NUNCA nem meu pai encostou um dedo em mim. As duas vezes que isso aconteceu partiu de um policial. HOMEM!

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Passeata que ocorreu no dia 15/10/2013 em São Paulo foi brutalmente reprimida pela PM com 70 pessoas presas.

Hoje a minha repugnância é dupla: PM e PSTU! Vamos por partes…

Fui pro ato – em prol da educação. A concentração aconteceu no Largo da Batata, seguimos a Av. Faria Lima sentido Rebouças. Em um determinado ponto, “invadimos” a marginal (estranho dizer de invasão em algo que também é meu), enfim, a ideia não é contar o mapa do percurso. O lance foi que estávamos cercados pela Tropa de Choque da PM por todos os lados, frente, trás e laterais, que nos acompanharam até encontrarem um espaço propício – sem brechas pra fugas – pra armarem o circo. Foram bombas e mais bombas de gás lacrimogênio, não tinha pra onde correr, corria de um dos cordões da PM, caía nos cassetetes de outro. Sem ar, sem visão e com muita ardência na garganta, olhos e rosto, me encostei em uma galera que se refugiava quase que abraçados em um poste.

A PM se aproximava, de repente geral saiu correndo e sem conseguir abrir os olhos, tropecei e caí ali mesmo, no poste. Foi fichinha pra sentir o peso do coturno de um babaca que fez do meu estômago uma bola de futebol. E fez o trabalho direito: não podia me deixar seguir sem antes deixar algumas marcas roxas de lembrancinha. Tenho marcas no ombro, nos braços e o joelho tá praticamente tingido de preto. E na real não sei se foi o pé dele ou as borrachadas. Sei que foi feio, e quanto mais eu tentava gritar, mais parecia rasgar a garganta e o peito de tanta ardência. De-ses-pe-ra-DOR! Mas na luta sempre há bons companheiros, dois rapazes me tiraram de lá (coragem!!!) e me arrastaram até a Tok&Stok, uma loja que foi invadida pra que a galera se refugiasse. Lá esses dois rapazes me colocaram num sofá, me colocaram um óculos de proteção e encharcaram minha blusa de vinagre pra aliviar os sintomas do gás. Meu, eu não faço ideia nem de como era a fisionomia desses caras, mas não sei o que teria sido de mim se não fosse eles. Lamento de não ter tido força pra falar e agradecer.

UMA MENINA CAI NO MEIO DA AVENIDA REAGINDO MAL AO GÁS LACRIMOGÊNIO LANÇADO PELA POLÍCIA, UM DOS PMs SE APROVEITA DA VULNERABILIDADE DA SITUAÇÃO PRA CHUTÁ-LA FEITO ALMOFADA E PROVAR DE SUA FORÇA, ENQUANTO HOMEM, ENQUANTO FARDADO (nada covarde!).

Depois de ocupada a Tokc&Stok, um dos seguranças da loja (sei lá se por solidariedade ou por medo) nos orientou pra que saíssemos pelos fundos, que dava acesso a outra rua da qual a PM não estava. Muita gente – também passando muito mal – ainda demorou a sair. O PSTU, por sua vez, assim que abriram a dita porta, saíram freneticamente empurrando qualquer um que estivesse no caminho. NÃO VI NENHUM DELES PARAR PRA PRESTAR QUALQUER TIPO DE AUXÍLIO À GALERA QUE TAVA ALI, FERRADA, DESMAIANDO! Pelo contrário, sem qualquer VERGONHA, gritavam que “quem fosse do PSTU – E SÓ DO PSTU” erguesse a mão e os seguissem. Juro que eu queria ter gravado essa cena! O ápice do egoísmo, da falta de solidariedade, do segregacionismo E DO EGO! Isso depois de terem seguido em conflito com os Black Bloc durante todo o ato – uma oposição que, sabemos, já não é novidade. Pra afirmar ainda mais minha repugnância a tudo o que tinha visto – e vivido – naquele momento, uma colega também relatou que, para além dos conflitos, o PSTU chegou a fazer um cordão separando geral, que seguia em ato, dos Black Bloc, que também marchava. SIM, ISSO ACONTECEU! E quem tava lá, SABE DO QUE EU TO DIZENDO! Não quero aqui fazer cena ou dramalhão. Quero deixar dito a minha indignação, a minha revolta e a minha insatisfação, tanto com a PM, que mata gente todo dia, tanto com pessoas que se dizem de luta, mas não são capazes de olhar pra além do próprio umbigo quando há companheiros caindo bem ao lado. É isso.

Karina Morais