Guerra impregnada

Ouço helicópteros que parecem entrar por minha janela, dentre tantos tantos 
milhões, até bilhões, por uma razão ainda desconhecida neste presente pestanejo a
necessidade de entender porque me seguem os ruídos do caos. Pela ventana entram luzes que repetem a sinfonia da desgraça, ainda que sejamos o futuro do passado e estejamos presos no passado do verdadeiro futuro, nada mais foi como antes, as naves que sobrevoam a multidão tem o poder da morte: quando quando a utilizarão?!

Esperarão até qual momento para mandar explodir a congregação, agremiação, ajuntamento, multidão, muchedumbre? – Que futuro é esse? E porque será os helicópteros sabem que eu o conheço descrito em textos secretos, que mesclam a anarquia com a ciência de Gaia? : textos sobre as antigas revoluções me desasperam em lástimas perdidas pelo chão dos dias que conheci em vidas passadas: todos os levantes fracassaram! Rego as plantas com esperança, mas o medo tem perseverança: e se o futuro for das máquinas? Quem eu seguiria não sei, plantaria macadâmias numa terra singela escondida numa viela, abandonaria a política, a polícia e as grandes bibliotecas, mataria a comida com as mãos, retornaria de onde não se sairia: terra profana, onde o trabalho sacramentaliza o passar dos dias: mas a guerra viria pelos lençóis freáticos, pelas sementes deformadas em laboratório, entraria pelo meu gado em um câncer impregnado, a guerra seguiria, a pós-modernidade seguiria, o medo perduraria, não sei quem sobreviveria: nosso amor não se fortaleceu na intempérie, então nem ele semearia sementes plenas de liberdade, vivemos como de relance: tempo histórico de infância, um medo apenas, uma chance, meu caro, só há a temperança neste mundo, os ruídos ainda não sabem ser sons plenos de revolução, trazem a guerra, trazem o caos, mas ouço ao fundo a voz de uma criança sem sombra no coração, seríamos nós filhos para a transformação? É preciso ter força, companheiro, é preciso ter força…

Clarice Marcon