ESCONDER AS CONTRADIÇÕES ATÉ QUANDO?

A assembleia da última quinta-feira (10) colocou em questão novamente uma contradição na greve com ocupação da USP.

Há desde a assembleia do dia 3 de outubro uma polarização de fundo, em torno do fim do reitorado. Esta divergência central está representada na oposição entre “governo tripartite” e “diretas para reitor”.
Na assembleia do dia 3, diante da vitória da proposta de fim do reitorado, o DCE já havia manobrado para que fosse votado logo em seguida (interrompendo a votação) que DIRETAS e TRIPARTITE “não se excluíam”, mesmo com os defensores do governo tripartite declarando-se contrários a esta “interpretação” de sua própria proposta. Um remendo de última hora foi feito para que se evitasse que o slogan que Psol e PSTU levantam fosse derrubado da pauta principal da mobilização. 
Bom lembrar que uma semana antes, no dia da ocupação, a assembléia geral votou pelo “Governo tripartite” contra “Diretas”. Bom lembrar também que esta proposta já havia outras vezes sido derrotada em assembléias gerais anteriores à mobilização, mas havia ganho votações em algumas oportunidades. Uma delas foi o Congresso de Estudantes da USP, um dos poucos espaços no qual entidades estudantis controladas pelas forças políticas do DCE possuem mais peso que a oposição e estudantes independentes.
A questão é que esse remendo tem sido utilizado para conter, em certa medida, o avanço por verdadeiras alterações no regime de poder nos órgãos de decisão da universidade, mesmo com claras demonstrações de que os estudantes querem mudanças radicais.

MORTE AO REI x UM INVÓLUCRO DEMOCRÁTICO

A alegação do DCE é que “Diretas” massifica o movimento e dialoga com os estudantes. A verdade é que a vitória de posições mais radicais tiraria o DCE do centro da questão, já que Psol e PSTU nunca defenderam de fato o governo tripartite e não seriam realmente consequentes na defesa de uma Estatuinte que mobilize toda a universidade. Sabemos disso pois a direção do atual DCE esteve à parte das lutas de 2007, 2009 e 2011, quando não se colocou abertamente contra estas lutas.
Fato é que a votação pela “diretas” está longe de significar que haja consenso em torno dessa proposta. Pelo contrário, é algo extremamente polêmico, abstrato e manobrável pela reitoria, como o seria qualquer proposta para que haja mudanças de estatutos da universidade sem que esta seja discutida a fundo, sem que esta coloque em questão uma participação massiva de milhares de pessoas em discussão e mobilização intensas e sem que esta toque a fundo as questões do poder na universidade, como a composição atual dos órgãos de decisão onde professores têm mais de 90% do poder de voto. 
O quão abstrato são as “Diretas”, ficou claro no informe da última assembléia geral de que estudantes da FEA em assembléia de curso se colocaram a favor de diretas, mas contra a ocupação da reitoria, a greve e contra o governo tripartite. O suposto diálogo da “Diretas” aparece cada vez mais como um recuo de posições para englobar setores mais confusos, moderados e sobretudo desmobilizados dos estudantes jogando toda e qualquer decisão por alteração dos estatutos da universidade nas mãos da burocracia (afinal diretas sem greve seria conseguida com uma simples canetada de Rodas e não pela pressão estudantil). 
Qualquer proposta que não coloque a participação massiva dos estudantes e trabalhadores em primeiro plano e que não inicie desde já uma ampla discussão em torno de um programa próprio, tende a colocar toda a questão do Poder na universidade no vazio, ou melhor, nas mãos de Rodas e do C.O.

Hoje os órgãos de decisão da universidade e o reitor (resquício da figura de interventor da ditadura militar) têm plenos poderes para decidir e tornar ainda mais conservador e fechado o processo de eleições para reitor. O que impediria Rodas ou o reitor que o substituir de dar um invólucro democrático incluindo toda a universidade no processo de votação apenas na sua última etapa, para dar um verniz democrático e referendar as etapas anteriores extremamente autoritárias de eleição para reitor? O que impediria Rodas de dar um pequeno espaço a mais para estudantes e trabalhadores no C.O. sem que no fundamental haja qualquer mudança de fato?
Com um verniz democrático, DCE e a reitoria se vangloriariam para melhorar sua imagem diante dos estudantes, uma manchada pela total passividade nos últimos anos diante de ataques como o Convênio USP-PM e a outra pela desmedida repressão contra o movimento estudantil e de trabalhadores.
O que mudaria na USP de fato? 
O movimento na USP entraria em refluxo, já que a experiência com a “nova” forma de poder insuficiente e autoritário pode demorar anos. 

Vejamos o Exemplo da UnB, onde diretas para reitor não alterou o funil decisório na universidade, apenas adiou os processos de luta dos estudantes. Lembremos que nas federais a composição supostamente mais democrática dos órgãos de decisão não deixou de dar à reitoria poderes de mando e desmando e de repressão contra estudantes.
Vemos que o DCE direciona a sua “luta” exatamente para aderir a este tipo de reforma superficial. 
Em editorial da Folha de São Paulo deste sábado, redigido pelo DCE, este alega que “[Rodas] tenta escapar da contradição central”. E qual seria esta CONTRADIÇÃO CENTRAL? O DCE responde: 
“Por que, entre quase todas universidades públicas do Brasil, somente a USP ainda não possui um sistema de eleição direta?” (http://www.dceusp.org.br/2013/10/diretas-ja-texto-do-dce-publicado-na-folha-de-s-paulo/).
Mas afinal, lutamos para ser uma universidade realmente democrática ou para copiar os exemplos completamente derrotados de democracia em outras universidades públicas?

REBAIXAMENTO DA PAUTA E MAIS MANOBRAS NA ASSEMBLÉIA

Qualquer proposta de pequenas reformas serve apenas para jogar panos quentes na imensa contradição que regeu as últimas mobilizações na USP, como a pelo fim dos Decretos de Serra em 2007 e contra a presença da PM em 2009 e 2011.
Alguns alegarão que há na pauta de reivindicações a dissolução do C.O., o Governo Tripartite, Estatuinte Livre e Soberana, voto universal, etc.
Mas não há como negar a grande articulação dos setores mais moderados representados pelo DCE para colocar em primeiríssimo plano a palavra de ordem de “diretas já” e seu êxito nesta etapa de luta em ofuscar os outros pontos, seja na campanha do boca a boca, seja mesmo pelo impedimento nas assembleias para que os setores de oposição abram esta polêmica de maneira clara e com direito de debate pleno.

Uma mostra de que o DCE se restringe a defender apenas a “Diretas” é que no editorial da Folha de São Paulo não se toca em nada além disso e de maneira bem abstrata.
Assim como no Editorial da Folha, as propostas centrais têm sido retiradas do debate também no meio do movimento, como “Fim do convênio com a PM” ou “Fim dos processos” contra os 72 da ocupação de 2011 ou contra os eliminados (Jéssica, Bruno e Amanda). O momento seria extremamente propício para isso e um sinal disso é que na Unicamp, a reitoria recuou da presença da PM na universidade. Mas o DCE se recusa a ir além de sua demagógica defesa de “democracia na USP”.
A jogada do DCE no último dia 10 foi de simplesmente ratificar as propostas aprovadas anteriormente em assembléia, ou seja, pela segunda oportunidade seguida foi impedida a confrontação entre defesa do reitorado e o fim do reitorado. 
Governo tripartite e dissolução do Conselho Universitário deixaram de ser considerados como pautas principais (ou eixos) para serem transformadas em pautas secundárias.
Além disso, uma claque montada pelo DCE deu conta de desmoralizar as falas de grupos como o PCO, POR, LER-QI e de diversos estudantes processados, que divergem das propostas levantadas pelo DCE.

A FRAGMENTAÇÃO DA OPOSIÇÃO E A NECESSIDADE DE UMA VERDADEIRA FRENTE DE LUTA

Os grupos políticos e estudantes independentes que defendem uma mudança mais a fundo nos sistemas decisórios da universidade, seja a alteração dos órgãos de poder, seja reivindicações outras como os blocos K e L do Crusp para os estudantes, estão muito divididos, fragmentados e desorganizados para que suas reivindicações sejam levadas à assembléia e passem pela barreira de contenção do DCE, ou mesmo que as suas propostas sejam discutidas com a massa dos estudantes. 
Parte importante desta fragmentação já estava dada desde o início da mobilização quando setores como o MNN, passaram de defensores radicais por mudanças na universidade a reformistas de superfície embarcando integralmente nas posições e campanhas do DCE. Alegando o diálogo com as massas, defendem igualmente e de maneira vazia a proposta recuada de “Diretas”.
Está colocado na ordem do dia, diante disto, a organização em frente de luta dos setores que defendem que a atual luta na USP não termine em vazio e não coloque o poder de decisão para os mesmos órgãos burocráticos e autoritários contra os quais sempre lutamos e pelos quais centenas de companheiros já foram punidos mesmo com eliminação ou demissão. 
As contradições de poder na USP expressam o controle da elite na universidade, seu programa de fechamento para toda a população, a privatização a conta-gotas e a repressão contra o movimento estudantil e de trabalhadores.
A luta contra o programa elitista e capitalista de universidade sempre trará a questão do poder como questão central. Quaisquer das ditas pautas primordiais e secundárias estão ligadas a esta questão do poder e devem ser trazidas à tona pelos setores conscientes e diretamente interessados e não pela ala politiqueira e adaptada do movimento estudantil.

Esta é uma oportunidade e um espaço que uso para abrir o debate com os companheiros. Espero que seja frutífero.

Roberto Gerbi
Estudante de Letras, independente

Um comentário

  1. eu só tenho uma pergunta se o movimento estudantil vem lutando para disponibilizar o acesso à USP para literalmente todos, porque apenas os “uspianos” votariam pra reitor, afinal não deveria ser votado por todo o Estado de São Paulo, já que a universidade pertence a este?

    Curtir

Os comentários estão desativados.