Poema em homenagem e apoio à ocupação da reitoria da USP!

O poema é sobre a ocupação da reitoria pelos estudantes e operários, com corte temporal, envolve cenas do cotidiano, de certo modo, vividos no dia a dia. 

 
 

São Paulo, dia 02 de outubro de 2013
Três horas da manhã

Chove e lampejos de trovão iluminam o céu
Ideias e risos, trovões e palavras
O sono simpático ganha a causa
A grama molhada facilita o deslize
Democrático das autoridades de semblante frio
Talhado no mármore com as mãos dos operários tristes

Chove líquido negro desse céu envel(h)ecido
Aves vampiras comem cabeças de aves novas
Reitoria ocupada, estudantes e direitos esquecidos
Alguma coisa não está certa, funciona mas de modo errado
Senão as coisas seguiriam seu rumo natural
Mas qual o rumo natural das coisas

Eu não vou lá, Circe me espera no caminho
Uma dia pode durar até cinco anos
Uma graduação não termina assim
Quem vamos enterrar desta vez
Há o que enterrar nesse campus acadêmicus
Homo sapiens, homo faber, homos circunspectus

Ciência, arte e humanidade longe de ser para
É para si humanamente impossível
O mar corre para a terra
A terra corre para o mar
No centro com dois gatos sob o cobertor
Dois tornozelos lívidos cruzam o chão de madeira encerada

Olhinhos abertos na escuridão do quarto
Iluminado pela luz artificial etereamente azul
O pensamento longe logo o logos apaga
A sonhar com New York uma deusa adormece
Sozinha em seu sonho, deitada no abismo
A espera de um alô qualquer e a espera que o tempo passe

E que do céu desabe baldes dágua e anjos tortos
E que venha virada do avesso qual Meduza para mim sorrindo Vênus
Sem crocodilagem com meu ser por nada aflito
Nem com a presença da Polícia Militar ou Tropa de Choque
O que é isto que rasga o 
papel de pão e põe meu nome escrito de modo revolucionário
Já vi muitos invernos frios, mas este é o Segundo Inverno em dois dias de um outubro negro

Temos uma vida inteira pela frente
Odysseus sabia disso e seguiu viagem
Sabendo que nenhum teto protege o marinheiro ao mar entregue
Persegido por Possêidon, um dos filhos de Cronos e Reia
O deus supremo de todo mar conhecido
Pai do gigante Polifemo ferido no único olho por Ninguém

E se Rodas não rodam alguém terá que fazer Rodas rodar
É pelo bem da inteligência que o movimento existe

A. L.