O joio e o… joio

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Ontem recebi um volante do DCE em tom revoltado-miguxo. Não encontro o danado agora, e olha que pesquisei até as lixeiras verdes da FFLCH, mas refutá-lo ponto a ponto chega a ser fútil, já que é sintoma de um problema anterior à perigosa estratégia de aderir ao discurso politicamente inconsistente que a direita trouxe, apoiada pela mídia, do facebook às ruas. Baste mencionar que a reapresentação da denúncia do MP, sem a acusação cagada de formação de quadrilha, é comemorada como vitória – com o giro sofístico de dizer que aquela acusação caiu, sugerindo a parte pelo todo. Tampouco consta de seu calendário o ato unificado das universidades estaduais, quinta, 15/08, concentração às 17h na praça da Sé. Quem desavisa imigo é.

O problema, de que tal volante é só mais um expoente, é a rendição, para aproveitamento eleitoreiro, a certo senso comum. Aquele diálogo, sempre oposto à ação, que tem sido uma prática secreta desde as fotos da Reação no brunch-com-Rodas. Bom lembrar que o braço cruspiano da Reação nas últimas eleições para a Associação de Moradores, a Pra Frente CRUSP (!!!), acusou a vitoriosa CRUSP Popular de ter feito também sua reunião secreta. Se quem defende a prática usa dela como acusação, boa coisa não pode ser – e continuamos querendo saber das pautas.

Ainda pelo CRUSP, a mesma chapa que venceu, com o apoio de última hora da mencionada direita, fez uma exposição histórica em que a retomada do espaço de moradia, ocupado pelos burocratas no bloco G, sequer figurava. Isso aí, uma chapa que conta com futuros historiadores escamoteou a história recente por rusgas políticas, e sumiu com um movimento que gerou 8 expulsões, incluindo gente que não estava lá, e mais doze prisões na desalojamento cumprido pela PM, e sobretudo garantiu moradia a uma população de até 40 estudantes ao longo de seus quase dois anos de resistência. Decerto antecipavam a publicação do USP Destaques, que afirmaria terem os alunos  ocupado vagas destinadas a moradia estudantil (?), sem qualquer menção ao fato de que o espaço era ocupado pela SAS/COSEAS, que já fagocitara a lavanderia – atual administração – e diversos térreos dos blocos. Talvez possamos vislumbrar uma das pautas dos conciliábulos na surdina.

Muito temos ouvido o discurso de que ação gera repressão. É quase lei da física, mas justifica o peleguismo? Que dizer quando a gíria pejorativa ‘assembleísmo’ anda tanto pela boca dos burocratas institucionais quanto da burocracia estudantil? A assembleia arrancada a fórceps em conclave dos Centros Acadêmicos foi impedida de acontecer porque urgia comemorar na Paulista, de verde-e-amarelo, a queda dos abusivos 20 centavos, vitória incontestável na luta por passe livre.

Ao funcionário que dirigia o caminhão de som – lhe ouvi à puridade – foi dito que passeasse pelo campus. Vai que o povo que clama por assembleia resolve usá-lo para o que ele serve, né? O discurso pelego tem outro lado: ‘são poucos agindo, quando forem muitos nos juntamos!’ Serão aceitos? Os que fizeram coro até ontem com a turma do deixa-disso, que querem cooptar?

A lei pelega expressa acima, voltando ao presente, pode ser reconhecida nas postagens recentíssimas no sítio do DCE: todo greve na Sanfran, todo carona em ação alheia, nada do tom genérico, superficial, oportunistamente frouxo do volante que já nem nas lixeiras se encontra. Pudera, são os mesmos que reivindicam a ocupação parcialmente vitoriosa da Reitoria em 2007, tendo sido contra desde o início; da mesma laia dos que mencionam a evacuação do CRUSP em 68, sem prisões, mas não comentam as prisões havidas no carnaval do ano passado. ‘Reivindicar o passado, sem agir no presente, pois dialogamos em segredo com o que está no alto’.

Refrigério foi ler, boquinha da noite, o n°127 do USP livre, com boa informação sobre a greve na Sanfran, os despautérios do Jefferson Almeida, uma análise precisa da gestão Rodas – por um neófito! – e um poema sobre o passe livre. A quinzena que o volante do DCE coroava começara com o último Na Boca do CRUSP, em que os alunos que recebem suas bolsas para tratar, obviamente, de dependências químicas, só falavam das infinitas benesses oferecidas pela mãe-USP, para usar metáfora cara ao coordenador da SAS, W. A. Jorge. Numa época em que não se distinguem panfletagem do ME eleito e propaganda institucional, animei-me a escrever para a única publicação que vem se destacando, até pela pluralidade. 

Patrício Moreno