (medo de dar o rabo).

Está virando doença. Não a fobia, mas a mania dos neologismos. Quanto mais se criam neologismos, maior se torna a necessidade de criá-los. Com o tempo, eles acabam saindo de controle e ganham vida própria.

Então, começarão a aparecer estes mutantes: argurofrasefobia (arguros é prata; que em latim é argentum; frasos, é conto), ou o preconceito de se contar piada de argentino.

Não se pode mais contar piada de argentino. O papa é argentino. Está proibido. Mas o papa também proibiu muitas coisas: não é gerontófobo, pois é velho pra caralho; mas é urófobo e ectroséfobo (preconceito contra o aborto).

Eu não tenho horror a nada disso. Gertrude Stein e Alice B. Toklas formavam um lindo casal (lindo não é bem o termo, pois as duas eram feias pra burro, mas, vá lá). A liberação do aborto, por sua vez (desculpem-me os espíritos que estão na fila para atravessar o Letes), representa a verdadeira libertação da mulher, pois só com isso será, definitivamente, dona do próprio corpo (coisa que o homem sempre foi).

Então, para que fobia? Desculpem-me, mas eu tenho uma fobia incurável. Fobofobia. Tenho horror àqueles que me censuram quando escrevo e quando falo. Tenho horror àqueles que, faltos de argumento, utilizam-se do índex para tentar calar a boca de quem protesta.

E tenho Dito!

A.T.