Pelego ou Utópico?

O motivo

Antes de falar sobre a assembleia de quinta-feira (03/10), vou sinalizar os motivos desse texto.

Justificativas:

1) Trazer, parcialmente, a assembleia, para aqueles que não participaram dela;

2) Ajudar a esclarecer o que aconteceu na assembleia para os que ainda estão confusos (sem pretensões de vanguarda/iluminado/esclarecido, é simplesmente um ponto de vista consolidado);

3) Colocar meu ponto de vista em um espaço público de discussão para que seja confrontado e superado;

4) Elaborar, a partir das minhas considerações, uma falsa solução para as próximas assembleias. Falsa porque é moral e não prática.

O núcleo divergente

Nessa assembleia existia uma divergência política. Para deixar claro que não tenho clareza e ainda não me posiciono, vou sintetizar essa diferença me apropriando de dois termos pejorativos: os Pelegos e os Utópicos.

Os “pelegos” defendem que o eixo principal da mobilização estudantil seja Diretas para Reitor. Mais do que necessário frisar que essa defesa não é de forma alguma uma defesa ao reitorado, mas uma visão política de que essa pauta tem poder mobilizador, e é uma pauta possível de ser atingida. Podem me desqualificar enquanto ingênuo, mas acredito que não reconhecer as motivações políticas concretas dos diferentes grupos, é cair em simplificações maniqueístas.

Os “utópicos” são contrários a esse eixo. São compostos pelos que defendem Governo tripartite, e por aqueles que são contra Diretas para Reitor e possuem outras propostas de eixo, como cotas, permanência estudantil, estatuinte, devolução dos blocos. Estão no mesmo grupo por serem oposição à ideia de eixo dos pelegos. Sua justificativa também é política e coerente: o eixo do movimento estudantil precisa ser alguma coisa que mude profundamente a estrutura de poder na USP.

Essas duas visões políticas divergentes foram, no decorrer da assembleia, veladas, mascaradas e suprimidas por encaminhamentos parciais. Essas visões não foram diretamente confrontadas e podem ser resumidas pelas palavras de ordem: “Olê, olê, olê, olá, diretas já” e “morte ao rei, morte ao rei”.

As ideias hegemônicas

O ambiente da assembleia sempre possui pautas hegemônicas, consensos rígidos e acríticos. Dois consensos auxiliam no entendimento do desenvolvimento e das manobras da assembleia:

1) Governo tripartite é melhor que reitorado;

2) Diretas é melhor que não-diretas.

Evidentemente que muitas pessoas e grupos são críticos à esses consensos, mas o ambiente polarizado da assembleia constrange qualquer manifestação na contramão dessas pautas. A princípio, estou de acordo com esses dois consensos, mas acho importante que ocorram mais discussões críticas. Em algum momento, algum aluno (algum/algum = vago, mas aconteceu) tentou entrar na discussão crítica sobre os consensos, perguntando: “Como funcionaria o governo tripartite? O estudante, o funcionário e o professor receberiam? Como seriam eleitos?”. São perguntas que trazem a dimensão crítica para o debate, mas raramente são debatidas.

Desenvolvimento e manobras

Acabaram os informes e começou a assembleia. Primeira votação: (1) Retificar em bloco os cinco eixos da última assembleia x (2) discutir eixo por eixo? Proposta (2) ganhou. Nesse momento os pelegos tentaram realizar a primeira manobra, afirmando a necessidade de retificar primeiro o eixo Diretas para Reitor.

De maneira coerente os utópicos pediram que fosse votado “Governo tripartite” contra “Diretas para reitor”. Coerente porque existe uma contradição lógica evidente nesses dois eixos. No entanto, aconteceu uma manobra dos utópicos. Eles transformaram a votação em: (1) Reitorado x (2) Tripartite. Votação completamente absurda! Como já vimos, esse é um dos consensos hegemônicos da nossa assembleia. Não levou a lugar algum.

Com toda a razão, os pelegos não se deram por vencidos. A divergência nuclear não havia sido confrontada. É hegemônico que tripartite é melhor que reitorado, mas a divergência política de qual seria o eixo principal do movimento, não foi debatida. Os pelegos tentaram de tudo. Sempre que aparecia a oportunidade eles gritavam, e com razão. Sofreram uma manobra, coitados. Esse foi o momento de maior nebulosidade na mesa, e de acumulo significativo de palavras de ordem.

Essa confusão geral na assembleia só foi resolvida com uma votação igualmente absurda e despolitizada: é contraditório Diretas para reitor e Governo tripartite? Claro que é, não há dúvida de que esses dois eixos são logicamente contraditórios. Embora essa
votação tenha passado ela não continha diretamente a divergência política.

Indiretamente ela continha, porque o único jeito de não considerar esses dois eixos contraditórios, é não considerando um deles como eixo.

Não aconteceu o confronto entre as divergências políticas, os encaminhamentos deveriam ser: Diretas para reitor será o eixo principal da mobilização estudantil? Sim? Não? Em caso de não ser, será Governo Tripartite? Sim? Não? Em caso de não ser, será Cotas, Permanência Estudantil, Estatuinte? Sim? Não? Outros?

Conclusão

Não acho, de maneira alguma, que o desenvolvimento inconclusivo foi causa de uma incompetência da mesa. Ressalto a ação dos grupos pelegos e dos grupos utópicos que não colocaram suas divergências políticas no espaço público, levando ao desenvolvimento de uma assembleia absurda, onde se debateu sem se debater, se votou sem se votar, e se concluiu sem se concluir. Mais clareza e sinceridade: essa é minha falsa solução para as futuras assembleias.

Calouro da Geografia