Entrevista com o tucano (parte 5): Sobre as manifestações

E o Erdogan nos disse: “Atirem nos olhos dos terroristas!”
E o Erdogan nos disse: “Atirem nos olhos dos terroristas!”

O tucano, homem democrático e contra a corrupção, além de nacionalista, prosseguiu:
– Conversamos com o Presidente turco, o Erdogan, quando as manifestações nas ruas de São Paulo começaram a aumentar. Ele nos disse: “Atirem nos olhos dos terroristas! Façam como eu, e mandem todos os marginais para casa! Gente boa não sai às ruas quando há protesto! E os jornalistas, se tiverem bom-senso, vão para suas sedes e esperam que as notícias cheguem!”
“E assim fizemos… Então, o nosso Governador – homem sempre piedoso – sendo também nosso comandante-em-chefe no Palácio dos Bandeirantes, havia dito: “Ocupar uma avenida é caso de polícia!” E o Prefeito da Capital não reagiu, dando carta branca à ação de nossos homens. Era tudo o que queríamos, pois em geral o Choque deve ficar longe dos olhos do povo – acho que foi por isso que os homens atiraram nos olhos dos jornalistas e fotógrafos!”
Ele deu uma longa tragada em seu cachimbo, e prosseguiu:
– Aí o estrago já estava feito! O Erdogan nos instruiu a aumentar o rigor, que o povo acabaria fugindo das ruas… Era caso perdido, pois a opinião pública ficou chocada com o Choque nas ruas centrais, e só nos restou o remédio extremo: enviamos rapidamente a informação para os juízes, jornalistas, ministros do STF, para que passássemos a apoiar os manifestantes. Começamos a dar o dito pelo não dito, mas o leitor do Estadão, ou coisa que o valha, nem deu por isso! A Veja ficou furiosa… Qual! Em seguida, eles também mudaram o teor das matérias e o tom de voz. Até um hacker invadiu o tweeter deles, como você sabe…
– Ah, sim… eu lembro, li nos jornais… Um hacker invadiu o tweeter da Veja e pediu para que as senhoras deixassem de lado a TV e fossem para as ruas…
– Você acreditou nisso?! Então você é um tucano dos bons! Foi um truque… Contratamos um hacker para jogar fumaça nos olhos dos leitores da Veja, que, a essa altura, já queriam sair às ruas para protestar contra a corrupção, e eles tinham que firmar a convicção de que, agora sim, contra o mensalão e contra a PEC37, era justo o povo ocupar as avenidas! Agora já não era mais caso de polícia!
– Impressionante! Para mantermos a ordem do país, precisamos juntar todas as forças!
– É, e o segredo disso tudo está no discurso que colocamos na boca do povo, como uma passarinha coloca a minhoca na boca dos filhotes! “Abaixo a corrupção!”… “Bilhões gastos com a Copa!”… Olhe, eu não vi nenhum hoteleiro e nenhum empreiteiro descontente com a Copa, mas eles engrossaram a voz da multidão: “Fora, Copa…!”, porque eles sabiam que o dinheiro já estava nas contas deles ou em algum paraíso, desses com o mar verdinho e cheio de corais!
– Meu receio era de que o povo começasse a falar de outros assuntos que mexessem com nosso patrimônio! – eu disse a ele, com um ar preocupado.
– Ninguém pode falar – isso é proibido – de imposto sobre a riqueza… enrolamos um pouco, dizendo que o setor empresarial já é muito prejudicado, que carrega o povo nas costas, e… pá! Só falta mendigo dar esmola para nossos empreiteiros e donos de empresas de transporte! E outra coisa, meu amigo, temos que evitar a todo o custo que a Imprensa fale em indenização por violência policial, senão o moral das nossas tropas baixa, e então teremos que abrir a carteira bem aberta, para eles voltarem a ser fiéis como cachorrinhos!
“O resto é simples: baixar o preço das passagens, para evitar um mal maior, e é só esperar mais uma semana ou duas, que o povo volta para casa, tirando dos cães e jogando no… do Haddad e da Dilma, que nem entrava na história!
“E não é que o Erdogan – ele concluiu – vendo que os rumos da política do Brasil eram diferentes dos da Turquia, ficou seriamente indignado conosco? Ele achou que, se o país, um gigante ocidental, fizesse o mesmo que ele, os turcos estariam salvos da pressão internacional. Ele nos ajudou com logística e alguns truques para baixar a crista do povo, mas apostou que lhe daríamos apoio para conter os manifestantes dele… Nem pensar! Se o povo começou a cair em cima de nós, que dirá então dos países da OTAN e a própria ONU?”

Reginaldo Parcianello