Texto livre sobre a repressão da manifestação do dia 15/10/2013

Texto escrito após o protesto pela educação na cidade de são paulo onde, mais uma vez,
estudantes, professores e trabalhadores foram atacados pela polícia da tropa de choque no largo de pinheiros e em outras regiões por onde os manifestantes passavam:

 

As palavras de ordem inflamadas, a revolta do mar negro de gente, as bandeiras vermelho negras no ar agitadas, a chuva de pedras nos protetores de Deus sobre a ponte do rio morto, os estudantes, a correria, a tropa de palhaços do choque, a gritaria dos professores, as balas perdidas reencontradas, os trabalhadores no quarto escuro do corpo violentado, o noticiário, a tv desligada, estilhaços de vidros no chão, a repórter americana, o triunfo aparente da violência e da injustiça, a polícia até os dentes armada, a vergonha de ser homem, o terrorismo individual e o terrorismo de Estado, a prática da revolução permanente, passageiros em pânico, a dúvida dos filósofos de olhar sério, a repetição do mito de Sísifo, etc… o retorno à casa, a cara da louça suja no fundo da pia, o abacate maduro indo pro liquidifica-dor, as lembranças de um tempo que não sei se vivi, a sede, a fome, os cigarros, o café, o jornal, a norueguesa condenada há um ano e meio de prisão por denunciar violência sexual em Dubai na Índia, as meias brancas, o imposto de renda, o dia difícil, o olhar seco no oco da janela, mais uma vez a chuva, o prédio laranja, o relógio de sol, as árvores, a grama molhada, os cães dormem no frio, as pancadas de agonia, o coração ou casa mal assombrada, a resistência, a tristeza sem fim oposta a genuína alegria, a consciência de mim e do mundo, ela, a versão brasileira do De Profundis, o noise, a luta, o óculos escuro, mais uma vez o cigarro, as cinzas do tempo no cinzeiro, o amor não correspondido, o céu anil, a elegância do homem com guarda-chuva, hoje ela levanta no ar o crânio da caveira e beija o que antes era eu, nenhuma interrogação, o relógio e as horas, o vento frio, a percepção da percepção, a alma da alma, a teia de aranha, a tempestade no copo d’água, o Cadáver em Transe, a fuga da realidade, a negação de Deus e a gravata frouxa no pescoço, a bengala, a moral, os cartões de crédito, a morte a prazo, o luto não vivido do amigo não morto, o fogo aceso, a água fervendo no interior da panela preta de fundo branco, as aves de rapina, os centavos, a luta cotidiana pelo o bolo de chocolate, o único pão com o amigo repartido, Sartre, as fotos, alguma arte, a pós produção, o editorial, a ânsia de estar, a alma e o corpo, a menina que roubava livros, os bancos das praças em dias sem sol, as vidraças quebradas do bancos que quebram vidas, alguém que precisa falar com você, os dez elefantes, a mochila vazia, os vazios do homem, a caixa toráxica cheia de esperanças, a saudade, os mitos, a mentira, a falácia formal, a inconstância, a impermanência, a substância, o que é impenetrável, o Ânus Solar, as premiações injustas, o saque, a sacada, a bofetada literária, o murro lírico em ponta de faca, a varinha de condão, a bruxaria, os rituais macabros com molotovs, o conjunto de circunstâncias que não procuramos nem queremos, os transes hipnóticos, a dor, o esquecimento, o ônibus perdido, a viagem não feita, o silêncio e os líquidos, o que corre nos ossos, a medula do mundo, a perturbação no cérebro de Deus, a revista cortada, as palavras mal-ditas, o corte do silêncio a faca, a amizade perdida, os contratos desfeitos, as novas paixões, aquilo que arde no peito, o que se joga na sarjeta, barricadas de lixo, a pressa dos presos políticos, a busca pela verdade, o propósito das escadas, o dente através de um sorriso, a quebra dos links, o feed de notícias, as mensagens ignoradas, os eventos esquecidos, a criação de anúncios, tudo o que com a letra A pode ser escrito, o aniversário da Ordinaria Hit, os ruídos, o às, o zero, o aspirador de pós, o retorno do inverno e a chegada inesperada da velhice, o número 7 ou o número 9, a comunicação por enigmas, o que por amor não foi dito, as receitas, o livro não lido, o papel da filosofia, o papel da arte, o papel da poesia, o papel higiênico, o papel dos papéis, o lado esquerdo, quem está perdido, as lojas em chamas e a comoção dos jornalistas, os kilos achados, a língua dentro da boca, os dentes apodrecidos, a razão e a sensibilidade, o bate-papo desativado, a chave na porta, os passos não dados, a espera, os sapatos furados, os rios, a natureza morta, o calcanhá de aquiles na ponta da flecha de Páris, a queda, o abismo, o lugar absolutamente comum, o afastamento da palavra valise, a utopia do corpo nu, a central de ajuda, o beco sem saída, o que brilha no escuro, o banho quente no frio, o arrepio, a toalha vermelha, a música inglesa, a periferia, a viatura da polícia, a revolta, o mundo virtual, o cadeado, as correntes, tudo o que sobre si está voltado, aquilo que vive parado, a conexão a uma rede, o peixe fora d’água, a tempestade no banheiro, o sol debaixo do chuveiro, a patifaria, a presença de Mefistófeles no ponto de táxi, a juventude e o aproveitamento máximo da vida, o que se deixa para trás, aquilo que não faz diferença, o que não muda, o comodismo, o patriotismo, o e-mail não lido, a falta de interesse em tudo, o hambúrguer de lentilha, as lágrimas, a invenção do dia.

 

A. L.